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Haverá sangue

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A REALIDADE ULTRAPASSA A FICÇÃO. Sherlock Holmes, aqui interpretado por Basil Rathbone, é uma das personagens do mundo do crime mais amadas do mundo. O jornalista de crime Duncan Campbell conta-nos outras histórias, mas desta vez, reais

Repórter de crime há mais cinco décadas, o britânico Duncan Campbell conta 300 anos da história do crime e das relações mais obscuras entre jornalistas e polícia

Os autores nórdicos têm, nos últimos anos, ocupado uma grande parte das prateleiras dedicadas à literatura de crime, aos thrillers e ao suspense. Contudo, se pensarmos nas histórias de sangue mais épicas que conhecemos, como os assassinatos em série de prostitutas perpetrados pelo incógnito Jack the Ripper, no ido ano de 1888 no distrito de Whitechapel, rapidamente as nossas mentes viajam até ao Reino Unido. Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, também britânicos, deixaram como herança personagens míticas devotadas ao sangue e à resolução de crimes, como Hercule Poirot ou Sherlock Holmes, que ainda hoje inspiram outros autores e continuam a alimentar o imaginário dos leitores e da indústria do cinema e da televisão. Se toda a gente gosta de uma boa história com a pitada certa de mistério e crime, os britânicos parecem ter uma especial propensão pelo tema.

E, como se sabe, nestas coisas, a realidade tende a ultrapassar largamente a ficção — e são precisamente as histórias reais, duras, que o veterano repórter de crime, Duncan Campbell, conta no seu livro.

Durante cinquenta anos, quase duas décadas ao serviço do The Guardian, reportou e investigou algumas das histórias mais horrendas de crime no Reino Unido. Mas não se trata apenas de contar histórias. Em “We'll All Be Murdered in Our Beds” (em tradução livre, “Todos seremos assassinados nas nossas camas”), a narrativa de Campbell põe também a descoberto as ligações mais perniciosas entre jornalistas e as autoridades.

Não é só de sangue e de informação que se fazem estas histórias: também por elas corre álcool e envelopes com subornos, práticas que, apesar de tudo, estão mais mitigadas desde 2011, quando se percebeu que o tabloide 'News of the World' tinham entrado no telemóvel da estudante Milly Dowler, assassinada.

É o retrato destes crimes e destas ligações insidiosas, desde os alvores de 1700, que Duncan Campbell expõe na sua narrativa. “If it bleeds, it leads” (se sangra, traz audiência, numa tradução livre) tem sido a máxima do mundo do jornalismo do crime, alimentado pela curiosidade mórbida, às vezes mais envergonhada, do público.

Como conta Campbell, a obsessão dos britânicos (e do mundo, em geral) com o crime e os criminosos precede largamente a era do jornalismo de tabloide. Em 1714, foi publicado um jornal com um nome que não deixava margem para dúvidas: “A Complete History of the Lives and Robberies of the Most Notorious Highwaymen, Footpads, Shoplifts and Cheats of Both Sexes”, que prometia aos leitores detalhes sobre crimes das mais variadas naturezas.

A leitura destes folhetins e das páginas de crime dos diários eram acompanhadas atentamente e, na maioria das vezes, culminava na execução dos criminosos, acontecimentos públicos que arrastavam multidões. Com a abolição da pena de morte, na opinião de Duncan e de estudiosos que ouviu, o interesse pelo jornalismo de crime foi diminuindo. É desta evolução, e dos caminhos mais misteriosos entre investigação e jornalismo, que o livro põe a descoberto, com a desenvoltura literária e o suspense próprio de quem escreve há mais de cinco décadas sobre histórias de crime. Se há alguma crítica negativa a fazer, considera o 'The Guardian', é o facto de o repórter veterano não dedicar mais espaço a analisar como as relações entre políticas e repórteres reduziram a capacidade, por parte dos segundos, para produzirem pensamento independente.

“We'll All Be Murdered in Our Beds: The Shocking History of Crime Reporting in Britain”, Duncan Campbell, Elliot & Thompson, 272 páginas, €13,75 (preço Amazon)

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