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O sabor da cicuta

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IMAGINARIUS. O festival internacional de teatro de rua de Santa Maria da Feira decorre amanhã e sábado. Na imagem, Ensemble Lodi

d.r.

A sólida amizade entre dois nomes maiores da literatura, Mário Vargas LLosa e Gabriel Garcia Marquez, quebrou-se na Cidade do México num dia de S. Valentim de 1976, vergada pela violência do murro espetado na cara do colombiano pelo peruano. A história por trás de uma inimizade eterna parece conter muitas histórias, algumas delas antigas e nunca resolvidas. O ponto, aqui, está no modo como o passar dos tempos transformou em hostilidade ideológica o que, na verdade, não terá passado, na origem, de uma questão de saias.

Esta confusão de planos associa-se a um conjunto de debates travados nos últimos dias em Portugal a pretexto da decisão governamental de reequacionar o modo como financia alguns colégios privados. De alguma forma sucede algo de similar ao modo como passou a ser percecionada a homérica disputa entre Llosa e Marquez. Uma decisão assente em motivos tão prosaicos como evitar o desperdício nas finanças públicas depressa foi despejada no caixote de um dos mais poderosos venenos a evitar e combater: a ideologia.

Há, em Portugal, uma tradicional repugnância pelo debate de ideias. Isto dito, seria razoável avançar com uma associação deste complexo a uma herança do modo como ao longo de quase meio século de regime ditatorial, fascista, foi moldado o pensamento da sociedade portuguesa, mas poderia não ser muito avisado. Primeiro, por indiciar demasiada ideologia. Depois, por haver portugueses, alguns deles académicos, para quem aplicar o adjetivo "ditatorial" na identificação do regime de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano não é uma opção. Muito menos seria fascista. Quando muito, autoritário.

Bigolis Teatre

Bigolis Teatre

O anátema sobre o debate ideológico, saudável e necessário a qualquer democracia, tende a afunilar conceitos, fomentar paradoxos e gerar absurdos materializados na demarcação de coutadas. Umas seriam por definição território da esquerda. As outras seriam um exclusivo da direita.

A cultura, por erro, cegueira ou omissão, tem sido uma das áreas privilegiadas desta invenção de trincheiras onde deveria existir espaço para a diversidade de caminhos, sem menorizar os efeitos ou a sua importância na estruturação das sociedades nos mais variados domínios. Inclusive económicos.

Vimos como o Governo do PSD/CDS abdicou de ter um Ministério da Cultura e percebemos o quanto há de simbólico numa opção deste tipo. Não será por coincidência que uma das primeiras medidas do conservador governo interino agora formado no Brasil tenha sido a extinção do Ministério da Cultura.

Mais que uma opção resultante de uma qualquer ideologia, estas são medidas apenas justificadas por algo de bem diverso. É o preconceito ideológico, tão generosamente distribuído por inúmeras estruturas do poder e com particular visibilidade em algumas autarquias locais.

Não adianta já insistir no que foi o Porto de Rui Rio, mas valerá a pena sublinhar os bons exemplos de sinal contrário. Isto é, autarquias que, embora colocadas na órbita de partidos situados à direita, beneficiam do facto de serem dirigidas por quem não se deixa enredar no fatalismo de leituras fechadas. Não têm da cultura uma visão estreita. Percebem, inclusive, e sabem aproveitar o poderoso estímulo económico proporcionado por iniciativas através das quais marcam a diferença. Por partirem de propostas cuja originalidade é o fogo que as mantém vivas e as tornam indispensáveis em qualquer roteiro.

Entre muitos outros exemplos possíveis, o Festival Imaginarius, organizado há 15 anos pela Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, de maioria PSD, é uma das provas maiores desta mestria na conjugação de uma opção capaz de transformar a cultura num dos principais focos de atração da cidade.

Depois de conquistar o país, passou a tornar-se uma referência a nível internacional. Ao longo de todo este tempo tem sido, no âmbito das artes de rua, um palco procurado por alguns dos mais reputados criadores e artistas nacionais e estrangeiros. Não raras vezes escolhem as ruas da Feira para apresentarem em estreia absoluta as suas criações. Já por lá passaram companhias como La Fura dels Baus, Royal de Luxe, Pippo Delbono, Tiranick Theatre e tantos outros com lugar cativo nos primeiros lugares da cena mundial do teatro de rua.

The Funes Troup

The Funes Troup

Amanhã e sábado mais de 300 artistas de 16 países criarão novos mundos nas ruas e praças do centro histórico da Feira. É expectável que, como tem sido habitual, uma multidão acorra aos pés do Castelo para acompanhar o que de melhor se faz no mundo nesta área.

Não vão à procura de veneno. Buscam inquietação. Procuram o antídoto capaz de combater o marasmo prensado nas coreografias dos banais quotidianos do nosso descontentamento.