Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A profanação de Pablo Larraín

  • 333

foto Vittorio Zunino Celotto/Getty Images

No novo filme do cineasta chileno, quatro padres e uma freira com crimes na consciência vivem isolados no purgatório de Deus e a salvo dos tribunais dos homens. Eis o ponto de partida de “O Clube”, já nas salas

Numa remota vila costeira do Chile, há uma casa de horrores a que Pablo Larraín chamou de “clube” e para onde a Igreja Católica enviou quatro das suas ovelhas mais negras. Os crimes que pairam sobre as suas cabeças, sexuais e políticos, e certamente ligados aos tempos da ditadura de Pinochet, são para nós mensagens sussurradas que só se vão definindo à medida que outras personagens chegam. Larraín acentua a tragédia e o cinzentismo da história recente do seu país mas também uma noção de humor e de absurdo. Trata ‘por dentro’ um assunto que está na ordem do dia. Com ele falámos no Festival de Berlim de 2015, onde a obra (nomeada para um Globo de Ouro) conquistou o Grande Prémio do Júri.

Porque é que fez este filme?
Queria tocar numa questão que julgo ser inerente à Igreja Católica. A Bíblia conta que Deus separou a luz das trevas e que, de acordo com o nosso comportamento, ou nos salvamos ou perdemos. Ou vamos para o Céu ou para o Inferno. Ora, eu não acredito nesta separação. É por isso que o filme começa com um cão a fazer um círculo. No fundo, quis falar de uma questão de impunidade. E de como a Igreja Católica, ao longo dos séculos, nunca acreditou e ainda não acredita na “justiça comum”. Para a Igreja, os julgamentos não são para os tribunais humanos, mas sim para Deus. E eu, que até admito ter respeito por esta ideia, não posso compreendê-la.

Como assim?
O que quero dizer é que respeito a fé dos seres humanos, mas quando há crimes envolvidos — e as personagens do meu filme respondem por crimes graves —, aqueles que os praticaram têm de ir para a cadeia.

Para uma cadeia que a Igreja Católica não aceita?
Exatamente. E lá voltamos nós a uma impunidade com a qual quase toda a gente na sociedade chilena se habituou a pactuar. A Igreja Católica é cúmplice de muitos crimes. Por exemplo, o que o sacerdote mexicano Marcial Maciel fazia na Legión de Cristo, os filhos, as violações, as orgias, tudo aquilo que depois se descobriu... Ele estava ligado a toda a aristocracia da América Latina. Entregava milhões de dólares todos os anos ao Vaticano. O Papa João Paulo II estava ao corrente desses crimes. E santificaram-no.

Qual é o maior receio da Igreja Católica no seu país perante os casos ficcionais, porém inspirados na realidade, que “O Clube” aborda?
O maior receio? São vocês, os jornalistas, os media. Já não é o Inferno que os assusta! Nem o Apocalipse! É muito interessante falar disto, porque nenhuma outra “instituição religiosa”, chamemos-lhe assim, desenvolveu uma tão grande paranoia face ao desenvolvimento dos media e das novas tecnologias como a Igreja Católica. Estas ‘casas de correção’ como a do filme existem um pouco por todo o mundo católico.

Falou com membros da Igreja antes de escrever o guião?
É claro que tive de o fazer. Falei com vários padres, muitos deles simpáticos, decentes, boa gente. Querem melhorar o mundo e salvar as almas. Seguem os preceitos da Santidade. Mas também falei com padres criminosos. Dois deles estão presos. Senti que estão um bocado perdidos para a vida. São casos conhecidos no Chile. Outros têm processos de julgamento em curso. Um destes, o sacerdote Cox [Francisco José Cox], foi acusado de pedofilia. Enviaram-no de imediato para um mosteiro no estrangeiro, aqui na Alemanha. Não pode ser extraditado e tem assim conseguido proteger-se da justiça. A Conferência Episcopal chilena pediu perdão pelos seus pecados. Mas este é um caso célebre. Estou a falar de alguém que em tempos foi arcebispo no Chile. Muitos outros padres ‘desapareceram’, sem deixar rasto, e não foi por milagre... Na pesquisa, procurámos-lhes o rasto. Descobrimos então aquelas ‘casas’, onde eles vivem como reclusos. Não falam com ninguém, não têm telefone. Os vizinhos não sabem quem eles são.

Mas há muito tempo que a Igreja lida com esse problema, ou não?
Sim, se abrir uma página na net e teclar “Siervos del Paráclito” descobrirá uma organização que fez exatamente isso. Foi fundada em meados do século passado, nos anos 50, e fechada em 2004. Durante 50 anos, essa organização ajudou padres com problemas. Perguntei-me porque é que o Vaticano não a criou antes.

O comportamento das personagens, em particular dos quatro padres, está ligado a testemunhos que recolheu nas suas pesquisas?
Está. Mas a história é mais complexa do que isso. Por exemplo, a personagem do louco, o Sandokan, vem de outra experiência. Levei à cena, no ano passado [2014], uma peça de teatro com o ator dessa personagem, Roberto Farías. Uma hora em monólogo que tenta sintetizar a fúria, o ódio, a vergonha, enfim, o sofrimento incessante de muitas vítimas que foram abusadas, órfãos sobretudo. Algumas dessas vítimas precisam de falar e, num estado de confusão enorme, contam o que lhes aconteceu ao mais ínfimo detalhe, como se a confissão também fosse, e eu acredito que é, uma terapia. Sandokan vem daqui. Mas eu não conheço as minhas personagens.

Em que sentido?
Não quero conhecê-las. Tento olhar para elas sem saber quem são. Esta é a única maneira possível de as humanizar no cinema. Acho que é por isso que não gosto dos filmes que me contam tudo.

Jaime Vadell, Alfredo Castro, Alejandro Goic e Alejandro Sieveking interpretam os quatro padres proscritos de “O Clube”

Jaime Vadell, Alfredo Castro, Alejandro Goic e Alejandro Sieveking interpretam os quatro padres proscritos de “O Clube”

O que mais o impressionou nas suas pesquisas para “O Clube”?
Uma coisa tão simples quanto isto: falei com muita gente, li centenas de artigos e entrevistas, e nunca, mas nunca um único padre acusado foi capaz de assumir e dizer: “Eu fiz isto. Eu sou culpado.”

Está à espera de alguma reação da Igreja Católica ao filme?
Não. Conheço demasiado bem o terreno que estou a pisar e sei que o Vaticano jamais irá responder. Nunca o faz. Consideraria que nos estava a dar atenção e publicidade extra. De resto, ando a fazer filmes com o meu irmão [o produtor Juan de Dios Larraín] há mais de dez anos e, quanto mais filmes fazemos, menos adivinhamos as reações que eles provocam.

Há alguma coisa de espiritual para si no cinema?
Não, eu diria que o cinema está ligado de base à condição humana. E a espiritualidade é apenas uma das suas facetas. Acredito que não podemos separar o cinema de nenhuma atividade humana — é essa a regra.

Qual é a sua opinião sobre o Papa Francisco?
Acho que ele tem, francamente, o talento e a possibilidade de mudar a Igreja e os seus comportamentos de uma ponta a outra. Veremos se o faz gradualmente. Ou se aquilo que me parecem ser promessas são apenas um show.

Foi fácil chegar ao final do filme?
Foi incrivelmente difícil. Escrevi e cheguei a filmar três finais diferentes. Mas nunca, por nada deste mundo, lhe contarei os outros!