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Terry Gilliam: “Ninguém neste filme é quem parece ser”

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O ex-Monty Python aproveitou o mediatismo do Festival de Cannes para anunciar ao mundo que Adam Driver, Michael Palin e a ex-Bond girl Olga Kurylenko vão integrar o elenco de “The Man Who Killed Don Quixote”. Conversámos com o realizador americano sobre este antigo projeto que Paulo Branco está agora a produzir

Francisco Ferreira

enviado a Cannes

REX/Shutterstock

Terry Gilliam disse em Cannes que “The Man Who Killed Don Quixote” não está amaldiçoado, mas a verdade é que só agora se prepara para rodar uma obra que acalenta fazer desde o final dos anos 80. Tornou-se um projeto mítico, de tantas vezes foi adiado.

Quando é que começou a ler Cervantes?
Tal como a maioria das pessoas, nunca li “Dom Quixote...” até ao fim! Fui lendo... E fui-o seguindo, ao longo da vida, como Sancho Pança.

E a ideia deste filme, quando é que lhe surgiu?
Foi logo a seguir ao “Munchausen” [“A Fantástica Aventura do Barão”, 1988]. Acabara de sair de um filme bastante livre e excêntrico e o livro veio parar-me às mãos. Lembro-me de pensar: “Caramba, mas isto ainda é mais extraordinário! É um romance impossível!” A segunda parte, essa então, é assombrosa. É tão moderna, tão incrível.

É possível adaptar “Dom Quixote” ao cinema?
Não gosto de dizer que nada é impossível mas... Há quem já o tenha feito, lembro-me, por exemplo, de uma versão da TV espanhola, com o grande Fernando Rey no papel principal. Mas aquilo era tão arrastado, tão pesado e inútil... Esse peso era o da responsabilidade.

Que vai fazer então?
Vou fazer um filme que se quer escapar do livro. E, num gesto de puro atrevimento, ousar colocar-me no lugar de Cervantes e reescrever esta história, guardando o seu espírito. Tenho de deitar este filme cá para fora. É como um daqueles pesadelos que não nos largam, temos de matar o monstro. Vamos rodar ainda este ano, começar a montagem no início do seguinte. Quem sabe se em 2017 não estamos aqui em Cannes a mostrar o que fizemos.

Pôs sempre de parte a hipótese de fazer um filme de época?
Eu disse-me logo que estaria a comprar sarilhos se me metesse a fazer um “Dom Quixote” de época... Quando estava a trabalhar na versão em que Jean Rochefort e Johnny Depp eram os protagonistas, chegámos então à conclusão de que o nosso herói começaria nos dias de hoje para acabar no século XVII.

Mas mudou de ideias entretanto?
Mudei! É que à medida que o projeto foi sendo adiado e os anos passavam eu continuei a rabiscar o argumento. Até que um dia me perguntei: não teria isto muito mais graça se o mundo real de hoje começasse, num estalar de dedos, a comportar-se como se estivéssemos no século XVII? De certa forma estou a enganar-me a mim próprio. Continuo a pensar que, cada vez que o projeto arranca, tenho um filme diferente nas mãos para fazer.

A obra chama-se “The Man Who Killed Don Quixote”. O que nos pode dizer desse homem que Adam Driver interpretará sem revelar mais do que deve?
Ele é um especialista em marketing e publicidade. É um vendedor de sonhos. Chama-se Toby Grisoni. Mas ele não sonha, não tem fantasias. Não tem imaginação. É o oposto de Dom Quixote.

Mas é o Sancho Pança?
Humm, vai ter de esperar para ver...

Enquanto homem de comédia, vai insistir no humor quando a rodagem começar?
Nem tenho outro remédio: é que o humor já lá está, vem de Cervantes. E eu não consigo fazer nada sisudo, é uma coisa orgânica, os meus filmes estão sempre à procura da comédia. Mas Dom Quixote também é tragédia! E uma mensagem de esperança para os mais desesperados. .

Anunciou que Michael Palin, um ‘ex-Monty’, vai interpretar Dom Quixote...
Acontece que o Michael não faz de Dom Quixote! Faz de alguém que pensa que é o Dom Quixote! Tudo parte deste equívoco. Ninguém neste filme é quem parece ser.

Cervantes, tanto quanto se sabe, pôs muito da sua própria vida no livro.
Absolutamente.

Vai fazer o mesmo?
Agora lembrei-me de quando estávamos a fazer o “Monty Python e o Cálice Sagrado”. Instalámo-nos numa pequena aldeia na Escócia. A nossa equipa parecia os vikings: “Vamos entrar por aqui dentro a violar e a pilhar!...” E mudámos as vidas das pessoas! A ficção e a realidade estavam entrelaçadas. Espero que a personagem que o Adam Driver vai fazer possa ter algo disso.

Em quem mais foi pensando para o casting ao longo destes anos?
Muita gente entrou e saiu do projeto: quando me parecia que o filme podia arrancar, eu desatava a contactar pessoas. Pensei em tempos que o Robert Duvall faria um grande Quixote. No ano passado, tinha o John Hurt debaixo de olho, e depois foi-lhe diagnosticado um cancro. Ele está recuperado agora mas a sua agenda ficou cheia, não encaixa na nossa, e eu quero rodar o mais cedo possível.

Como é que o seu trajeto se cruzou com o de Paulo Branco?
Foi uma coincidência. Rodei uma curta-metragem há quatro anos em Itália chamada “The Wholly Family”. O produtor dessa curta tem procurado ajudar-me e apresentou-me o Paulo Branco: “Este tipo já fez quase 300 filmes e talvez consiga pôr o teu Quixote a andar.” O nosso primeiro encontro foi em fevereiro. Sei que ele tem reputação de ‘pirata’. Disse-lhe que “pirata, também eu sou!”. Espero que ele e eu consigamos agitar as coisas um bocadinho.

Consegue imaginar este filme visualmente?
Consigo imaginar os moinhos de vento pois sei muito bem onde é que eles estão. Os décors estão escolhidos há 20 anos e não mudaram. O que é novo com a chegada do Paulo Branco é que não vamos só filmar em Espanha e nas Canárias, mas também em Portugal, em Tomar, no Convento de Cristo.

É um homem melancólico?
Sou. “Dom Quixote de la Mancha” também é. Melancolia é uma palavra que as pessoas já quase não usam. Não é depressão, é um sentimento de perda de qualquer coisa, ou algo de extraordinário que já foi vivido e que não voltará a ser. Se trabalharmos bem, se acertarmos na mouche, “The Man Who Killed Don Quixote” será um filme melancólico. Talvez a melancolia venha afinal da loucura, ou de uma obsessão!

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 maio 2016