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Voz e violão

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UM ÍCONE. João Gilberto num espetáculo no dia 24 de agosto de 2008, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro

ARI VERSIANI/GETTY

Reinaldo Serrano

As notícias que diariamente chegam do Brasil mais não fazem que expor de modo avassalador as fragilidades de uma imensa promessa adiada. O país que tem tudo para dar certo é, afinal de contas, o país com muito de errado. A corrupção é endémica e transversal a todos os sectores de uma sociedade que vive à mercê de promessas; e o que delas recebe é a posta restante de um ou outro esquema que enriquece primeiro e fortalece depois uma classe que, genericamente, só tem o que tem à custa de métodos esconsos, pérfidos, perversos e distantes de uma democracia que vigora no país há pouco mais de 30 anos.

O mais chocante é haver muito boa gente que, por omissão, vai pactuando com um sistema há muito identificado e diagnosticado, mas relativamente ao qual poucos, muito poucos, se atrevem a fazer o que quer que seja para o alterar. À semelhança de uma mentira que, quando repetida à exaustão, assume contornos de verdade, também a dúbia tradição de uma coexistência de décadas com a corrupção enfraquece a eventual predisposição dos que com ela querem acabar. E, enquanto o espólio for repartido a espaços pela cadeia mais baixa do sistema – a que menos meios tem de protestar e, quando o faz, não tem voz suficiente para se fazer ouvir -- as coisas dificilmente mudarão de figurino.

E, no entanto, o país continua a ter tudo para dar certo: no desporto, no turismo, nos recursos naturais, no clima, nas cidades maravilhosas, no espetáculo, nas artes, na cultura, na música. E se esta aparece em último lugar na lista, é apenas porque em primeiro lugar dela vamos falar; mais concretamente de um dos seus expoentes máximos.

Nascido na localidade baiana de Juazeiro e à beira de completar 85 anos (10 de junho de 1931), João Gilberto Prado Pereira de Oliveira é uma lenda viva. Retirados os 3 últimos nomes, os 2 primeiros sublinham a maiúsculas o nome a quem muitos atribuem o nascimento da Bossa Nova. Se isto em si já não era pouco, escutar a voz singular e o dedilhar único de João Gilberto no violão é perceber estarmos diante de um dos nomes maiores da música brasileira, é certo, mas também da música à escala planetária.

Sobre a figura do homem tímido, introvertido, avesso a entrevistas ou a qualquer grau de exposição, pairam inúmeras histórias, mitos urbanos que contribuem ainda mais para a aura que envolve a carreira de décadas de João Gilberto. Diz-se, por exemplo que, mesmo não tendo carta, o senhor João gostava de conduzir à noite, a 30 quilómetros por hora, no carro de amigos, normalmente na avenida Paulista, a mesma que tem sido palco privilegiado dos protestos contra Dilma Rousseff; diz-se também que o músico, autor, compositor e instrumentista, foi um noctívago e tem um muito curto círculo de amizades; e há quem garanta que o seu precioso violão só é afinado pelo proprietário e por alguém que, esteja onde estiver no vasto mundo, se desloca propositadamente a pedido de João Gilberto ao local, qualquer que ele seja, de um concerto que carece de uma afinação especial. Há, além do mais, diversos relatos de espetáculos que terão sido pura e simplesmente anulados porque o intérprete entendeu não reunirem as condições que entendia necessárias para se realizarem.

O perfeccionismo começa no próprio: prova disso, é o convite que aqui deixo a escutarem todos e cada um dos registos discográficos do mestre – em estúdio e ao vivo – e o desafio que simultaneamente deixo para detetarem um qualquer erro que seja – no acorde, na nota ou na voz. Esta é um sussurro pleno de sofisticação, uma delicadeza irrepreensível, um “pentear cabelinhos de criança”, para recorrer a António Gedeão.

E, no entanto, a vasta obra de João Gilberto está à disposição de todos aqueles que quiserem adquiri-la nos nossos – sim, nos nossos – escaparates, na esmagadora maioria dos casos a preços absolutamente módicos, se tivermos em conta o imenso retorno que cada gravação proporciona.

Destaco, naturalmente, “Chega de Saudade”, o álbum que em 1959(!) revolucionou o panorama musical brasileiro, contagiou nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Chico Buarque e influenciou o jazz norte-americano. Não por acaso, João Gilberto foi presença assídua e frequentemente requisitada nos Estados Unidos, mesmo no tempo em que os Beatles imperavam na histeria dos “States”. João lá viveu durante algum tempo, já casado com a cantora Miucha e com a filha Bebel – hoje em dia cantora por mérito próprio na senda de um sucesso sólido. (Sugiro, aliás, uma curiosíssima entrevista – chamemos-lhe assim – que, na minha pesquisa, encontrei na net, justamente nos Estados Unidos, com uma irrequieta Bebel e uma adorável Miucha ao lado do especial patriarca).

Para a História ficará igualmente o disco com o saxofonista Stan Getz, ainda hoje considerado (na minha modesta opinião, excessivamente) como um dos marcos na discografia de ambos. A verdade é que o álbum é de 1964 e, mais de meio século depois do seu lançamento, continua com uma popularidade deveras impressionante.

Num intérprete tão rico e com tal longevidade, não deixa de causar alguma estranheza a relativamente escassa edição discográfica. João Gilberto tem editados 12 álbuns de estúdio e 9 álbuns ao vivo. Na primeira categoria, destaco “João, Voz e Violão”, precisamente o último disco de João Gilberto, editado no ano 2000. A produção é notável, e a qualidade do registo preserva sem mácula o talento do cantor e do mestre do violão. Em matéria ao vivo, permito-me sublinhar “João Gilberto Prado Pereira de Oliveira”, de 1966 e, mais recentemente, “João Gilberto in Tokyo”, de 2004.

De todo o modo, o que sugiro vivamente é um olhar intenso sobre a obra de João Gilberto. Ouvi-lo é emprestar a qualquer serão domiciliário uma nova luz e um novo brilho, tornado farol de uma música sem tempo, num tempo em que a música que nos servem parece cada vez menos brilhante.