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Quatro cidades, quatro bairros sociais, quatro documentários sobre os “Vizinhos” de Siza Vieira

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d.r.

Este sábado, a SIC Notícias inicia a divulgação de quatro documentários de Cândida Pinto sobre os bairros sociais construídos pelo arquiteto português no Porto, Haia, Veneza e Berlim

Valdemar Cruz (texto), Cândida Pinto e Rodrigo Lobo (vídeo) e Jordi Burch (fotografia)

As primeiras imagens foram projetadas na passada quarta-feira na ilha da Giudecca, Veneza. Era o consumar de um projeto iniciado em janeiro deste ano, no qual se envolveram o Expresso e a SIC. A pretexto da realização da Bienal de Arquitetura de Veneza, os comissários da representação portuguesa, os arquitetos Nuno Grande e Roberto Cremascoli, pensaram lançar uma luz nova e uma outra visibilidade sobre um aspeto muito particular da extensa obra de Álvaro Siza Vieira: os bairros sociais construídos no coração da Europa em diferentes momentos.

Entre janeiro e abril os repórteres do Expresso e da Sic andaram pelos bairros da Bouça, no Porto, Schilderswijk, em Haia, Campo di Marte, na Giudecca veneziana e pelo “Bonjour Tristesse”, em Berlim. Logo à partida, o objetivo dos comissários era aproveitar a circunstância de o projeto da Giudecca não estar concluído para utilizar o estaleiro da obra como espaço para a instalação do que seria o pavilhão de Portugal. Aí seria apresentado o resultado final desta proposta de viagem ao reencontro dos prédios e seus moradores. Com recurso a todo o tipo de materiais, inclusive os documentários feitos por Cândida Pinto, com imagem de Rodrigo Lobo, e as fotos assinadas por Jordi Burch, algumas delas utilizadas na reportagem publicada no passado sábado na Revista E do Expresso.

É agora tempo de apresentação do trabalho televisivo, dividido em quatro documentários de 35 minutos cada. O primeiro é exibido este sábado, dia 28, e o segundo no domingo. Os dois restantes ficam para o fim de semana de 4 e 5 de junho.

Uma das consequências imediatas desta iniciativas foi o desbloquear de uma situação que se arrastava na Giudecca, com um edifício de Siza por concluir, bem como a praça adjacente.

No Porto, na Giudecca, em Berlim ou em Haia, este foi um tempo de reencontros. Como quando Álvaro Siza revê em Haia Adri Duivesteijn , agora um homem maduro, que um dia, em 1984, chegara ao Porto carregado de idealismo e com vontade de fazer diferentes na sua cidade natal. Adri era então um jovem vereador do município de Haia, na Holanda. Após varias peripécias, nas quais se incluem autarcas de Lisboa a dizerem-lhe desconhecer quem pudesse ser Álvaro Siza, consegue por fim avistar-se com o arquiteto no Porto. Encontram-se junto à Capela das Almas, na rua de Santa Catarina, e Adri depara com um homem tímido, disponível para lhe mostrar a arquitetura da cidade, mas esquecido de lhe revelar os seus próprios trabalhos.

A Bouça revela-se um ponto de chegada e um ponto de partida para o holandês empenhado em resolver problemas habitacionais na sua própria cidade. Siza acaba por deslocar-se a Schiderswijk e vai encontrar uma zona ainda com muitos holandeses, mas já a sentir os efeitos de uma emigração progressiva. Proliferam os turcos, tal como os marroquinos, a par de alguns cabo-verdianos, um ou outro português, ou gente do Suriname. Três décadas depois, os holandeses quase desapareceram. A extrema-direita holandesa lançou um anátema sobre a zona. Apresenta-a como viveiro de jovens muçulmanos radicalizados. Em definitivo, aquele não parece ser um local onde os holandeses queiram viver.

De Berlim, e para lá da emoção sempre presente no reencontro de Siza com um dos seus edifícios mais icónicos, ou do insólito de um sérvio que desponta entre a multidão para convidar o arquiteto a entrar no seu apartamento, ficará para sempre na memória o reencontro com Brigitte Fleck. A arquiteta berlinense, velha conhecida de Siza, será porventura a principal responsável pela existência daquele edifício com a assinatura do arquiteto português. Trabalhava na altura na IBA-Internationale Bauausstellung Berlin, ou exposição internacional de arquitetura, através da qual se pretendia uma reconstrução crítica da cidade dividida.

A escolha do arquiteto português assentava em duas razões nem sempre explícitas, revela Brigitte. Do ponto de vista oficial era "valorizada a experiência dele em participação, na altura um tema bastante discutido em toda a Europa". Depois havia o empenho de alguns técnicos da IBA, uma espécie de "segredo de pouca gente que conhecia a obra de Siza" e via ali uma oportunidade de ter obra sua em Berlim.

Das muitas memórias suscitadas pela Giudecca, uma de entre todas sobressai, pelo lirismo, pela sensibilidade nela contida. O encontro de Siza com uma personagem única como Casimiro Pietro, 54 anos, residente no prédio construído pelo arquiteto desde 2009. Está cego. É uma cegueira recente. Em 2012 ficou desempregado. Nessa altura já quase não via. A mulher foi-se e vive com a filha, Silvia. A casa é pequena, mas acolhe o namorado de Sílvia, um coelho numa gaiola chamado Bafetto, um pequeno aquário e tantas recordações inomináveis. Viver ali, diz Casimiro, que encontrou em Siza um cúmplice para o vício do tabaco, “é um espetáculo". Não esquece o momento em que pela primeira vez ali entrou. Olhou e viu um, dois, três, quatro quartos. "Assino já", exclamou. Tinha casa.

Por fim a Bouça, que é onde tudo começou. Há uma clara distinção entre moradores recentes, como o jovem casal de arquitetos constituído por Hugo Reis e Filipa Almeida, ou históricos da luta pelas casas para os antigos moradores das “ilhas” do Porto, como Amélia Castro, uma mulher que faz questão de afirmar que “o senhor arquiteto fez isto graças à nossa luta”. Passados tantos anos, é-lhe impossível esquecer a batalha verbalizada na reivindicação "casas sim , barracas não”. Eram insultados. Diziam-lhes para irem trabalhar. As associações de moradores eram boicotadas. Nunca desistiram, porque de luta intensa se fez sempre o processo SAAL.

São os moradores das casas que tantos julgaram impossíveis. São os homens e mulheres que vivem um dia a dia diferente, com novas condições de habitabilidade. Grande parte deles reconhece a importância do trabalho desenvolvido pelo arquiteto, por vezes em condições muito difíceis. Muitos não se conhecem. Porém, entre todos, são os vizinhos de Siza.

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