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O mistério das “Tentações de Santo Antão”, de Hieronymus Bosch

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É uma das estrelas da exposição sobre Hieronymus Bosch que abriu esta terça-feira em Madrid. Mas o tríptico do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), pintado na viragem do século XV para o século XVI, encontra-se até hoje envolvido por um denso mistério. Não só quanto ao seu significado mas, sobretudo, no que respeita ao seu caminho até chegar a Portugal. Uma visita guiada por Joaquim Caetano, curador do MNAA

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Texto

Diretor-Adjunto

O último rei de Portugal, D. Manuel II terá disputado a propriedade do tríptico de Bosch com o Estado português quando já estava no exílio, após a instauração da República. Só muito mais tarde, em 1937, quando António Oliveira Salazar há muito ocupava o cargo de Presidente do Conselho a questão foi resolvida. A história de “As Tentações de Santo Antão”, que na inauguração da exposição atualmente patente no Museu do Prado, foi longamente admirado pelos reis de Espanha e pela rainha da Holanda, é, porém, um enigma ainda por desvendar.

Até 1937, José de Figueiredo, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga desde a sua fundação logo nos alvores da República, impediu terminantemente a saída das “Tentações de Santo Antão” de Portugal. Assim deixa perceber o estudo da sua correspondência, recentemente tornada pública. As dúvidas que até então existiam sobre a legítima propriedade do tríptico de Hieronymous Bosch eram então suficientes para que os herdeiros da dinastia de Bragança, ou mesmo a Coroa espanhola, pretendessem ficar com uma obra que, ainda hoje, não se sabe exatamente como chegou a Portugal.

É nesse sentido que José de Figueiredo desenvolve uma argumentação, por estes dias pouco considerada, em torno de uma possível propriedade original deste tríptico por parte de Damião de Góis, o humanista que no século XVI havia sido alvo da Inquisição. Uma argumentação à medida daqueles tempos, antimonárquica, mas que mais não visava do que afastar as intenções dos herdeiros das coroas portuguesa e espanhola.

A chegada do tríptico de Bosch a Portugal continua, porém, por esclarecer. Não se conhece a data da sua chegada. Mas sabe-se que o rei D. Luís, no século XIX, já apreciava aquele quadro no Palácio da Ajuda. E que o seu filho, D. Carlos, o mantinha numa espécie de atelier, junto ao seu quarto de dormir naquele Palácio, longe dos olhares públicos. Só em 1937, José de Figueiredo, ainda diretor do Museu das Janelas Verdes, então reconvertido ao salazarismo, vê a questão resolvida depois de vários encontros com Dona Amélia, mulher do rei D. Carlos e com o seu filho D. Manuel II, último rei de Portugal.

As “Tentações de Santo Antão” ficam definitivamente em Portugal, e por conseguinte no Museu Nacional de Arte Antiga, quando é resolvida a questão dos bens patrimoniais da Casa de Bragança. Terá sido uma contrapartida da fundação que o Estado Novo criou para a família real?

Também o seu sentido é alvo de disputas entre os académicos e uma turba de “amadores” dispostos a considerar variadíssimas teorias. Uma das chaves para a sua leitura parte, contudo, da ideia de que o Bem é uno, sendo o Mal que assume as mais variadíssimas formas.

“TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO”, DE HIERONYMUS BOSCH
Assinado (canto inferior esquerdo do painel central)
c. 1500
Óleo sobre madeira de carvalho
131,5 x 119 cm (painel central) e 131,5 x 53 cm (painéis laterais)
Proveniência: Palácio das Necessidades, Lisboa, 1913
Inv. 1498 Pint

Neste tríptico encontra-se a mais recorrente e central temática de Bosch: a tentação e a solidão do homem justo perante o mal e o diabólico que, de forma expressa no monstruoso e no híbrido ou sob uma falsa e provocadora beleza, domina o mundo terreno.
Nas faces internas, o tríptico mostra três passos da hagiografia de Santo Antão, tentado e seduzido pelos demónios até encontrar o caminho para a salvação através da experiência eremítica.

“TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO”, DE HIERONYMUS BOSCH
c. 1500
Grisalhas na face posterior dos painéis laterais
Proveniência: Palácio das Necessidades, Lisboa, 1913
Inv. 1498 Pint

Nas faces externas, visíveis com o tríptico fechado, situação em que normalmente se encontrava, são figuras populares e não demoníacas que acicatam e perturbam o caminho de Cristo da Prisão até ao Calvário; a sua monocromia ajuda a criar uma atmosfera estranha e luarenta, que sublinha a desolação da paisagem e acentua a inquietante certeza de um domínio generalizado do mal.