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Hino contra todas as formas de escravatura ecoa no Teatro Carlos Alberto

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A peça “Hotel Louisiana Quarto 58” tem por base a vida e obra do autor Albert Cossery, que durante mais de 50 anos viveu no hotel parisiense com o mesmo nome

André Manuel Correia

Uma mulher sozinha num palco despojado de ornamentos fuma cigarros sucessivos, enquanto reflete sobre a escravatura da sociedade contemporânea imposta pelos predadores vorazes do progresso. Em “Hotel Louisiana Quarto 58”, uma encenação de João Samões, cruza-se o teatro, o pensamento livre e a literatura, ao mesmo tempo que se exalta a obra do autor Albert Cossery. O espetáculo estará em cena entre amanhã e domingo no Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, e resulta da convocação de factos biográficos, excertos de entrevistas e fragmentos da obra do escritor.

Ao longo do monólogo, interpretado pela atriz Joana Bárcia – considerada pelo encenador “uma das mais luminosas” da sua geração –, deambula-se entre um quarto de hotel e a rua; entre uma casa onde ecoam as ruínas da guerra da Síria e o conforto arenoso de uma praia. Como um transeunte, a personagem vagueia sobretudo no universo mental de Cossery, representado pelo encenador em tons laranja.

Em cena encontramos um animal esfomeado, mulheres que sacodem as ancas ao som de cascavéis e alguém que sugere atirar um tigre à sogra. O espetáculo caracteriza-se igualmente pelo retrato que traça da animalidade, arrogância e ferocidade presentes nas sociedades contemporâneas, promove o TeCA em comunicado

Durante cinquenta anos, o Hotel Louisiana serviu de casa para as odisseias e conflitos interiores do escritor nascido no Cairo. Grande parte do seu tempo foi dedicado a desvendar o aspeto grotesco das ações e relações humanas. Albert Cossery tornou-se célebre pela sua crítica à sociedade ocidental efetivada com humor irreverente e por apontar o dedo aos valores hegemónicos, pautados pela violência, a ordem, o dinheiro e a escravatura.

“Hotel Louisiana Quarto 58” refere a fome, a revolta e a revolução, bem como desvenda o lado mais politicamente zangado da obra do escritor egípcio. “Cada um deve fazer a sua própria revolução”, diz a protagonista ao longo do seu diálogo solitário.

Em declarações aos jornalistas após um dos ensaios da peça, o encenador João Samões destacou que a peça é “um hino contra todas as formas de escravatura”, um “retrato teatral” da filosofia de vida de Albert Cossery e reiterou o caráter “libertário” da mesma.

“É uma crítica à escravatura e a esta coisa de nos obrigarem a ser máquinas de produção e de consumo. Somos escravizados de muitas formas, muitas delas sub-reptícias e por vezes somos nós que nos colamos a elas”, afirmou o encenador e dramaturgo deste “Hotel Louisiana Quarto 58”.

O espetáculo é uma coprodução da associação cultural e artística Debataberto e o Teatro Nacional São João. As récitas podem ser vistas de quinta-feira a sábado, às 21h, e no domingo à tarde, pelas 16h.