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Michael Moore: “Somos doutrinados a pensar que nascemos no melhor país da terra”

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Getty

Em “E Agora Invadimos o Quê?”, o cineasta ‘invadiu’ alguns países da Europa e comparou o que neles descobriu com o sistema social e político dos EUA. Resultado: a América sai de rastos.

Ele veio a este lado do Atlântico filmar fábricas, creches, prisões e restaurantes, refletindo em simultâneo sobre os maiores problemas sociais e políticos que atravessam a sociedade americana. E também visitou Portugal. Conversámos com o realizador de 62 anos numa roda de imprensa em setembro do ano passado, no Festival de Toronto e, meses mais tarde, completámos o diálogo num telefonema entre Lisboa e Nova Iorque.

Que diferenças traz este filme à sua obra?
A estrutura é semelhante à de “Fahrenheit 9/11”, eu continuo a ser o protagonista. Mas o ponto de vista e o método de trabalho são diferentes. Em “E Agora Invadimos o Quê?”, eu estou a descobrir coisas ao mesmo tempo que o espectador. Estou muito orgulhoso com o resultado.

Procurou na Europa um modelo de vida que os americanos nem sabem que existe. Ao mesmo tempo, há toda uma América carregada de problemas que também se revela ao espectador europeu...
E era fundamental ir comparando as coisas, mostrando-vos essa América! A Europa continua a alimentar a ilusão de que a América é um paraíso. Pois bem: não é! E este filme deixa esse aviso: tenham cuidado quando dizem que gostavam de ser como a América! Tenham cuidado, também aí, em Portugal! É que, se querem isso, vão ter que levar ‘o pacote inteiro’.

O que é que isso significa?
Vão ter que aceitar uma sociedade em que 40 milhões de americanos não conseguem ler uma história para uma criança de 10 e escrever sobre ela! Uma sociedade em que, em média, há um tiroteio por cada dia que passa. E por aí fora...

Porque é que nas suas visitas leva sempre uma bandeira americana?
Eu chamo a isso ironia e sátira (risos)! Não é uma peça de vestuário que use habitualmente!

Falando de coisas sérias, você não deixa de ser uma ‘personagem de comédia’...
Eu acho que sempre tentei fazer isso. Mas talvez nos filmes anteriores não tenha acertado tão bem no tom. Tenho esta teoria: quando estás mais triste, a comédia sai-te melhor. E a verdade é que fiz este filme num período triste da vida, seis meses depois da morte do meu pai e depois de um divórcio.

Esteve em Itália, Finlândia, também em Portugal e na Tunísia... Tinha alguma equipa em ação por trás que lhe ia preparando o terreno antes de cada visita?
Não, nós decidimos fazer o filme quase em ‘tempo real’, o que lá aparece era o que eu ia encontrando. Uma das raras exceções foi Portugal. Uma pessoa da nossa equipa chegou uns dias antes de nós. Já então sabíamos que íamos tentar falar com a polícia ou com alguém que representasse a Lei.

Os países que visitou são aqueles que aparecem no filme ou cortou alguns?
Cortámos a Áustria, a Estónia e o Canadá.

Porquê?
Não acredito que um filme deva durar mais do que duas horas! Deixámos excelente material de fora para ficarmos com aqueles 120 minutos. Na Estónia, por exemplo, investigámos o facto daquele ser o país com menor taxa de mortalidade por nascimentos do mundo. Comparativamente, uma mulher que dê à luz nos EUA tem três vezes mais hipóteses de morrer no parto.

O episódio português, que toca no tema da abolição da pena de morte, é particularmente sensível? Este é um dos assuntos que mais divide a sociedade americana...
Sim, é um dos assuntos que mais divide a sociedade americana. Ora, a pena máxima no vosso país são 25 anos de cadeia!... Deixe-me dizer-lhe isto: na primeira projeção do filme nos EUA, uma mulher negra veio ter comigo em lágrimas. Perguntei-lhe porque chorava. Ela disse-me que jamais imaginara na vida ouvir um polícia falar de dignidade humana.

Os polícias portugueses que entrevistou falam da pena de morte por iniciativa deles ou por sugestão sua?
Foram eles que insistiram em deixar aquele testemunho no depoimento. Portugal é um dos países mais pobres da Europa, com problemas sociais consequentes dessa condição. E, no entanto, é um país que decretou ser imoral o Estado tirar a vida a um ser humano. Estabeleceu um sistema em que o consumo de drogas foi despenalizado e é tratado como um problema de saúde, não como um problema criminal. Portugal tem que ser estudado urgentemente pelas autoridades dos EUA. Vocês estão a acabar gradualmente com as guerras da droga. Sei que a vossa realidade está cheia de problemas, mas os índices de liberdade e de democracia que têm conquistado desde 1974 são absolutamente espantosos quando comparados com os nossos! Nós precisámos de um século para acabar com a escravatura. Levámos 150 anos até deixar as mulheres votarem. Continuamos a condenar pessoas à morte.

A América tem dificuldade em aprender com o que vem do exterior?
Tem uma tremenda dificuldade e a minha única explicação para isso é esta: narcisismo nacional! Somos doutrinados a pensar que nascemos no melhor país da Terra. Ensinam-nos que fomos abençoados e que fazemos tudo certo. Também nos ensinam que o capitalismo é o máximo e que o lucro é mais importante do que as pessoas. Ora, é precisamente por isso que já não somos o nº 1 em nada. Já nem ganhamos guerras. Como todos os impérios que terminam, estamos em processo de ruína.

Qual é a sua opinião sobre as presidenciais americanas?
O Donald Trump é um tipo aterrador. Felizmente, há de sair derrotado. A Hillary Clinton é uma mulher sinistra. Votou a favor da Guerra do Iraque e de outras invasões. Se ela chegar ao poder, a América vai continuar a sua política de agressão.