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Kevin Rowland: “O que eu mais desejei foi não ter uma história e começar outra vez”

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Liderou os essenciais Dexys Midnight Runners na primeira metade dos anos 80, deixando inscritos no livro da música britânica álbuns como “Searching for the Young Soul Rebels” – berço de ‘Geno’ – em 1980, e “Too-Rye-Ay” – do megassucesso ‘Come On Eileen’ – em 1982. Depois fez a travessia no deserto das drogas e derivados. Voltou à ‘banda-mãe’, agora rebatizada, sem saudades do passado

Luís Guerra

Jornalista

Aos 62 anos, Kevin Rowland não exorcizou ainda os ‘demónios’ dos tempos em que era uma estrela da pop britânica, mas também uma alma torturada e afeta a dependências químicas e à depressão. Os seminais Dexys Midnight Runners foram sempre a sua visão, com todas as agruras que tamanho controlo comportou: uma formação pela qual passou, no início dos anos 80, praticamente metade da lista telefónica da sua Wolverhampton natal. Depois do adeus com o incompreendido “Don’t Stand Me Down” (hoje reapreciado) e de uma errática carreira a solo ao som do rebentar de tiros no pé, o regresso à banda que o deu a conhecer era, mais do que previsível, a única solução. Contrariando o mau karma — e reerguido enquanto ser humano —, Rowland não quis, porém, embarcar na nostalgia: acabaram-se os Midnight Runners, ficam apenas os Dexys. São estes Dexys que em 2012 foram aclamados com o inesperadamente sólido “One Day I’m Going to Soar” e agora se preparam para lhe dar seguimento com “Let The Record Show: Dexys Do Irish And Country Soul”, álbum dedicado sobretudo a releituras de velhas canções irlandesas (mas não só). É uma nova vida.

Voltar à banda antiga, mas alterando-lhe o nome, é uma medida pouco comum. Dois álbuns depois, pensa que foi uma decisão importante?
Sim, mais do que nunca. Nós não somos os Dexys Midnight Runners. É um nome tão cool, tão bom, mas que soa tão errado agora. Voltar como Dexys Midnight Runners depois de um hiato tão grande seria declarar que somos os mesmos, que não mudámos nada. É mentira. Não queremos que as pessoas esperem o mesmo. Demos concertos em que, como tomada de posição, não tocámos a ‘Come On Eileen’. Não sou contra tocá-la outra vez — até o fizemos depois — mas foi um statement: “Aqui estamos nós, vamos tocar o novo álbum por inteiro”. É mais difícil assim, mas por outro lado é sempre mais fácil porque não se vende a alma, não se quer ser aquilo que já não se é.

Não sente orgulho do que fez no início dos anos 80?
Não! Se pensar no assunto, concluo que não... Não ouço os discos há anos! Não me lembro da última vez que ouvi o “Searching for the Young Soul Rebels”.

Ainda há assuntos mal resolvidos?
Talvez, talvez... Não penso no assunto, mas talvez haja um ou outro arrependimento. Daqui a cinco ou dez anos posso vir a sentir vontade de olhar para trás. Se fizermos um best of, por exemplo. Mas agora nem quero ouvir falar disso. Se a editora avançar agora [para uma retrospetiva de carreira], que o faça, mas eu não vou querer estar envolvido. Há um tempo para isso. Agora estamos com toda esta verve criativa, porquê olhar para trás?

A ideia para o novo álbum começou em 1985, mas a primeira vida da banda não duraria muito mais. Seria um disco muito diferente se fosse editado na altura?
É tão difícil dizer! Eu só sei que tinha uma ideia, mas não a levámos muito longe. Fizemos um grande intervalo, digamos assim. Voltámos em 2012 com um álbum de originais e agora julgámos que era a altura certa para fazer um disco assim. Penso que só agora possuo a estampa emocional para lidar com estas canções. Para cantar algo como [a tradicional irlandesa] ‘Carrickfergus’ é preciso viver mais e compreender melhor o mundo.

Há um fraseado teatral em algumas canções, mas a sua abordagem de ‘Smoke Gets In Your Eyes’ é muito diferente da de Bryan Ferry, por exemplo. Não é Dexys a fazer música de casino...
O que é que entende por música de casino?

Standards batidos cantados em jeito de karaoke para um público de reformados...
Espero bem que não! [risos]

Tentou evitar os clichés?
O título do álbum diz “Dexys fazem Irish e tudo o resto”, não “Dexys tornam-se Irish...”. Queria fazê-lo à nossa maneira. Da maneira como sentimos as coisas hoje. Seria fastidioso ter todos aqueles instrumentos irlandeses, por exemplo... Não é um álbum festivo, é um álbum para escutar.

No último álbum, deixou clara a sua opinião sobre o estereótipo irlandês na canção ‘Nowhere Is Home’. A ascendência irlandesa é tanto uma bênção como uma praga?
Provavelmente, qualquer herança é uma bênção e uma praga. Quando era novo, não queria ter nada que ver com isso. Os meus pais eram favoráveis a essa educação e mostraram-no de forma demasiado impositiva, o que me levou a ‘fugir’ dali. Mas depois tive uma fase em que achei que tudo o que era irlandês era espetacular... A verdade é que há coisas boas em toda a parte e eu não gosto de simplificar em demasia. O que posso dizer é que ter crescido como irlandês de segunda geração em Inglaterra teve um grande impacto em mim — e ser irlandês não era assim tão popular nos anos 60 e 70!

Estas são canções que se habituou a cantar?
Não são novidade para mim. Muitas delas ouvi-as pela primeira vez em criança. Conheci a ‘I’ll Take You Home Again, Kathleen’ [canção folk cuja origem remonta ao século XIX] há muito, muito, tempo. É uma canção bonita, fabulosa.

Agora que o álbum está feito, está curioso em conhecer a opinião da sua muito irlandesa mãe?
Ofereci-lhe uma cópia no outro dia [risos]. Ela gosta especialmente de ‘Carrickfergus’ e de mais outra. Não estava propriamente à espera de aprovação incondicional. Sabe como é a família... Não faz de propósito, mas acaba por conseguir magoar-nos.

‘You Wear It Well’, de Rod Stewart, é um dos pontos altos. Lembra-se de quando a ouviu pela primeira vez, no início dos anos 70?
É das imagens mais nítidas que guardo. Estava em Clacton, uma cidade costeira [no condado de Essex]. Tinha 18 anos. Foi a primeira vez que trabalhei no verão, longe de casa. A época estava a acabar, tinha sido um verão tremendo e a canção captou toda essa melancolia.

Em 1999 lançou um álbum que deu que falar, mas que foi considerado um flop. Chamava-se ‘My Beauty’ e na capa encontrávamo-lo vestido com roupa interior feminina. A forma ganhou ao conteúdo?
Eu não o poria dessa forma, mas sei o que quer dizer. A música não foi ouvida. A capa tornou-se um caso tão grande que ainda hoje me é difícil olhar para ela. Mas não me arrependo. Porque é que toda a gente levou aquilo tão a sério?

Ainda desejava manter, então, uma distância em relação ao lastro dos Dexys Midnight Runners?
Sim. Muito. O que eu mais desejei foi não ter uma história e começar outra vez.

Quando a banda surge, no final da década de 70, Inglaterra vivia o início da era Thatcher. Vê algum paralelo entre esses tempos que tanta música inspiraram e a situação atual no seu país?
Claro. Vivem-se tempos difíceis.

Anseia pela saída de cena de David Cameron?
Não espero que [David] Cameron mude, porque não vai mudar, mas o Jeremy Corbyn é um homem bom e as pessoas aqui gostam dele. É popular porque diz a verdade. Fez campanha pelos Birmingham Six [seis homens declarados inocentes em 1991, depois de terem sido condenados a prisão perpétua por bombardeamentos em pubs em 1975, atos atribuídos ao IRA Provisório] quando isso não era nada bem visto. Há esperança.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 21 maio 2016