Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

John Banville: “Sonho os livros até se tornarem reais”

  • 333

nuno botelho

O escritor irlandês, vencedor do Man Booker Prize em 2005, esteve em Lisboa para apresentar o seu mais recente romance, “A Guitarra Azul”

O protagonista de “A Guitarra Azul” [Porto Editora] é um pintor egocêntrico, de temperamento obsessivo e algo desagradável. Foi difícil viver com ele durante o longo tempo da escrita?
É sempre difícil. Porque escrever um livro é muito diferente de ler um livro. O leitor acompanha as personagens durante o tempo que demora a ler o livro, que pode ser três ou quatro dias, enquanto eu vivo com elas durante três ou quatro anos. Vivo é como quem diz. Na verdade, as personagens são feitas de palavras, não existem. Nunca estiveram sentadas ao pé de mim, na sala. Nem tive de as alimentar ou de lhes mudar as ligaduras. Mas é maravilhoso poder inventá-las. Sobretudo para quem sofre de insónias, como é o meu caso.

Enquanto está deitado noite fora, sem dormir, vai escrevendo mentalmente?
Sim. Escrevo muitíssimo. E depois no outro dia, ao acordar, já esqueci tudo. O que provavelmente é uma coisa boa. Uma vez perguntaram ao Beckett porque dera o título “Companhia” a um dos seus textos tardios, e ele respondeu: “Porque um livro faz companhia.” E faz mesmo. Os meus livros são as minhas criaturas. Sonho-os até se tornarem reais.

Isso não significa que goste necessariamente das suas criaturas.
Claro que não. Não tenho de sentir nada em relação a elas. Limitei-me a fazê-las. Deus também não gosta de nós nem deixa de gostar. Limitou-se a fazer-nos. E depois tem de nos aturar.

É mais fácil escrever sobre personagens com as quais sente afinidades ou sobre aquelas que nada têm a ver consigo?
Bem, a verdade é que todas elas têm a ver comigo. Somos monstros e anjos, ao mesmo tempo. Quando me sento a escrever, eu, o John Banville cidadão, com as suas opiniões, deixa de existir. E há outro que toma o meu lugar. À falta de melhor termo, podemos chamar-lhe o John Banville “artista”. Eu não sei quem ele é, por isso não compreendo como trabalha.

Esse “artista” que escreve é um mistério para si?
Um mistério completo. E, quanto mais velho vou ficando, mais misterioso se torna. Todos os dias são uma surpresa. Mas eu tento confiar na minha imaginação. E nas palavras. Embora a linguagem se revele, a cada passo, uma entidade escorregadia e enganadora. A linguagem está sempre a fugir-nos. Quando lemos algo escrito por nós, sentimos sempre estranheza: “Não era bem isto que eu queria dizer. Quem é que fala aqui?” Talvez seja a própria linguagem, porque ela quer sempre fazer as coisas à sua maneira.

É mesmo verdade que não gosta de nenhum dos seus livros?
Eu não gosto deles, é um facto. Mas, se gostasse, ficaria preocupado. A minha mulher costuma dizer: “Se escrevesses um livro absolutamente perfeito, terias de desistir da literatura. Não haveria mais nada que pudesses fazer. A não ser, provavelmente, enveredar pela política. E destruir o mundo.” [risos]

Não faltam exemplos de políticos que começaram dessa forma.
É verdade. Estaline, Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Hitler. Todos eles foram artistas falhados. Não há nada mais perigoso do que um artista falhado.

Oliver, o protagonista de “A Guitarra Azul”, decide abandonar a pintura porque não consegue alcançar, com a sua arte, a essência das coisas. Não acontecerá o mesmo aos escritores?
Claro que sim. Nunca chegamos à essência das coisas. É por isso que continuamos a tentar. Aproximamo-nos cada vez mais, até percebermos que não existe essência nenhuma. Não há um sentido para as coisas. A vida não tem de ser explicada. É incoerente. Não há enredo.

No próprio livro também não existe propriamente enredo. Tudo se resume a uma história de adultérios cruzados, o que está longe de ser original.
Tem razão. Esta não é uma história original nem queria ser. É banalíssima, como todos os enredos são. Agora, a forma como o Oliver narra as histórias pode parecer caótica, mas é um caos cuidadosamente planeado. Todas as frases, todas as palavras foram muito pensadas. Muito reescritas.

Como é que se processa essa reescrita?
À medida que escrevo. Não guardo para o fim. Caso contrário, esse trabalho nunca acabaria.

Alguns escritores, como Don DeLillo, têm como unidade o parágrafo. No seu caso...
...é a frase. Sempre a frase. Com cada uma, é uma questão de esculpir e polir. É como eu trabalho. Ao contrário de alguém como DeLillo, não tenho interesse em falar do mundo. Não quero saber o que as pessoas fazem. Só me interessa o que as pessoas são.

Além de pintor, Oliver é ladrão assumido. O que o atrai na ideia do roubo?
Creio que se trata de uma metáfora da arte. A arte apropria-se das coisas. Como diz o Oliver, roubar coisas devolve-lhes o seu valor. Quando as outras pessoas deixaram de se interessar por uma coisa, basta roubá-la para que essa coisa recupere o brilho, para que se torne de novo viva. E a arte também faz isso. Mostra o que pode haver de extraordinário no que considerávamos vulgar.

O título do livro remete para um poema de Wallace Stevens, a partir de um quadro de Picasso, onde se diz que com uma guitarra azul é impossível tocar “as coisas como elas são”. Não é, decerto, uma referência inocente.
Convém dizer que o poema é muito bom e o quadro do Picasso muito mau. Eu sou um grande admirador do Wallace Stevens. Creio que as preocupações dele são as minhas. Ou, mais modestamente, deveria dizer que as minhas preocupações coincidem com as dele. Sempre gostei do Stevens, embora não tenha a pretensão de dizer que o entendo. E não sei se o próprio Wallace Stevens entendia tudo o que Wallace Stevens escreveu. É uma poesia muito difícil.

Por onde começa um livro como este? Por uma personagem, uma imagem?
Nunca me lembro. Creio que os livros começam por uma espécie de tensão no espaço. Ontem li um texto do filósofo Alain Badiou sobre a existência de elementos das histórias de detetives na poesia de Mallarmé. Encontrei nesse texto esta bela frase: “Uma sala vazia, uma jarra, o mar escuro: qual é o mistério, aqui?” E imaginei logo a sala vazia na minha cabeça. Há ali talvez o início de um livro que posso escrever mais tarde. Mas, claro, vou esquecer-me de que esta frase esteve na origem de tudo.

É então uma coisa abstrata.
Sim, uma coisa abstrata. Um amigo meu, compositor, disse-me: “Há um grito dentro da minha cabeça e tenho de o conseguir transpor para a orquestra.” Compreendo perfeitamente o que ele quer dizer.

Tal como o grito, também precisa de transpor a tal tensão para o livro.
Não é bem isso. Preciso é de resolver a tensão. E só o posso fazer através da escrita, criando o livro. Mas a resolução nunca chega. É como um problema de palavras cruzadas inacabado. O livro nunca termina, nós é que desistimos, quando percebemos que é impossível ficarmos mais perto de o fazermos bem.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 4 junho 2016