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“Adorava ver o Cristiano Ronaldo a olhar nos olhos o Amadeo de Souza-Cardoso”

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AGORA EM PARIS. Helena de Freitas durante a exposição de 2006 na Gulbenkian dedicada a Amadeo de Souza-Cardoso, que comissariou

FOTO INÁCIO LUDGERO

Se acha que a arte e o futebol não se misturam, pense outra vez. Helena de Freitas, historiadora de arte que organizou no Grand Palais, em Paris, a exposição sobre Amadeo de Souza-Cardozo, explica porquê, enquanto compara a criatividade do antigo artista português com a de Cristiano Ronaldo (e diz que Paula Rego adorou Jorge Jesus)

Mariana Cabral

Mariana Cabral

enviada ao Euro 2016

Jornalista

Há coincidências espantosas e esta foi uma delas: enquanto apreciava a exposição sobre Amadeo de Souza-Cardoso, no Grand Palais (exposta até 18 de julho), comecei a ouvir alguém a falar em português.

Um olhar mais atento revelou de quem era a voz: Helena de Freitas, ex-diretora da Casa das Histórias Paula Rego, estava a mostrar a exposição da qual foi curadora a alguns familiares. Ela não me conhecia e eu também não a conhecia, mas conhecemo-nos ao almoço, numa conversa que misturou o que não costuma ser misturado.

Tenho de lhe pedir alguma paciência, porque os meus conhecimentos de arte não são vastos.
[risos] Tenho imensa paciência.

A última vez que estive aqui no Grand Palais, no final do ano passado, vi uma exposição de Picasso. E agora o espaço é de um português chamado Amadeo de Souza-Cardoso.
Também vi essa exposição. É de facto muito importante ter uma exposição de Amadeo aqui, depois de uma exposição de Picasso. Foi um longo caminho para chegar cá.

Como surge esta exposição?
Surge de uma vontade de apresentar o artista num plano internacional. Amadeo, em vida, foi um artista de sucesso, circulando com o mesmo à vontade entre Manhufe, a sua aldeia natal, e Paris, onde era reconhecido pelos seus pares. Ele morre em 1918 e de certo modo há um silêncio que cobre a sua obra depois disso. Há um longo e penoso caminho para reintroduzir o artista com o mesmo reconhecimento que ele tinha em vida. É difícil, porque houve muitas décadas de silêncio e enquanto se fazia a história de arte internacional o artista não estava presente. Mas isto acontece agora porque de facto o artista é bom. O diretor do Grand Palais, Laurent Salomé, reconheceu-o como um excelente artista, a ser exposto nas mesmas salas onde expôs anteriormente Picasso e Vélasquez.

Mesmo em Portugal, Amadeo é relativamente desconhecido?
Não, em Portugal já é muito conhecido. Tem sido regularmente exposto, mas é claro que devia ser exposto em permanência. Mas o museu de Amarante, por exemplo, tem sempre em exposição obras do artista. E a Fundação Gulbenkian também se ocupa da sua visibilidade. Acho que os portugueses conhecem pelo menos o nome Amadeo de Souza-Cardoso. Mas é claro que deviam conhecer mais [risos]. Sobretudo para que se perceba que é de facto um artista internacional, cosmopolita, não era um fenómeno local. Não era só um artista português, era um artista que em vida circulou por todo o mundo. Portanto é importante tentar fazer o mesmo, 100 anos depois.

Ele parecia ser um espírito muito livre, sempre a viajar e nunca querendo ficar conotado com uma corrente artística.
Ele era um artista culto, com uma grande cultura visual, que via muita coisa e era muito influenciado pelos primitivos. Também tem um grande conhecimento sobre as propostas de rotura do seu tempo. Era amigo de muitos daqueles artistas que hoje em dia reconhecemos como grandes valores, como Picasso, Modigliani, Brâncuşi… Ele fez um caminho no centro das vanguardas do seu tempo, tinha uma sede experimental. Era um artista muito jovem, que tinha essas referências e conhecimentos, mas queria construir um caminho só dele, que não fosse confundido com mais nenhum. Por isso é que ele recusa a ideia de escola. Ele não é um académico, é um artista que tem um espírito muito inventivo. Quando falamos de Picasso, sabemos o que ele fez, reconhecemos a identidade dele. Acho que é assim que se percebe que alguém é um grande artista. Ele tinha consciência que queria fazer um trabalho que fosse só dele, por isso essa ideia da independência e da pluralidade. Aí percebemos também a relação com o movimento futurista do seu tempo e com o Fernando Pessoa, com o espírito da heteronímia. A ideia do ser plural, como dizia Fernando Pessoa, como o universo - Amadeo sabia fazê-lo.

Foi difícil reunir as obras para esta exposição?
Para fazer a exposição demorámos um ano e meio, mas ainda há muito trabalho de investigação feito por trás, e já havia um conjunto de edições feitas pela Fundação Gulbenkian. Também já tinha havido outras exposições do estado português e de outros organismos, e estudos universitários. Tudo isso contribuiu para tornar este projeto viável.

Tem corrido bem? Ou seja, também vão controlando as audiências, como as televisões?
Tem corrido bem. É parecido, vemos as audiências com muito cuidado, como todos os museus, que seguem cuidadosamente os números do público. E tendo em consideração que este é um artista desconhecido e que estará no último lugar da lista de artistas apresentados em Paris, que tem muitos nomes e são todos hiper conhecidos, como o Rousseau, o Apollinaire, o Klee… No fim dessa fila está um artista que ninguém conhece, que é apresentado no Grand Palais. Achou que a exposição tinha pouca gente?

Não, pelo contrário.
Pois não. Estava bem e aos fins de semana ainda está melhor. É claro que queremos mais, mas percebemos que o artista é desconhecido. Mas temos tido um feedback muito bom de críticos e imprensa. Os franceses têm gostado.

E os franceses são muito críticos.
Os franceses são hipercríticos, ficam bastante surpreendidos com o Amadeo, porque há aqui de facto uma linguagem plástica que é nova e que os desconcerta, porque não são padrões visuais a que estejam habituados. Eles vêm e passam a palavra, como eles dizem, é o “bouche à oreille” [risos]. Mas claro que era importante que a comunidade portuguesa aderisse, para nunca mais eu ouvir dizer, como ouvi muitas vezes, “mas afinal quem é este artista”? Não sabiam, mas agora já sabem.

Alguma vez entra na exposição e fica só ali a ouvir o que as pessoas dizem?
[risos] Não, mas agora vou fazer isso. Mas estou sempre atenta ao que oiço, porque recebo muitas pessoas que vêm ver a exposição. Daquilo que percebo, as pessoas olham com muita curiosidade - olham e tornam a olhar.

Gosta de futebol?
Gosto, gosto. Sabe porquê? Porque gosto muito de arte e pintura e desenho, e adoro ver jogos de futebol em que consigo perceber como é que as jogadas se desenvolvem no espaço do jogo. E também gosto quando Portugal ganha, claro [risos].

O futebol também tem um lado artístico.
Tudo se liga, sabe?

Há uns tempos o Jorge Jesus foi visitar uma exposição da Paula Rego e teve umas declarações interessantes.
Lembro-me muito bem disso, sim, sim. E até lhe posso dizer que nessa altura a Paula Rego gostou imenso do Jorge Jesus.

O futebol é arte?
Acho que o futebol pode ser olhado como uma manifestação artística, se for bem jogado. Esses jogos bons gosto muito de os ver. Os jogos em que consigo perceber que há uma premeditação nas jogadas e que há movimentos de grupo. Nas artes também há movimentos de grupo e às vezes essas manifestações coletivas são as mais bem sucedidas. É preciso é conseguir trabalhar bem em equipa.

Fazendo uma comparação futebolística, o Amadeo seria um Ronaldo, se não tivesse morrido tão cedo? Apesar de ser uma comparação meio mórbida.
Um bocado [risos]. Não queremos que aconteça nada ao Cristiano Ronaldo. O Amadeo era uma estrela também. No tempo dele não tinha era os mecanismos que hoje em dia há de difusão e divulgação, estamos a falar de um tempo diferente. Mas adorava que o Cristiano Ronaldo viesse ver a exposição. E não só, toda a comitiva portuguesa. Gostava que o Ronaldo se reconhecesse no Amadeo, alguém que, como ele, também nasceu em Portugal e teve tanto triunfo em vida internacionalmente, porque o Amadeo esteve representado nas principais exposições do seu tempo. Foi também um símbolo de grande triunfo internacional para o país. Mas como, enfim, naquele tempo Portugal não ajudou e houve depois o silêncio da ditadura, tudo pesou sobre a obra dele. Esse triunfo foi-se apagando e estamos na altura de recuperá-lo. Por isso adorava ver o Cristiano Ronaldo a olhar nos olhos o Amadeo de Souza-Cardoso [risos].

E os adeptos que vêm agora a Paris ver a seleção portuguesa e o Euro, por que razão devem vir ver a exposição?
Primeiro, pelas razões óbvias, pela nossa cultura. Esta exposição está estruturada para toda a gente a compreender, há um discurso muito pedagógico e imediato. Quem não conhecer Amadeo fica a conhecer. Nunca mais se vai esquecer. E para quem gosta de movimento e de desporto, uma das principais características da obra de Amadeo é a representação da velocidade. É podermos ver em pintura ou em desenho, que são espaços estáticos, a representação dessa velocidade e desse movimento. Se nós virmos um jogo é a mesma coisa, acabando com a vontade de alcançar um objetivo. E uma das obras de Amadeo, o ex libris, com dois castelos, tem uma frase importante: “atingir é vencer.” Quer melhor lema para um jogador de futebol? [risos] Ou seja, a ideia do triunfo, a ideia de algo que é preciso atingir e vencer, como artista ou jogador de futebol, ou outra coisa qualquer. Acho que há aqui imensos pontos em comum.

Vai acompanhar o Europeu?
Se puder, vou. Não tenho bilhetes, mas vou tentar ver Portugal, nem que seja na televisão.

Está a morar em Paris?
Estou.

Teve medo nos últimos meses?
Olhe, aprendi uma grande lição com os franceses, que foi a lição da resistência. Os franceses souberam resistir e mostrar isso ao mundo. Estava cá na noite dos atentados, estava sozinha em casa e passei a noite acordada. A tentar perceber o que estava a acontecer. Nos primeiros dias foi muito difícil enfrentar a cidade, mas fui para a rua, tal como os franceses. Há um espírito muito forte de resistência pelos valores da liberdade, da nossa democracia e da nossa cultura. Havia apelos nos cafés para que se resistisse, para voltarmos à nossa vida, para não nos deixarmos atingir no nosso modo de vida, que é um modo de vida feliz. Os jovens aqui encontram-se nas esplanadas todos os dias, namoram, são felizes, riem-se e hoje em dia continuamos a ver o mesmo. É claro que as ruas são mais policiadas e é claro que cada vez que entro no metro ou num espaço com um aglomerado mais denso posso imaginar alguma coisa a acontecer, mas pode acontecer em qualquer parte do mundo. Temos é de resistir, mostrando que o nosso modo de vida é assim, é feliz. E se o Euro for feliz, ainda melhor. É também uma forma de afirmação da nossa identidade cultural e dos nossos valores.