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Londres para lá do bilhete postal

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PESSOAS. São os habitantes de Londres que protagonizam a sugestão desta semana

FOTO DE MISTERZEE

A capital britânica é das cidades mais visitadas por estrangeiros e das mais desejadas por quem procura uma vida melhor. A realidade, porém, é mais dura do que se poderia julgar naquela terra (ainda assim) de oportunidades

Em tempos de racismo e xenofobia exacerbados numa Europa em crise política e social, é preciso coragem para abordar os problemas ligados ao multiculturalismo e à convivência entre comunidades imigrantes nas grandes cidades do Velho Continente. É o que faz Ben Judah, e logo a propósito da urbe mais cosmopolita desta parte do mundo, aquela que há dias fez jus a esse título elegendo Sadiq Khan como seu primeiro presidente de Câmara muçulmano.

O livro chama-se “This is London” (Isto é Londres) e pretende, precisamente, descrever a capital do Reino Unido para lá do postal ilustrado ou grande parque temático em que se tornou para a maioria dos turistas. Daí que tenha chamado a atenção ao autor destas linhas, apaixonado pelo objeto da obra, frequentador e conhecedor da mesma além do que vem nos guias mas ainda assim curioso e intrigado pelo muito que nela não viu. “Nasci em Londres mas deixei de reconhecer esta cidade. Não sei se adoro a nova Londres ou se ela me assusta”, escreve Judah, de 27 anos, para explicar ao que vem. O resultado é um “livro revelador”, louva o “Financial Times”.

O autor “percorreu a cidade de lés a lés”, explica “The Daily Telegraph”, e conversou com “imigrantes, gente das classes baixas, limpadores do metro e lavadores de pratos” que passam despercebidos ao viajante médio. Querendo entrar nos seus meios, Judah dormiu com ciganos numa passagem subterrânea de Park Lane (ali mesmo ao lado do hotel Hilton e a uns metros do palácio de Buckingham, residência da rainha), acampou com europeus de leste e fez-se amigo de bandidos, explica o jornal. “The Guardian” lamenta, porém, alguma falta de informação específica sobre os entrevistados, que o “Financial Times” atribui a uma certa “pressa”.

ESTRATIFICAÇÃO ATÉ ENTRE EMIGRANTES

A Londres global “atraiu gente de todo o mundo para lhe fazer o trabalho sujo” e Judah mostra como as suas vidas entram num círculo vicioso inescapável. Explicando o que distingue as vidas dos que chegam pela vida legal e os mais de 600 mil imigrantes clandestinos – quase tentando o leitor a ver na estratificação entre gentios uma réplica das camadas da sociedade britânica nativa –, o autor percorre uma paisagem alterada, em que “pubs se tornam mesquitas, templos ou salões de bingo” e onde abundam cartazes em línguas que não o inglês.

Os ingleses, de resto, estão frequentemente ausentes, constata Judah. A identidade fragmentada da capital britânica passa por empregados filipinos escravizados por milionários árabes, gente traficada do Afeganistão, oligarcas russos – Judah entrevista a mulher de um deles – ou narcotraficantes que dividem entre si os melhores códigos postais londrinos, como outrora britânicos e outros traçavam fronteiras no Médio Oriente ou em África. A concorrência entre grupos imigrantes pode tornar-se feia.

HISTÓRIA Londres, aqui numa gravura de Claes Van Visschero feita há precisamente 400 anos, acolhe estrangeiros há séculos

HISTÓRIA Londres, aqui numa gravura de Claes Van Visschero feita há precisamente 400 anos, acolhe estrangeiros há séculos

A questão nem é só de perda de identidade. Essa nem sequer é nova. Já em 1185 Ricardo de Devizes se queixava de que em Londres “se amontoavam homens de todos os países que há debaixo do céu”, cita “The Guardian. Passados mais de 800 anos, o país debate-se com a questão da imigração, tema favorito dos apoiantes do “Brexit” (saída do Reino Unido da União Europeia) na campanha para o referendo marcado para exatamente daqui a um mês.

CARENTES DE EMPATIA

“Um livro duro de ler”, conclui “The Daily Telegraph”, pela miséria que relata (ao lado de tanta abundância), pela denúncia de um mundo de exploradores e explorados. “Devia abrir-nos os olhos para o preço que outros têm de pagar, não raro, pelo nosso conforto”, acrescenta “The Guardian”. Já “The Independent” alerta: “Se cair nas mãos erradas, este livro pode parecer um manual de recrutamento do UKIP”, o Partido para a Independência do Reino Unido, eurocético e de discurso xenófobo.

Lido corretamente, porém, prossegue este jornal, é uma obra necessária. “Numa época em que os que chegam à Europa são categorizados, com demasiada facilidade, por números, pelas dimensões do fluxo migratório”, é bom que alguém nos recorde “os triunfos e tragédias pessoais” de cada mulher, de cada homem. Frisar a sua natureza humana e individual é uma forma de combater estereótipos e estimular a empatia, de que andamos tão carentes.

“This Is London: Life and Death in the World City” Autor: Ben Judah Editora: Picador Páginas: 426; Preço: £18,99 (€24,5)

“This Is London: Life and Death in the World City” Autor: Ben Judah Editora: Picador Páginas: 426; Preço: £18,99 (€24,5)