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“Nós não temos um serviço de música clássica. Temos um serviço de música”

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FINLANDÊS O diretor do Serviço de Música da Gulbenkian chegou a Portugal em 2010 e imprimiu uma revolução na oferta musical da Fundação

d.r.

A temporada de música 2016/17 da Gulbenkian, anunciada esta quarta-feira, insiste no caminho que iniciou há seis anos: o da diversidade e da abertura às pessoas. A ideia é que todos os que olhem para o programa encontrem pelo menos um concerto no qual se revejam. Risto Nieminen, que o delineou, acredita que a música não tem fronteiras — e que tem um papel social

Risto Nieminen é o finlandês que há seis anos está ao leme do Serviço de Música da Gulbenkian. E que, mal chegou, imprimiu uma grande transformação na oferta musical da Fundação. Introduziu agentes até então estranhos como as músicas do mundo, diversificou a oferta e sacudiu o pó a uma forma de programar que afastava os novos públicos. Hoje, essas reformas tornaram-se o dia a dia de uma programação que se quer plural, o que este ano volta a estar em destaque. Grandes nomes, jovens promessas, misturas improváveis, alusões ao cinema e à literatura, mais música de câmara, mais canto: a vontade de arriscar ainda aí está, embora, como diz Nieminen, o risco do risco seja apresentar qualidade, sem cair na repetição de uma fórmula.

De 2010 para cá, que mudanças sentiu em termos do público que frequenta a Gulbenkian?
Acho que é mais diversificado, graças às novas propostas que fizemos: músicas do mundo, o projeto “Portas Abertas”, a música de câmara com entrada livre... A Orquestra Gulbenkian (OG) passou a atuar mais nos espaços públicos, devido à colaboração que tem encetado com outras instituições, como o o Instituto Goethe e a EGEAC, o braço cultural da Câmara de Lisboa. Isto leva-nos a sítios onde antigamente não costumávamos tocar.

Mas pensa que já se quebrou aquele tabu, que afastava as pessoas por acharem que “a Gulbenkian não é para nós”?
Isto já mudou bastante, mas o nosso trabalho nunca acaba. Ainda podemos fazer melhor. O mundo à nossa volta também mudou e temos de estar atentos a isso, e reagir de forma a fazer coisas que façam sentido para as pessoas. Ao mesmo tempo, é preciso ter uma visão integrada, que faça sentido na totalidade da nossa oferta. Temos vários tipos de concertos e de eventos, para atingir justamente vários tipos de público. Claro que tudo o que fazemos tem de ser feito com qualidade. Só assim podemos marcar as pessoas e só assim elas vão sentir que estamos a trabalhar para elas.

“A música clássica não é a única boa música.” A frase é sua. Continua a ser o guia da programação?
Sim. Nós não temos um serviço de música clássica. Temos um serviço de música. Isto abre mais portas e mostra que a música não tem fronteiras, estilísticas ou outras. Como já disse, se houver qualidade, se os músicos derem o seu melhor, a mensagem passa.

Sempre falou em arriscar, mas o que significava arriscar há seis anos, quando chegou a Lisboa e assinou uma mudança de rumo do serviço de música, não significa o mesmo que agora.
É uma boa questão. As instituições culturais têm sempre de arriscar alguma coisa. Se só repetirem o que já fizeram vezes sem conta isso pode ser muito negativo e destruidor — o público cansa-se. Uma instituição é uma célula viva, cumpre as suas funções mas tem de se adaptar a um contexto. E hoje em dia é importante pensar não só nas pessoas que costumam vir aos concertos, mas ter uma visão mais global e ampla, no sentido de ter uma função e uma relevância social, comunitária.

É o que tem tentado fazer, abrindo a Gulbenkian às linguagens que dialogam com a música, como o cinema ou as conferências?
Sim, com certeza. E também estamos a repensar como integrar as crianças e os jovens neste processo, e não só como ouvintes, mas como participantes. Temos muitas atividades com as escolas — que é uma parte da nossa missão que está a evoluir —, e fazemos concertos com a Orquestra Geração, em locais diversos.

Nesta nova temporada, há eventos muito diferentes. Como o grupo barroco Os Músicos do Tejo a tocar fado com Ricardo Ribeiro, como Jordi Savall, que é uma presença frequente, como Martha Argerich, que regressa a Portugal ao fim de muitos anos, como a música do “Senhor dos Anéis”… A ideia era que toda a gente encontrasse na temporada pelo menos um concerto com o qual se identificar?
Se olhar para o que faz a OG, a programação é muito mais diversificada do que costumava ser. Temos os concertos de domingo, um ciclo que começou há dois anos e que tem vindo a crescer. Começamos com dois concertos por temporada e agora temos sete. São duas sessões por domingo, uma às 11h e outra às 16h, cada sessão dura uma hora e custa dez euros. E o objetivo é tocar obras populares. Estes projetos permitem ir ao encontro de um novo público e dar às famílias a oportunidade de usufruírem da música em conjunto, o que muitas vezes é difícil se o concerto for à noite durante à semana.

Porquê incluir uma partitura como a do “Senhor dos Anéis” no programa da Gulbenkian? Já o fez no ano passado e repete-o este ano.
Tive reservas no início, mas decidi que devíamos fazer essa experiência. E no concerto senti uma vibração muito boa, uma grande atenção e aceitação do público. Ao meu lado estava o Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional D. Maria II, que foi com a família e estava completamente rendido. Não podemos comparar a música deste filme com uma sinfonia de Beethoven. É outra coisa, outra proposta. E faz sentido no contexto do texto, da história, que quase todas pessoas conhecem e podem partilhar.

Tem continuado o investimento da Gulbenkian em encomendas a compositores. É uma afirmação do papel da fundação de estimular a criação contemporânea?
A fundação sempre teve esse papel. A encomenda a Pedro Amaral — que vai estrear uma ópera, “Beaumarchais”, em junho do ano que vem – decorre de uma coprodução com o D. Maria II. É uma obra em que a parte teatral e a musical têm igual importância, e que tenta recriar o teatro musical de uma forma que não é muito habitual. Teremos a estreia de uma outra encomenda a um compositor português que vive na Alemanha, o Luís Antunes Pena, que escreveu um Concerto para orquestra e dois percussionistas e a quem há sete anos não encomendávamos uma obra. E vamos ter também uma ópera de Vasco Mendonça, “Bosch Beach”, que não é uma encomenda nossa mas uma coprodução internacional que envolve a Gulbenkian e o Teatro Maria Matos, e que vamos apresentar pela primeira vez.

Em 2010 expressou a vontade de recuperar o espólio de 400 encomendas feitas pela Gulbenkian, muitas das quais foram obras que não voltaram a ser tocadas após a sua estreia. O que foi feito neste sentido?
No ano passado, tocámos “A Impaciência de Mahler”, de António Pinho Vargas, que foi estreada há pelo menos dez anos e nunca mais tinha sido abordada. E nesta temporada vamos retomar o “Concerto para Clarinete” de Sérgio Azevedo. Não podemos incluir todas as encomendas de que gostaríamos, mas é um património muito importante da Fundação — que por outro lado está à disposição de outras instituições culturais que o queiram aproveitar. A música contemporânea não pode viver só de estreias, sob pena de não se criar um repertório. Depois, o tempo dirá quais as obras que vão ficar ou sobreviver, mas se não as tocarmos não damos sequer essa possibilidade. Dito isto, o equilíbrio entre as novas encomendas e as obras já existentes é difícil. E é importante continuar a encomendar novas obras, que reflitam o que os compositores estão a fazer hoje em dia.

  • A nova temporada da Gulbenkian aposta na continuidade. Num continuidade de misturas, de ruturas, de muita colaboração institucional, da procura de novos públicos. Há muitos consagrados, muitos jovens, alguns portugueses e alguma ópera. E muito mundo dentro do mundo, já de si vasto, da música