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Todas as músicas cabem na Gulbenkian

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A nova temporada da Gulbenkian aposta na continuidade. Num continuidade de misturas, de ruturas, de muita colaboração institucional, da procura de novos públicos. Há muitos consagrados, muitos jovens, alguns portugueses e alguma ópera. E muito mundo dentro do mundo, já de si vasto, da música

Pode um agrupamento barroco tocar fado? Pode. Porque em música tudo é possível. Como disse ao Expresso Risto Nieminen, o finlandês que há seis anos dirige o Serviço de Música da Fundação Gulbenkian, "a música clássica não é a única boa música". Por isso a temporada 2016/17 tem destas pérolas, que os menos puristas irão apreciar: os Músicos do Tejo, agrupamento barroco português, a juntar-se ao fadista Ricardo Ribeiro para um espetáculo intitulado "Fado Barroco". Ou o já tradicional ciclo Músicas do Mundo a apresentar, num melting pot improvável, o grego Sokratis Sinopoulos, a marroquina Hindi Zahra, Adriana Calcanhotto em viagem pela poesia brasileira e portuguesa, António Zambujo (um regresso) ou o coletivo sufi liderado por Asif Ali Khan.

Se só disto vivesse a temporada, até os menos puristas iriam desgostar. E é assim que importa manter os pratos fortes do meio clássico internacional. Como a temporada é extensa e não queremos debitar uma listagem, o que aqui fica é uma escolha ao gosto de quem a faz. A pianista argentina Martha Argerich, esse prodígio de brilhantismo e inspiração, retorna a Portugal após uma ausência prolongada, ao lado do Quarteto Quiroga. Thomas Hampson, o barítono norte-americano, canta Gustav Mahler e dirige a Orquestra Gulbenkian (OG). Também a soprano Karita Mattila retorna em recital, com canções de Brahms, Richard Strauss e Alban Berg. E András Schiff, o húngaro que é pianista e maestro, sobe ao palco em ambas as qualidades. Outros nomes (grandes): Jordi Savall, Mitsuko Uchida, Pedro Burmester, Grigory Sokolov. Helène Grimaud, Rudolf Buchbinder, Gidon Kremer e a Kremerata Baltica.

Jovens para começar

A abertura da temporada pertence à Orquestra XXI, jovem formação de músicos portugueses a tocarem em orquestras estrangeiras que se junta de tempos a tempos, para não se perderem de vista. Mas há mais jovens, muitos mais. A Orquestra Sinfónica Simón Bolívar vem com o seu maestro - também regente da filarmónica de Los Angeles -, Gustavo Dudamel, que aos 35 anos é um dos maiores maestros do mundo. A Orquestra Juvenil Gustav Mahler comparece dirigida por Lorenzo Viotti, que venceu o Prémio Jovens Maestros atribuído pelo Festival de Salzburgo.

Como é de esperar, a Orquestra Gulbenkian mudará muitas vezes de mãos e, na temporada que se segue, vêm dirigi-la nomes como Lawrence Foster (o seu diretor musical entre 2002 e 2013), Paul McCreesh (o atual diretor), Hervé Niquet, Ernest Martínez-Izquierdo, Susana Malkki, Joana Carneiro, Alain Altinoglu, Frédéric Chaslin. Do lado do Coro, Michel Corboz conduz a "Missa em si menos" de Bach.

A lógica da colaboração

E resta a ópera, capítulo no qual a Gulbenkian tem vindo a investir, e que desta feita contará com uma obra de Pedro Amaral, encomenda da Fundação e coproduzida com o Teatro Nacional D. Maria II, intitulada "Beaumarchais". Também será estreada uma ópera de Vasco Mendonça, "Bosch Beach" - nos 500 anos da morte de Hieronimus Bosch -, uma coprodução internacional que envolve a Gulbenkian e o Teatro Maria Matos.

E as transmissões em HD do Met Opera continuam, reforçando uma ideia de colaboração que RIsto Nieminen sempre defendeu, e que se espelha em iniciativas como o Festival Cantabile (com o Goethe Institut) e a parceria com o Teatro Maria Matos. Haverá o Festival Jovens Músicos, que este ano completa 30 anos, o Jardim de Verão - a assinalar o 60º aniversário da Fundação -, o Jazz em Agosto,e mais concertos ao domingo do alguma vez houve.

"Vivemos, neste momento, num período de incerteza, tanto económico, como político ou ambiental. O mundo à nossa volta está em mudança acelerada. Como é que isto afeta os nossos hábitos? E, mais especificamente: como é que isto afeta a nossa relação com a música? Que papel pode a música clássica desempenhar para nós?", interroga Risto Nieminen da brochura da temporada. Se a pergunta não é de resposta fácil, a mera procura da resposta já é meio caminho andado para a alcançar.

  • “Nós não temos um serviço de música clássica. Temos um serviço de música”

    A temporada de música 2016/17 da Gulbenkian, anunciada esta quarta-feira, insiste no caminho que iniciou há seis anos: o da diversidade e da abertura às pessoas. A ideia é que todos os que olhem para o programa encontrem pelo menos um concerto no qual se revejam. Risto Nieminen, que o delineou, acredita que a música não tem fronteiras — e que tem um papel social