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Agualusa: “Os prémios são uma espécie de lotaria”

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antónio pedro ferreira

Finalista do Man Booker International Prize, José Eduardo Agualusa não ganhou mas ficou feliz na mesma. Diz que não se deve prestar demasiada atenção “nem aos aplausos nem aos apupos”

Na segunda-feira à noite de 16 de maio, José Eduardo Agualusa entrou no Victoria & Albert Museum, em Londres, desconfortável no seu smoking de aluguer. A solenidade agasta-o, mas regras são regras e com o protocolo britânico não se brinca. Depois de um longo processo de escolha que começou com 155 livros, a versão em língua inglesa do seu romance “Teoria Geral do Esquecimento” chegou à shortlist do Man Booker International Prize, um prestigiado prémio que distingue as melhores obras de ficção traduzidas no Reino Unido. Apesar de ter como rivais pesos-pesados, como a misteriosa Elena Ferrante e o Nobel da Literatura turco, Orhan Pamuk, a grande vencedora da noite foi a coreana Han Kang, autora do romance “The Vegetarian”, já com edição portuguesa prevista para outubro, na Dom Quixote.

De t-shirt preta e sem gravata, José Eduardo Agualusa recebeu-nos na sua casa de Lisboa, onde falou do prémio, dos caminhos da sua vida, e da situação atual em Angola, rodeado de livros, o único bem material de que nunca abdicou nas suas muitas andanças nómadas.

Ao fim de muitas semanas de espera, como é que reagiste ao anúncio de que o Man Booker International Prize foi atribuído à sul-coreana Han Kang?
Só podia reagir bem. Não houve desilusão porque a minha expectativa quanto a uma possível vitória no prémio era zero. Não tinha expectativa nenhuma. E por acaso até estava convencido, há vários dias, que o livro da Han Kang, “The Vegetarian”, iria ganhar. Parece-me uma escolha justa, a julgar pelo pouco que escutei nas leituras públicas. Além disso, gostei muito do breve debate com ela. Tanto assim que a convidei para o próximo festival Folio, em Óbidos [a realizar em setembro], ainda antes da cerimónia de atribuição do prémio.

Como foi a cerimónia?
Demasiado formal. Tive de alugar um smoking e descobri que o escritor austríaco alugou um igual na mesma loja. Ele ainda estava mais incomodado com a cerimónia do que eu. Na verdade, acho que a pior parte de todo o ofício de escritor são estas cerimónias. Prometi a mim mesmo nunca mais ir a uma entrega de prémios em que me obriguem a usar laço ou gravata. Da outra vez, quando ganhei o Independent Foreign Fiction Prize [pela tradução de “O Vendedor de Passados”, em 2007], consegui safar-me com uma camisola de gola alta. Não gosto mesmo nada de formalidades. Nestas coisas sou um bocado bicho do mato. Mas, tirando isso, até foi divertido. Aproveitei para conversar com a minha agente, Nicole Witt, com a editora inglesa, e com o meu tradutor, Daniel Hahn, sobre os próximos livros a traduzir.

E quais serão?
O Daniel acha que deve ser o “Barroco Tropical”, ao mesmo tempo que se reedita “As Mulheres do Meu Pai”, que está esgotado no Reino Unido. Faz sentido, porque os dois romances estão ligados através de um dos narradores.

O simples facto de teres chegado à shortlist, deixando para trás autores como Kenzaburo Oe (Nobel de Literatura em 1994) e o brasileiro Raduan Nassar, já foi um triunfo.
Sim. Mas não muda nada. Não me muda a mim. Os prémios são sempre uma espécie de lotaria. Neste caso, premeia-se um livro específico e eu não acho, por exemplo, que o meu livro seja melhor do que o do Raduan Nassar. Nem pensar. Como é que “Um Copo de Cólera” não chega à shortlist e o meu está lá? Isto não é para levar muito a sério. Aliás, considero que não se deve prestar demasiada atenção nem aos aplausos nem aos apupos.

Como é que descreverias a tua relação com o Daniel? De certa forma, foi ele que te abriu a porta para os públicos anglo-saxónicos.
A coisa boa com o Daniel é que ele começou comigo. Ele não era tradutor. Tornou-se tradutor a partir do momento em que verteu para inglês o “Nação Crioula”, o primeiro livro que eu publiquei no Reino Unido. Vi-o a crescer e a evoluir como tradutor. Hoje é muito respeitado, apesar de ser ainda bastante jovem.

Já sentiste de alguma maneira o impacto da seleção para a shortlist?
Sim. A Nicole tem recebido várias propostas de contratos e está a negociá-las. Acho que já se sente uma melhoria nesses contratos. E há algum reflexo nas vendas. Mais importante ainda, crescem as traduções para outras línguas.

Estás agora claramente num momento alto da carreira, mas gostava que voltássemos ao início da tua viagem como escritor. Quando é que pela primeira vez te sentiste atraído pela arte de contar histórias?
Nem sei responder. Deve ter sido muito cedo. Fui criado com os meus primos, que eram seis. E lembro-me que estávamos juntos às refeições e havia sempre histórias. Eles chegavam, inventando histórias. Mas fui criado num meio em que as pessoas em geral contavam histórias, isso é um facto. Talvez isso me tenha marcado.

Nasceste no Huambo, em 1960, pouco antes do início da Guerra Colonial. A guerra esteve sempre presente na tua infância.
Só ganhas consciência disso mais tarde, mas sim, esteve. Havia uma presença constante de soldados. Ouvíamos histórias o tempo todo, embora a guerra fosse uma coisa que só acontecia ao longe. O meu pai era funcionário dos caminhos de ferro de Benguela e dava aulas ao longo da linha, aos trabalhadores da empresa. Aulas sobre higiene e segurança no trabalho. Eu e a minha irmã acompanhámos algumas vezes o meu pai nessas viagens. Para nós era uma aventura, porque o meu pai viajava num comboio daqueles como se veem nos filmes antigos. Ocupávamos uma carruagem inteira, com quartos, com cozinha (e um cozinheiro), frigorífico industrial, sala de refeições, duas varandinhas.

Era como se fosse uma casa.
Era. Uma casa que viajava. Nós adormecíamos e ao acordar estávamos num outro lugar, numa outra paisagem. O meu pai gostava de cinema e às vezes parávamos no meio do nada, no meio da savana, montava-se um ecrã e vinham pessoas de longe para ver os filmes. Recordo-me muito bem disso. E também me recordo da presença dos soldados. Aquelas carruagens levavam sobretudo militares e várias vezes os comboios eram atacados, sofriam descarrilamentos. Normalmente as últimas composições, como a nossa, não descarrilavam porque os comboios eram muito, muito longos.

Com que idade é que foste nessas viagens?
Eu tenho péssima memória, mas devia ter entre os seis e os 14 anos.

Tinhas consciência de viver numa sociedade colonial?
Sim, tinha uma vaga consciência. Lembro-me de ter assistido a injustiças flagrantes, logo muito cedo. Mesmo dos militares. Recordo-me de uma dessas vezes em que viajámos de comboio, uma cena que nunca mais esqueci. Um soldado português que estava a acabar a comissão atrasou-se no regresso ao comboio. Este arrancou e ele veio a correr atrás, acabando por subir para a nossa carruagem, por ser a última. Os meus pais abriram a porta da varanda, para ele entrar, deram-lhe de beber e ele começou a contar histórias de guerra. Admito que fosse um fanfarrão, mas até hoje não me esqueço do que ele disse, porque se gabou de torturar os “turras” e de lhes arrancar o coração pelas costas, coisas dessas, terríveis. O mais aberrante nas situações de guerra é que as pessoas chegam a ter orgulho dos horrores que cometem.

Como é que os teus pais avaliavam o estado das coisas naquela altura?
O meu pai dava aulas e a minha mãe era professora de português e francês no liceu. Nunca vi os meus pais tomarem posições políticas. Não me lembro. Mas lembro-me de se discutir às vezes a eventualidade de Angola se tornar independente. Falava-se sobre isso. Havia a consciência de que teriam de acontecer mudanças, mas não de como essas mudanças seriam.

Eles pertenciam à classe privilegiada.
Claro. E o Huambo era muito diferente de Luanda, ou de Benguela, que são cidades crioulas, com uma presença de população africana muito grande, e de angolanos de classe média.

A população do Huambo era sobretudo branca?
Era, era. Completamente.

E viveste uma infância protegida e resguardada, ou tinhas liberdade para andar à solta?
Tínhamos liberdade para andar à solta. Como não existe hoje. Às vezes penso nisso: nós agora protegemos muito os nossos filhos. Talvez até demais. Naquela altura, fazíamos o que queríamos. Ninguém nos perguntava nada. A minha casa era a última da cidade. A civilização terminava ali. Para a frente era só mato. Reencontrei a sensação em Brasília. A cidade acaba e depois é a natureza em bruto. Aqui em Portugal isso não existe de todo.

Vivias no limite, na fronteira.
Era uma fronteira, sim. Haveria outras. Mas para mim era absolutamente natural. Nunca me questionei sobre isso.

Dessa infância guardas uma memória de felicidade?
Sim. Mas lembro-me sempre que a minha filha, há alguns anos, disse uma coisa na qual eu fiquei a pensar: “Ah, eu quero crescer logo porque quando se é criança toda a gente manda em nós.” E eu acho que nós mitificamos bastante a nossa infância. Porque o que ela disse é mesmo verdade. Crescer é provavelmente ter cada vez menos pessoas que mandam em nós. Eu tive uma infância feliz? Tive. Mas à medida que crescemos vamos ganhando liberdade. Os meus filhos nem sonham com a liberdade que nós tínhamos, mas ainda assim era uma liberdade controlada. Éramos obrigados a fazer muitas coisas. Sim, tive uma infância feliz, mas sou mais feliz hoje. [Risos]

Onde é que brincavas?
Na rua. Ou nas traseiras da casa. Tínhamos um quintal grande. Mas também brincava muito sozinho.

E em que consistiam essas brincadeiras solitárias?
Inventava o meu próprio mundo.

Tem graça, porque “inventar o meu próprio mundo” também pode ser a definição do que faz um escritor.
É verdade. Pode ter começado aí, de facto. Eu não era tão sociável quanto outras crianças. E às vezes ia atrás dos meus primos, que eram mais velhos. Fazíamos brincadeiras perigosas. Se eu visse os meus filhos a fazerem aquilo, não deixava.

Dá-me um exemplo.
Sei lá. A gente pulava o muro. Havia dois cães do outro lado. E a ideia era atirar-lhes pedras para eles virem contra nós.

Atiçá-los?
Sim. Depois vinham a correr e nós pulávamos o muro de volta, numa fracção de segundo.

E de vez em quando partiam a cabeça.
Exatamente. Acontecia muito. Uma vez parti a cabeça à minha prima e depois ela fez-me a mesma coisa. À pedrada. Nessa brincadeira dos cães. Foi sem querer, claro. E também brincávamos com fisgas. E com pressão de ar. Fazíamos coboiadas com outros garotos do bairro.

Levaste chumbadas?
Levei, claro. Era perigoso.

Mas sobreviveram.
Sobrevivemos. Quando olho para trás, nem sei como é que não aconteceram coisas piores. Hoje há um controlo maior. O que os miúdos hoje fazem nos videojogos, fazíamos nós na realidade. Não sei o que seria melhor. Não vou dizer que a nossa infância era melhor. Não estou a dizer isso. Uma vez cortei um tendão do pé. Podia ter ficado coxo.

José Eduardo Agualusa na sua casa de Lisboa, onde guarda a biblioteca pessoal, em estantes desenhadas por si e feitas à medida

José Eduardo Agualusa na sua casa de Lisboa, onde guarda a biblioteca pessoal, em estantes desenhadas por si e feitas à medida

antónio pedro ferreira

Pisaste um vidro?
Não. Parti uma janela a pontapé.

Quem diria... Um Agualusa selvagem!
Eram outros tempos. [Risos]

Numa casa de professores, não deviam faltar livros.
Tínhamos uma biblioteca muito boa. E eu sempre li muito. Não me lembro de nenhuma época em que não lesse. Provavelmente, naquela altura até lia mais do que leio hoje.

E que tipo de livros escolhias?
Os meus pais nunca me impediam de ler fosse o que fosse, por isso eu ia devorando aquilo que estava ao alcance da mão. Todo o tipo de livros. Da Enid Blyton ao Jorge Amado.

Que autor é que te fez pensar na possibilidade de vires a ser escritor?
O Eça. Isso é absolutamente claro para mim. Li “Os Maias” aí pelos 13, 14 anos. E foi um deslumbramento. Mesmo. Eu não sabia que se podia escrever assim. Mudou a minha vida. Fui ler tudo e depois encontrei outros escritores. O Borges, o Bruce Chatwin, o Rubem Fonseca… Tantos.

Vieste para Portugal com que idade?
Vim pouco antes da independência.

E como é que foi a chegada?
Já viera antes à metrópole, nas férias. Portugal era um lugar frio e escuro, pobre. Tínhamos a sensação de vir de um lugar mais rico, mais arrumado, com mais luz. Mas as minhas memórias dessa época são muito difusas.

Quando é que começas a ter memórias mais firmes?
Quando vou para Agronomia. Lembro-me melhor desse período da minha vida do que dos imediatamente anteriores.

Já escrevias?
Ainda não. Comecei a escrever aí. Criei um jornal com estudantes africanos, de várias universidades, que se chamava “Caminho Longe”, que é o título de uma morna cabo-verdiana. E a verdade é que éramos muito poucos e, para parecermos mais, eu escrevia com vários pseudónimos e em vários estilos diferentes, o que foi proveitoso para mim. Foi nessa altura que também comecei a escrever no “DN Jovem”, o suplemento literário juvenil do “Diário de Notícias”, que foi muito importante para mim. Publiquei ali os primeiros contos.

Como é que se deu o salto para o romance?
Eu tinha saído de Agronomia e consegui um primeiro emprego, resultante da minha ligação aos movimentos ecologistas. Estive ligado aos Amigos da Terra e um dos dirigentes, o António Elói, figura muito engraçada, arrastou-me para um projeto no Ministério do Ambiente. A verdade é que não fazíamos grande coisa e aproveitei esse tempo para escrever. Foi assim que começou a surgir “A Conjura”. Eu ia muito à Biblioteca Nacional e descobri uma coleção enorme de jornais angolanos do período entre 1880 e 1900.

O que te levou a procurar esses jornais? Ias à procura de uma história?
Não me lembro, com franqueza. Provavelmente li em algum lado uma referência a esses jornais e fui procurar.

De repente, estava ali um manancial de informação.
Começo a ler e descubro todo um universo. Os personagens estão lá, o ambiente social, a própria linguagem da época. Quase até ao fim do século XIX, uma boa parte da vida cultural, económica e até política de Angola era protagonizada por angolanos.

Descobrir isso foi uma surpresa?
Foi. Eu não sabia. Fiquei fascinado. Depois fui ler o Mário António de Oliveira, que escreveu o livro “Luanda, Ilha Crioula”, onde estuda isso tudo. Mas tirando o Mário António, não havia quase nada publicado sobre aquele período e aquela sociedade crioula angolana. Hoje não. Hoje há imensa coisa. Hoje teria escrito um outro livro. Mas naquela altura o que eu encontrei foram aqueles jornais, que ainda hoje são a principal fonte de pesquisa para quem quer estudar aquela sociedade. Luanda era um mundo pequeno, onde toda a gente se conhecia.

E os jornais refletiam esse mundo.
Absolutamente. Era como assistir a uma telenovela.

No fundo, já tinhas o material todo ao teu dispor.
Tinha.

Foi uma questão de pegar nesse material e transformá-lo num romance.
Sim. Esse romance nasceu de forma muito fácil, porque eu estava apaixonado por aquele período e tinha tudo à mão: os confrontos entre os portugueses e os angolanos, o protonacionalismo ativo, com gente a defender a independência de Angola.

Entretanto veio o jornalismo.
Sim. Comecei a trabalhar no “Público”. É muito curioso, porque num dos números zero do “Público” saiu uma crítica ao meu primeiro livro. E não era muito simpática. Era de um moçambicano, que veio a ser meu amigo. E ele provavelmente tinha razão na crítica que fazia.

Que importância teve a experiência do jornalismo para a tua escrita em geral?
Sempre fui uma pessoa muito tímida. O jornalismo ajudou-me a vencer essa timidez, a aproximar-me dos outros. Por exemplo, um livro como “A Estação das Chuvas”, que exigiu muitas entrevistas e falar com imensas pessoas, ouvir dezenas de testemunhos, se não fosse a experiência do jornalismo, não teria conseguido escrevê-lo.

Enquanto jornalista, também começaste a viajar mais. É interessante teres referido há pouco a memória do comboio em que viajavas com o teu pai, do acordar todos os dias com uma paisagem completamente diferente do dia anterior, porque tens assumidamente um lado nómada.
Foi uma coisa que foi acontecendo. Por razões da minha vida e da situação política em Angola, mas é verdade. Houve uma altura da minha vida em que eu não tinha casa. Não tinha mesmo casa física. Vivia em casas de amigos.

Isso foi em que época?
Não sei. Eu não tenho memória nenhuma para datas. Não consigo situar-me no tempo. Por isso escrevo um diário, há mais de vinte anos. E ajuda-me imenso. Quando preciso de saber coisas, vou ao meu diário.

Escreves no diário todos os dias?
Todos os dias. É uma questão de disciplina. É um bom exercício.

Um exercício paralelo às outras formas de escrita?
Acho que o diário me alimenta também enquanto escritor, porque há muitas ideias que eu tenho a dormir, em sonhos, e vou tomando nota dessas ideias. Às vezes surgem-me esboços de personagens, títulos. Fixo tudo no diário.

Esse diário é uma necessidade porque não te consegues lembrar das coisas ou não te lembras das coisas porque tens um diário?
[Risos] Eu acho que toda a gente devia escrever um diário. Porque as pessoas pensam que se lembram das coisas, mas não se lembram. Ou lembram-se equivocadamente. A nossa memória é muito frágil. É intolerável assumir isto, porque dependemos da nossa memória para a nossa própria construção identitária. Então, preferimos acreditar que temos uma memória razoável. Mas não temos. Eu percebo isso lendo o meu diário, porque às vezes tenho a sensação de estar a ler algo de outra pessoa. Às vezes fico até um bocado incomodado, porque há episódios de que não me recordo mesmo, de todo. Há pessoas que desapareceram da minha vida e que eu não lembro mais. E que recordo lendo o diário. Se não houvesse o diário, elas desapareciam por completo. Seria como se não tivessem existido nunca.

Tens consciência de que alguém pode um dia ler esse diário?
Espero bem que não. É mesmo um diário só para mim. Mas hoje em dia tudo o que colocamos num computador pode ser visto por outras pessoas. Às vezes, ocorre-me que a segurança de Estado angolana pode estar a ler o meu diário.

Escreves no computador?
Sim. E são mais de 5000 páginas. Não receio nada porque não tenho nada a esconder. Mas não queria ser devassado porque está ali a minha vida mais íntima. Por falar em segurança de Estado, acho que posso contar uma história que nunca contei antes.

A sério? Não corres riscos?
Não seria eu. Seria a outra pessoa. Um membro da segurança do Estado. Mas acho que posso contar. Quando escrevi “O Ano em que Zumbi Tomou o Rio”, criei um coronel da segurança de Estado e achei que devia falar com alguém.

antonio pedro ferreira

Para saber como é que funciona?
Não tanto para saber como é que funciona. Mais para detalhes. Pequenas coisas. Nessa altura lembrei-me de um homem que eu sabia pertencer à segurança do Estado. Via-o na Embaixada. Um dia liguei-lhe e convidei-o para jantar. Abri o jogo. Numa primeira fase, negou. Depois admitiu que tinha sido coronel e que já não era. Estudara na Lubianka, quartel-general da KGB. E começou a falar. Falou durante horas e fui tomando notas. Aquelas notas foram importantes para a construção do meu personagem. Nos agradecimentos do livro, menciono o nome dele. Um dia estou aqui em casa, com o António Tomás, um sociólogo angolano que atualmente está a dar aulas na Universidade de Cape Town, e ele diz-me: “Ah, não devias ter feito isso. Vais arranjar-lhe problemas.” E eu expliquei que não. A informação que eu utilizei serviu-me para caracterizar o personagem, mas não há nada no livro que de alguma forma possa colocar em causa a segurança do Estado. Conversávamos sobre isto enquanto descíamos para almoçar e quem é que estava exatamente a estacionar o carro aqui na rua? Ele, a minha fonte. Perguntei-lhe o que fazia aqui e ele cumprimentou-me, muito efusivo, com aquele calor angolano, dizendo: “Nós somos vizinhos.” Apontou para o prédio colado ao meu e disse: “Isto agora é nosso.” Eu fiquei boquiaberto: “Nosso?” E ele, sorrindo: “Sim, Agualusa. Nosso.”

E não ficaste preocupado?
Eu não. Mas o António Tomás ficou horrorizado e disse-me: “Zé Eduardo, tu deves ter a casa toda vigiada.” Eu respondi o que te disse há pouco: não tenho nada a esconder. E as minhas opiniões são públicas. Seria absurdo que alguém comprasse a casa ao lado da minha para escutar aquilo que eu faço ou penso.

Já disseste muitas vezes que a realidade às vezes é mais criativa do que a ficção. Esse parece-me um excelente exemplo.
Sim. É verdade. Nunca poderia contar esta história num romance. Seria demasiado inverosímil.

E acontecem-te muito, este tipo de situações que parecem demasiado romanescas para serem verdadeiras?
Acontecem.

Tens pessoas em quem confias para te dizerem que estás a seguir o bom caminho, durante a escrita de um livro?
Tenho. Mas precisava de ter mais. Um dia, gostava de construir um livro inteiramente com o apoio de alguém. Eu tento fazer isso com o Mia Couto. Ainda agora, estou a ler o livro dele e ele a ler o meu. Mas o ideal seria construir um romance inteiro com alguém como o Mia. Com o qual eu pudesse ir discutindo parágrafo a parágrafo, capítulo a capítulo.

Como é que nasceu a amizade com o Mia Couto?
Foi na altura em que eu fazia críticas literárias no “Expresso”. Creio que fui o primeiro a escrever sobre o Mia em Portugal. Ele gostou da crítica, falou com uma amiga comum, dizendo-lhe que gostaria de me conhecer, e organizámos um jantar. Tenho ainda uma foto desse primeiro encontro, em que parecemos dois talibãs, com uma barba comprida e muito preta.

Hoje em dia é mais difícil manterem o contacto direto?
Nem por isso. Arranjamos maneira de nos irmos encontrando. Nem que seja em digressões conjuntas. Fizemos isso no Brasil, na Catalunha, em Inglaterra.

Vocês são uma espécie de mapa cor-de-rosa da literatura lusófona.
[Risos] Falta é o centro. Falta um zambiano.

Era mais no sentido de criarem um caminho que une Angola e Moçambique, uma convergência.
Sim, claro. Somos de países muito diferentes, que nem sempre se entendem, mas nós entendemo-nos bem.

O que é que aprendes com o Mia?
Aprendo muito, muito, muito. A utilização da poesia, por exemplo. Como iluminar o texto através da poesia. E o recurso a um certo pensamento mágico.

É curioso que o Mia, na encarnação anterior do prémio Man Booker International, também foi finalista.
Pois foi. E por isso eu sabia que não tinha hipóteses de ganhar. Porque a minha vida plagia um bocado a do Mia. Eu vou atrás, porque ele é mais velho. Mas sigo-lhe os passos. Falta-me casar com uma médica. Nisso já estou muito atrasado. [Risos]

No conto “O Bom Déspota”, publicado na “Granta” e incluído em “O Livro dos Camaleões”, colocas-te na pele do atual Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. Ele às tantas diz que os jovens estudantes, por terem tempo para pensar, são uma ameaça terrível aos governos fortes. Parece quase profético.
Não era completamente profético porque os jovens que depois disso foram presos, há cerca de um ano, já tinham participado em manifestações contra o Governo, e alguns deles já haviam sido violentamente agredidos no decurso dessas manifestações.

Mas ainda não tínhamos chegado ao grau de perseguição que se viu depois.
Ainda não tinham acontecido as prisões. Nem o julgamento.

Por que razão assumiste, no conto, a voz do Presidente?
Isso é a coisa mais bonita da literatura. Um exercício de alteridade permanente. É o colocares-te no lugar do outro. Conheço uma jornalista brasileira que está a fazer um documentário sobre a situação atual no Brasil e está a acompanhar o Bolsonaro, o político que defendeu a tortura. Disse-lhe para ela tentar perceber se o Bolsonaro lê ficção. Porque a mim, pode ser que eu seja muito ingénuo, mas acredito que um grande leitor de ficção ganha humanidade. Porque um leitor de ficção, como um escritor de ficção, está continuamente a ter de se colocar na pele do outro. E quando te colocas no lugar do outro, não consegues ser um torturador. Eu gostaria de acreditar que a ficção tem o poder de melhorar as pessoas.

Em “O Bom Déspota”, encontramos esta frase: “Os regimes fortes começam a desmoronar-se quando o medo troca de lugar.” O que falta para que em Angola o medo troque de lugar? Ou será que já começou a trocar?
Já começou. Mas ainda há muito medo no lado errado. Medo de perder o emprego. Medo de não conseguir revalidar o passaporte. Medo de ser prejudicado no quotidiano, em pequenas coisas. E esse medo é absolutamente generalizado. Agora, não duvido que a mudança já está em marcha. As prisões dos jovens, que são absurdas até de um ponto de vista estratégico, prejudicaram muito a imagem do Presidente. Fragilizaram-no. E não se compreendem. O que poderia ganhar o regime angolano com a prisão destes jovens? Nada. E está a perder todos os dias.

Talvez seja uma manifestação de desespero.
Talvez de desespero. Talvez mesmo de cegueira. As ditaduras são muitas vezes cegas. Admito que as pessoas mais próximas do Presidente não lhe deem todas as informações e o iludam relativamente à inquietação que se vive em Angola. Mas a situação hoje é tão dramática, até com problemas de saúde gravíssimos (as epidemias de febre amarela), que custa a acreditar que haja alguém que não tenha noção do que se passa.

Como será o fim político de José Eduardo dos Santos?
Para mim, vendo a forma como as coisas estão a ser conduzidas, José Eduardo dos Santos só pode sair muito mal deste processo todo. Acho que acabará por ser afastado à força, se não morrer antes por questões de saúde. Será forçado a abandonar o poder. E creio que isso vai acontecer nos próximos meses. Não acredito que seja possível sustentar esta situação durante muito mais tempo.

Nos próximos meses?
Tenho grandes dúvidas que o Presidente chegue às eleições de 2017 no cargo que ocupa.

Então estará para breve a possibilidade de voltares a viver em Luanda?
O problema é que nós não sabemos o que vem depois. Uma coisa é a saída de José Eduardo dos Santos. Mas se essa saída for brusca, ou à força, não sei quem lhe sucederá.

Não haverá massa crítica suficiente para construir uma alternativa democrática?
Existem pessoas capacitadas para assumir o poder, mas resta saber como será feita a sucessão.

Estás pessimista?
Eu gostaria de estar otimista, mas é tudo muito incerto. O próprio facto de o Presidente não ter criado essa possibilidade de sucessão, torna tudo mais complicado. Ele criou o vazio à sua volta. Como Savimbi fez na UNITA, curiosamente. São processos bastante semelhantes. Savimbi fez o mesmo, vivia numa cegueira muito idêntica, e no final de tudo foi atraiçoado pela sua própria gente. Eu acho que o José Eduardo vai ter um fim semelhante. Até agora, está a seguir o triste destino de Savimbi. Enfim, não morrerá em combate porque ele não é um homem de combate. Mas acho que vai sair à força da História.

Não sentes vontade de escrever uma ficção que capte o que está a acontecer neste momento em Angola?
Sinto. Aliás, o romance em que estou a trabalhar passa por aí. Passa pela questão da juventude revoltada, deste desencontro histórico entre essa geração e a anterior, que se deixou de alguma forma aburguesar.

É um livro que remete para a esperança ou para o desalento?

[Pausa] Ainda ignoro como vai terminar, mas até agora não é um livro de desalento. É um retrato da nova geração, idealista e generosa, a opor-se à geração anterior, muito mais conservadora.

O futuro de Angola vai fazer-se com qual delas?
Só pode ser com a nova. Hoje em dia, a maioria da população é jovem.

Então sempre há lugar para a esperança?
Sim. Essa nova geração é muito melhor do que a minha. Em todos os aspetos. Até do ponto de vista criativo, nas várias áreas. Eu estou a vê-los chegar e quero caminhar junto com eles.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 21 maio 2016