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Quando a música era protesto

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João Afonso (de rosto semi-tapado), sobrinho de José Afonso, e João Ricardo no concerto nas ruínas do Carmo

D.R.

Uma conferência em Lisboa recorda uma forma de intervenção que parece ter passado de moda, mas ainda se mantém sob outras roupas

Luís M. Faria

Jornalista

Nos anos 60 e 70, a chamada canção de intervenção, ou protesto, teve o seu período glorioso. Era o tempo da guerra do Vietname e do anticolonialismo, do combate pelos direitos civis e contra o capitalismo. Em Portugal, a ditadura ainda não tinha caído e havia uma guerra colonial em curso. Após o 25 de Abril, a luta continuou, com uma revolução que era essencial aprofundar, ou não. Essas causas entretanto esmoreceram (hoje atacar o sistema parece ser menos importante do que arranjar um emprego decente, pelo menos até o sistema chegar a um tal ponto que impede as pessoas de ter trabalho). O velho espírito, sem dúvida, já não é o que era. No entanto, cantores como José Afonso, Fausto, Sérgio Godinho, José Mário Branco e Vitorino permanecem no coração – e nas aparelhagens sonoras – de muita gente no nosso país. Vários deles, aliás, continuam em atividade.

Agora o tema é objeto de uma conferência internacional em Lisboa. Sob o título Canção de Protesto e Mudança Social, ou ICPSong'16, envolve dezenas de participantes, nacionais e estrangeiros (ligados a causas como a Palestina e o antinuclear), e decorre até amanhã na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova. A ligação entre música e política é especialmente relevante num país como o nosso. Conforme lembra uma das organizadoras, a professora Maria de São José Côrte-Real, “a canção de protesto legitimou-se em Portugal porque a revolução teve como senha de passagem música, e houve músicas que prepararam a população para a revolução. Etnologicamente, tivemos a sorte de isso ser assim”.

Capas de vinil, visita à saudade

A canção de protesto tem raízes muito anteriores aos anos 60. Côrte-Real menciona Fernando Lopes-Graça, logo nos anos 40, bem como influências francesas, da América Latina… A conferência, que não esquece as vertentes estrangeiras do fenómeno, foi uma ideia surgida no âmbito das atividades do primeiro ano do Observatório da Canção de Protesto. Promovida pela câmara municipal de Grândola em colaboração com a Associação José Afonso e com a Música Velha, o Observatório esteve para nascer em 2007 mas só o conseguiu em 2014, quando a Universidade Nova se associou ao projeto. Dois institutos há muito associados ao projeto, o Instituto de História Contemporânea e o Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos em Música e Dança, organizam o ICPSong’16 em colaboração com o CESEM - Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical.

Além das conferências, o evento inclui uma exposição com capas originais de discos – 270 exemplares, escolhidos entre os 550 de uma coleção particular, e perfeitos para suscitar uma visita ao passado em quem cresceu com aquela música empenhada e aqueles grafismos a duas ou três cores que hoje podem parecer quase artesanais, mas têm q.b. de sofisticação, não raro ácida. Há ainda eventos musicais, incluindo o concerto realizado nas ruínas do Carmo, onde o Coro de Câmara da Universidade de Lisboa cantou Lopes-Graça e solistas da Metropolitana tocaram Prokofiev e arranjos de José Afonso. Um sobrinho do cantor, João Afonso, apresentou canções suas e do tio.

“Atitude menos panfletária”

Um dos representantes estrangeiros no ICPSong’16, proveniente dos EUA, é Tony Seeger, etnomusicólogo e sobrinho do famoso cantor Pete Seeger. Consultor do Observatório, fez trabalho de campo com os índios da Amazónia e fala português. “É uma pessoa muito especial”, diz Côrte-Real, cuja própria tese de doutoramento, sobre política cultural e expressão musical, versou os modos como a expressão musical foi tratada pelo antigo regime e pela revolução. Embora as circunstâncias tenham mudado, ela acha que a canção de protesto ainda faz sentido hoje. Até porque, explica, “com o poder dos meios de comunicação social, salta para fora muito mais rapidamente”.

Contactado pelo Expresso, o crítico musical Rui Eduardo Paes explica que “houve nestas últimas décadas uma mudança de atitude para que a música cantada não fosse tão panfletária”. Menciona os percursos recentes de alguns cantores icónicos dos anos 70, e nota que “não há ninguém novo” com as características que eles tinham. Porém, ainda existe canção de protesto, sobretudo no hip-hop e no rap, e também nalgumas bandas de rock. Os temas, mais do que políticos no sentido estrito, tendem a ser sociais e bastante concretos, como no caso de bandas em cujas letras convergem temas tão distintos como o anarquismo e os direitos gay.