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Marisa Monte: “A música é uma arte coletiva”

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O disco agora lançado surge cinco anos após “O Que Você Quer Saber da Verdade e assinala o fim do contrato da cantora com a Universal

leo aversa

“Coleção”, a primeira coletânea de Marisa Monte, é a sua “obra fora da obra”. Canções que estavam dispersas e esquecidas – e que, juntas, fazem uma obra só

Tiveram de passar três décadas para que Marisa Monte cedesse a compilar num só fragmentos de outros álbuns. Cedeu, mas não de uma forma qualquer, indo buscar o que de seu havia na obra dos outros. Canções que estavam no fundo de um baú em que não remexia há anos.

O resultado é “Coleção” – disco que se recusa a ser um “best of”, que celebra a colaboração com outros músicos e que pode muito bem vir a ser o último álbum físico da cantora carioca.

Andou 30 anos a fugir de coletâneas. Porquê?
Sempre tive reservas em juntar dois ou três pedaços de álbuns para os transformar num novo, sem que isso passasse por um critério artístico. Só agora abri essa porta, no final do meu contrato com a Universal, porque estava previsto e por achar que já tenho um conjunto de obras interessante. Porém, hoje em dia não faz sentido juntar os hits num único disco: o streaming e as playlists permitem que cada um faça a sua própria coletânea. Achei mais interessante ir buscar canções que estavam pulverizadas fora da minha obra. Fiz um levantamento dessas 40 músicas e acabei por escolher 13.

Mais do que fazer um “best of”, quis reencontrar os fragmentos de si que andavam dispersos?
Era a minha obra fora da minha obra. E eram fragmentos que de alguma maneira refletiram a minha carreira a solo. Em muitos casos foram situações em que reagi a estímulos externos, a convites, cujo resultado foi muito marcante. O disco mostra que os parceiros não são sempre da música, mas vêm de outras linguagens, como a do cinema. Muitas das canções eram desconhecidas até por pessoas muito próximas de mim e abarcam um arco de tempo extenso – há 20 anos entre a mais antiga e a mais recente.

De 40 temas ficaram 13. Como guiou essa escolha?
O fio condutor é a minha voz. Não houve um critério racional, foi um processo emocional e intuitivo. As canções ficavam bem juntas, tinham um equilíbrio interno interessante e formavam uma unidade. E são as que me trazem as melhores memórias, as que me marcaram.

Quer partilhar alguma dessas memórias?
A mais recente foi com a Carminho. Esta canção [“Chuva no Mar”] veio da minha aproximação com ela, e dela com o Brasil. A gente se conheceu aqui e a nossa amizade foi muito rápida, e tem que ver com a língua, com a expressão artística, com a voz feminina, com interesses comuns. Ela queria uma música para cantar e escolheu esta, que é um tema inédito meu e do Arnaldo [Antunes]. Pediu que eu gravasse uma referência vocal para ela levar para Portugal, que acabou por usar na gravação final. A criação tem vida própria, às vezes acontece sem grande planeamento. E o resultado é algo que eu adoro, muito leve e despretensioso.

Surge quase sempre acompanhada. É assim que concebe a música?
Eu sou boa de parceria, sei escutar, sou generosa. Para mim, a música é um aprofundar de relações, uma arte muito coletiva. O meu jeito sempre foi esse, criando com a banda, conversando, experimentando, sugerindo, escolhendo qual o melhor caminho.
O disco começa com um tema do Caetano e acaba com Jobim cantado por si e pelo David Byrne.

Dois extremos fortes. Foi intencional?
Ambos os temas pertencem ao projeto Red Hot, que existe desde os anos 90 e está ligado à prevenção e pesquisa da sida. Participei em três edições, a primeira com o David Byrne em 1996, a segunda com o angolano Bonga e o Carlinhos Brown, e a terceira em 2011 com o Devendra Banhart e o Rodrigo Amarante, cantando “Nu com a Minha Música”, do Caetano.

Além de Carminho, há outras duas mulheres muito fortes no disco: Cesária Évora e a mexicana Julieta Venegas.
A Cesária é aquela força da natureza. Veio ao Brasil fazer um show – eu já era sua fã – e acabei sendo convidada para cantar com ela. Depois nos encontrámos em Portugal e ficámos próximas. Ela cantava sempre em crioulo e eu queria que cantasse em português. Então pediu-me para a ajudar a escolher uma música brasileira. Sugeri várias, algumas falavam do mar, que era um assunto comum. Gravámos aqui no Rio. Foi a primeira vez que ela aceitou cantar em português. Em relação à Julieta, a música é belíssima e é dela. Eu e o Arnaldo fizemos a versão em português.

Há também nomes que são como a sua família: Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Paulinho da Viola.
Não dá para imaginar a minha trajetória sem eles. São as minhas referências, pessoas que admiro e que fortalecem todo o meu discurso.

E na sua ‘coleção’ cabe de tudo, do samba ao tango. Basta gostar?
A música brasileira é exatamente isso. Somos um país enorme, com diferentes influências internas e externas, com muitas misturas. Recebemos o que vem de fora e processamos isso ao nosso modo. E não é só o samba. O Brasil tem muitos estilos, muito fortes. Isso sempre se refletiu no meu trabalho e tem que ver com a naturalidade com que ouvimos música no Brasil: de uma forma aberta, em evolução.

O disco marca o fim do contrato com a Universal. O que vem a seguir?
Não tenho planos concretos, mas, com as mudanças na indústria e na tecnologia, as possibilidades são inúmeras. O formato físico tem cada vez menos peso e o streaming está tendo muita força. Porém, é uma coisa nova e está sendo ainda regulamentada. A música representa mais de metade do conteúdo da internet e deve ser tratada com respeito. O desafio é fazer com que a produção seja sustentável e não canibalizada pelo sistema. Tem de haver uma ecologia da música.

Concebe a sua obra sem o suporte físico do disco?
Com certeza. O disco vai continuar a existir, mas para um nicho de colecionadores. As gerações mais novas, como a dos meus filhos, não compram nem comprarão CD. A música deixou de ser produto para ser serviço. Você não precisa ter, nem comprar, basta ouvir –e para isso o streaming é absolutamente satisfatório. Pessoalmente, isso significa a libertação do formato de álbum, de dez músicas juntas. Significa que, se quiser, posso lançar uma música por mês. Claro que o streaming tem aspetos a melhorar em termos da informação que se dá ao ouvinte: ver a letra, o autor, quem tocou, quem produziu. É algo que a mim me faz falta.

Em 2017 faz 30 anos de carreira. Como olha para esse caminho?
Com gratidão, por tudo o que a música trouxe para a minha vida. A música aconteceu-me muito cedo, de uma forma muito inevitável.

Disse que hoje toda a gente consegue produzir um álbum, mas poucos conseguem ser ouvidos. Qual é o segredo?
Acho que é o show ao vivo. Fiz sempre grandes tournées e é à volta delas que a minha carreira foi sempre estruturada. Antes de lançar o primeiro disco, viajei durante ano e meio pelo Brasil. Quando o disco saiu já havia público para ele.

Como vê a situação do Brasil hoje?
Com incredulidade. Porém, vejo-a como um momento de transformação. A sociedade brasileira está a evoluir e o sistema político vai ter de a acompanhar, no sentido de se tornar mais representativo. O Congresso não representa o povo brasileiro – o que é insustentável. Porque temos um Congresso com 500 deputados dos quais elegemos 6%? Porque existem 35 partidos?

Votou Dilma?
Não. Votei Lula na primeira eleição e fiquei emocionada quando ganhou. Com o tempo, tudo se degradou, como se viu na própria aliança do PT com o PSB.

Está desiludida?
Há um vazio, mas é no vazio que podem surgir novas coisas. O que de mais bonito está acontecendo na democracia brasileira não são as ações da macropolítica, é a micropolítica: as pequenas ações nas comunidades, os estudantes que ocupam escolas em busca de uma melhor educação... Por isso, acredito que a mudança virá de baixo para cima, do clamor popular. Claro que vai demorar, ainda há muita confusão. E o que é uma loucura é que a Dilma saiu e ninguém está feliz. As razões que ela tinha para ser julgada eram razões que, se estivesse politicamente forte, não teriam vingado. Como ela politicamente é um desastre, não se segurou. Se não tinha força para impedir o impeachment, como podia governar?

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 21 maio 2016