Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A morte do romance

  • 333

O namoro esteve sempre em crise, escreve Moira Wegel, doutoranda em Yale, num livro que traça a origem do romance moderno, que se desenvolveu sempre a par das pressões económicas

“Labor of Love: The Invention of Dating”, Moira Weigel, Farrar, Straus and Giroux, 304 páginas, €14,60 (preço na Amazon)

“Labor of Love: The Invention of Dating”, Moira Weigel, Farrar, Straus and Giroux, 304 páginas, €14,60 (preço na Amazon)

Aconteceu à autora deste livro exatamente aquilo pelo qual quase todos nós já passámos: um desgosto amoroso. Moira Wegel deve ter carpido as suas mágoas, imagina o comum dos mortais, mas tratando-se de uma doutoranda na Universidade de Yale, que escreve sobre questões de género, cultura e media, aproveitou o rescaldo do romance para escrever o seu primeiro livro.

A determinado ponto, Weigel, ainda na casa dos 20 anos, apercebeu-se que, afinal, não sabia exatamente o que pretendia do seu companheiro, baseando as suas relações amorosas num modelo que é ditado pela cultura popular e pelas revistas femininas. Na verdade, percebeu, no que ao amor diz respeito, não estava a viver de acordo com os seus desejos, mas com aquilo que a sociedade define que devem ser os seus desejos.

Na verdade, a teoria não é nova. O romance e a forma como os relacionamentos amorosos acontecem é definido pelo seu próprio tempo. Mas o que Weigel pergunta, no seu livro, é: “Alguém ainda namora?”. A pergunta é pertinente, olhando para as novas formas de relacionamentos forjadas pelas tecnologias como o Tinder e que levam a que os sempre vivos “velhos do Restelo”, mais uma vez, levantem a voz para dizer: “O romance amoroso está em crise”. Mas a verdade é que estas vozes sempre levantaram, ao longo do último século, os mesmos que Moira Weigel investiga.

Analisando a história do amor e do sexo na América Moderna, é possível perceber que, em toda a época, as gerações mais velhas sempre fizeram questão em dizer que, agindo de determinada maneira, os seus descentendes estavam longe de encontrar o verdadeiro amor. Este caminho, contudo, não se fez sem dor, que não só a das separações: as primeiras mulheress que começaram a namorar publicamente nas ruas, no início do século XX, chegaram a ser presas, acusadas de prostituição.

Os desafios de hoje são diferentes, mas também são os mesmos: afinal, os pais que estão agora preocupados com a forma como os seus filhos constróem relações através das aplicações dos smartphones fazem lembrar, a papel químico, os progenitores que há umas décadas atrás desconfiavam das intenções do rapazola que aparecia lá em casa a convidar a sua filha para irem ao cinema, ao ar livre (aqui, portugueses, devemos muito ao imaginário cinematográfico que o cinema norte-americano nos deixou). De uma forma ou de outra, estes pais sempre viram nestes comportamentos do prenúncio do fim do amor. O romance está em morte constante.

Escrito por uma académica, este livro é académico. O namoro — 'dating', no original — diz respeito, segundo a autora, à “prática do romance”, mas muitas das vezes até é pouco romântico. Às vezes, é tão mecânico quanto a repetição do texto de uma peça de teatro. Que outra coisa pode ser, que não 'mise en scène'? Weigel foca-se sobretudo no guião romântico posto em cena pela população feminina, branca, de classe média alta e licenciada.

O namoro foi inventado no século XIX, quando as raparigas e mulheres saíram das pequenas vilas ou do 'Velho Continente' para as grandes cidades norte-americanas. Nas famílias burguesas, o candidato a namorado tinha de apresentar-se à família da rapariga, deixar as suas referências e esperar que o deixassem sentar-se, na sala comum, com o objeto do seu amor. Nas classes mais modestas, namorava-se na rua e convinha a qualquer rapariga escolher um namorado que ganhasse, pelo menos, o dobro do seu salário e que pudesse pagar a conta no restaurante.

À medida que o século XX foi fazendo o seu caminho, que mais homens e mulheres passaram a estudar, o conceito de namoro passou a ter padrões tão rígidos — era possível namorar sem que tal significasse casamento. Na verdade, o namoro transformou-se numa espécie de moeda, numa forma de avaliar o valor social de uma pessoa.

A economia e o amor

Para Weigel, como aponta a revista norte-americana “New Republic”, as tendências do romance estão ligadas às tendências económicas — daí que muita da gíria do namoro (será?) derivem da linguagem dos mercados: “levantar o produto”, “comprar a vaca” ou “produto com defeito”. Não se trata de uma coincidência que, esclarece a autora, de que a ascensão da cultura monogâmica e dos casamentos em série (“the rise of serial monogamy”) nas décadas de 1940 e 1950 aconteça na época da ascensão da cultura do consumismo e da “obsolescência dinâmica” no marketing. Nas décadas seguintes, o nascimento do “marketing de nicho” tornou o acasalamento menos variado, com os americanos a casarem-se com pares idênticos em termos de rendimento e de habitalitações.

Agora, as pessoas trabalham ainda mais, num mercado de trabalho precário: muitos milhões são trabalhadores freelancers, por sua conta e risco, numa economia em grande parte baseada nos serviços. Assim, têm a pressão de ser constantemente apetecíveis, disputados e empregáveis. Mais ou menos o que se passa na nossa vida romântica. “O namoro treina-nos para a carreira, e vice-versa”, escreve Moira Weigel.

Já não faz sentido um enamorado dizer para o outro: “Apanho-te às seis”, afinal vivemos num mundo em que muitos dos empregos/trabalhos deixaram de ter horário fixo de trabalho. Num mundo feito de trabalhadores independentes e de empregados precários, o amor agora também é 'freelance'. “Tens planos?” é a questão que se impõe, a qualquer hora da noite e dia, via SMS ou mensagem numa qualquer rede social.

De acordo com um estudo citado pela autora, que questionou um grupo de Millennials (nascidos entre 1980 e 2000) sobre o tema, 80% afirmam que pretendem casar, mas muitos estão confusos sobre o 'quando' e o 'como'. Não parecem saber explicar no que consiste o namoro, havendo um sem número de definições para o mesmo. “Ser adulto, hoje, é tornar-se responsável por determinar as regras pelas quais iremos namorar”, diz Weigel. O amor está, pois, em morte continuada. Como será o romance daqui a 50 anos?