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Seis malas de viagem únicas levam educação até Angola

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A arte pode mudar o mundo e transformar realidades. A partir de seis malas de viagem comuns, artistas urbanos portugueses deram asas à imaginação e abraçaram uma causa solidária

Seis malas de viagem, entregues a outros tantos criadores portugueses de arte urbana, foram transformadas em objetos esteticamente únicos. Assim começou uma viagem solidária, promovida pela Agência Piaget para o Desenvolvimento (APDES). O objetivo passa agora por angariar fundos, através de um leilão, para requalificação da Escola da Palankinha, situada numa localidade de Luanda, em Angola. A iniciativa decorre até terça-feira, 31 de maio.

Esta ação de solidariedade surge para apoiar a segunda fase de requalificação de escola angolana, que assenta na construção de uma casa de banho e de um campo de jogos, bem como continuar a implementação do modelo pedagógico e replicar todo o projeto numa nova zona do país. Para lograr estes objetivos e apoiar o financiamento do projeto da APDES, a arte colocou-se ao serviço da beneficência.

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Com meia dúzia de malas, cedidas pela empresa Samsonite, os “street artists” Andy Calabozo, Laro Lagosta, Costah, Frederico Draw, gonçaloMar e a dupla portuense Chei Krew deram asas à imaginação e fixaram nesses objetos as suas próprias viagens ou derivas criativas.

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Em comunicado, a APDES, organização não-governamental para o desenvolvimento sediada em Vila Nova de Gaia, especifica que os padrões vão desde “o psicadelismo caótico de Andy Calabozo ao floral único de Laro Lagosta”. Os Chei Krew registam “as memórias de viagem da sua inconfundível girafa” e Costah “eleva a mala a altos voos de aviões de papel, pássaros e balões de ar quente”. A visão de Frederico Draw fica registada na mala com o enorme olho pintado “de forma extremamente realista” e gonçaloMAR “transforma a bagagem numa barra de ouro, já que esta vai transportar os bens mais preciosos de quem a adquirir”.

As malas podem agora ser licitadas na plataforma digital “eSolidar” até ao final do presente mês. Três malas são de maior porte, com 88 cm de altura, e têm um preço de solicitação base de 100 euros. As restantes, mais pequenas, com 55 cm de altura, são leiloadas a partir de 50 euros.

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Qualquer valor é bem-vindo

Em entrevista ao Expresso, a responsável por esta missão da APDES, Nicole Ferreira, assinalou o facto de em Portugal não ser “muito fácil” angariar fundos para ações sociais. “Não temos essa cultura ainda instituída e os fatores socioeconómicos também não ajudam. É um trabalho árduo”, frisa a representante da organização, que acredita, ainda assim, que “estas iniciativas, em que as pessoas vão adquirir um objeto único e ao mesmo tempo ajudar uma causa, podem ter um maior sucesso”.

Nicole Ferreira explicou que “não se estabeleceu um valor mínimo ou máximo” para suportar a segunda fase de requalificação da Escola da Palankinha. “Os trabalhos [na escola] estão a decorrer e nós vamos fazendo consoante as verbas adquiridas. Qualquer valor arrecadado acaba por ajudar à continuação das obras ou da formação dos professores”, enalteceu a coordenadora do projeto.

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“Escola da Palankinha” foi o nome escolhido pelos alunos provenientes do Bairro de Capalanka para designar o projeto que a APDES está a desenvolver nesta localidade em Luanda. Foi a própria comunidade que sugeriu, em 2008, esta iniciativa e que indicou o acesso à educação como a maior carência local, refere a organização na nota informativa. E os números confirmam. No bairro habitam cerca de 120 000 pessoas e 45% das quais terão menos de 15 anos. Para as 55 000 crianças, existem apenas quatro escolas primárias.

Para Nicole Ferreira a questão da educação é efetivamente “um dos problemas mais prementes” em Angola. Para além da vertente educativa, a responsável realça também a função comunitária e cívica das ações desenvolvidas pela APDES. “Começamos nas escolas, mas queremos atingir toda a comunidade. Não ensinamos apenas a ler e a escrever, mas passamos também outros princípios às crianças para que se possam tornar cidadãos mais ativos”, assegurou.

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Em paralelo com este leilão, a Associação Piaget para o Desenvolvimento possui também uma página na internet para apoiar esta causa, onde os internautas podem deixar donativos desde um simbólico euro até valores mais elevados.