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Geografias inventadas, rock psicadélico e paradoxo de Rosseau. Há de tudo, ora Eça!

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Susana Neves

“Nunca Mates o Mandarim” conjuga a força e a crueza da prosa de Eça de Queirós, um retrato fantástico de uma longínqua China onde o autor nunca esteve e junta-lhe as derivas mentais do rock psicadélico. A peça estreia amanhã no Porto no TNSJ

André Manuel Correia

Pode a prosa queirosiana conviver com o rock psicadélico? Pode o realismo mesclar-se com o encanto de geografias inventadas? A peça “Nunca Mates o Mandarim”, uma encenação de Gonçalo Amorim a partir da novela “O Mandarim” de Eça de Queirós, é a prova disso mesmo. Ao explorar as entranhas de um território psicológico cheio de armadilhas, dominado pela ambição exacerbada e por uma moralidade escassa, é retratada em palco a viagem de Teodoro até ao lado mais pungente do remorso, do arrependimento e do conflito moral. É um “Fausto à portuguesa”, como descreve o encenador, e uma incursão do mais reputado escritor realista português por universos fantásticos. O espetáculo estará em cena a partir desta quinta-feira e até 19 de junho no Teatro Nacional São João (TNSJ).

A ação desenrola-se em torno de Teodoro, um anti-herói, um escrivão do reino que se governa com apenas 20 mil reis por mês. Sentado numa poltrona da pensão onde reside e da qual apenas sai para trabalhar e comprar livros na feira da ladra, entrega-se a uma reflexão da sua própria condição social, enquanto sacia a fome com comida chinesa. Este homem é o retrato de alguém com uma existência rotineira, monótona e pautada pelas frustrações de não conseguir fruir dos prazeres da vida e futilidades que lhe são vedados.

Subitamente, um encontro com o Diabo revela-se como uma possibilidade incrivelmente fácil de abandonar o tédio e a mediocridade em que se vê mergulhado. O pacto é simples e tem por base o célebre paradoxo de Rosseau. Para alcançar uma fortuna incomensurável, Teodoro tem apenas de premir o botão de uma campainha. Ao fazê-lo, um endinheirado mandarim do outro lado do mundo morreria e o modesto funcionário do reino herdaria toda a sua fortuna. Uma proposta irrecusável e um gesto tão simples. Quantos diriam que não?

Em declarações aos jornalistas, após um dos ensaios da peça, Gonçalo Amorim reforçou a ideia de que “há um mundo que o dinheiro permite aceder e se tivermos 500 por mês não nos é possível”. Para o encenador, a moralidade que está presente nesta obra é: “será isso realmente importante?”

Para muitos, como Teodoro, a resposta é simples e não deixa lugar a hesitações. Ao tocar a campainha, rapidamente foi levado a experimentar alguns dos prazeres mais mundanos com os quais sempre havia sonhado. Essa ideia de premir um simples botão é, considera o encenador, “dar um passo muito maior do que a perna e é um ato que vemos diariamente a acontecer”. Para Gonçalo Amorim, esta é uma alegoria que se transporta para a realidade atual. “Só se ouvem por aí campainhas tocadas por gente que decide dar um encontrão e passar à frente do outro, para chegar muito rápido à ambição idealizada”, afirmou.

“Que impulso é este que leva alguém a matar um velho? Que impulso é este que leva alguém a ir a uma superfície comercial que venda roupa fabricada por crianças no Bangladesh?”, questionou Gonçalo Amorim. “São gestos aparentemente inocentes e que são praticados por todos”, denotou.

A riqueza e a luxúria de Teodoro não esbateu o remorso, o arrependimento e o conflito moral de saber-se responsável pela morte de alguém que não conhecia, mas cujo rosto o assombra constantemente. O personagem entra assim numa espiral de desfragmentação psicológica, perseguido por espectros criados pelo seu desmesurado desejo de enriquecer sem esforço.

A carga dramática desses combates interiores é acentuada neste espetáculo de forma musical, com uma partitura sonora da banda FERE, umas das muitas formações alternativas incubadas no centro comercial STOP e com uma sonoridade próxima do rock atmosférico e psicadélico.

“Nunca Mates o Mandarim” conta ainda com o trabalho de vídeo de “Granpa’s Lab”, a iluminação de Francisco Tavares Teles, enquanto a cenografia e os figurinos ficam a cargo de Catarina Barros.

A incursão de um autor realista pelo fantástico

Quando escreveu a novela “O Mandarim”, em fascículos para uma revista francesa, Eça de Queirós nunca tinha visitado a China. Tal como, de resto, nunca chegou a fazê-lo. Tratou-se, assim, de uma incursão por um universo imaginário e fantástico do escritor realista, que à data desempenhava funções como cônsul em Cuba. Para a construção desta “China queirosiana”, o autor serviu-se de relatos de trabalhadores chineses que trabalhavam na apanha do cacau e com quem estabeleceu contacto.

Gonçalo Amorim confessou o seu “fascínio por geografias inventadas” e destacou a possibilidade de, ele próprio, ter a possibilidade nesta peça de trabalhar na fronteira entre a ficção e a realidade. “A forma como o Teodoro entra nas entranhas de um território imaginário comporta essa plasticidade que depois está muito presente nesta adaptação”

A peça é uma coprodução entre o Teatro Experimental do Porto e o TNSJ. As sessões realizam-se à quarta-feira, pelas 19h, de quinta-feira a sábado, às 21h, e ao domingo à tarde, às 16h em ponto. As récitas de 15, 16 e 17 de junho inserem-se na programação do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica.