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Não são só canções de amor tontas

ESTRELA. McCartney faz música há mais de meio século

Jimmy Baikovicius

Uma nova biografia do antigo Beatle destrói ideias feitas que o próprio autor um dia subscreveu

Para quem escreveu um dia que “John Lennon era três quartos dos Beatles”, Philip Norman parece querer redimir-se. Ou pelo menos encontrou no quarto restante matéria suficientemente interessante para dar à estampa mais de 800 páginas sobre a vida de Paul McCartney. O livro saiu a 5 de maio, 26 anos após ter biografado o seu companheiro de criação e 35 depois de “Shout!”, a sua obra sobre os Beatles. Agora até já pensa que Paul, hoje com 73 anos, foi “subestimado”, conta “The New York Times”.

O McCartney das “silly love songs”, visto por muitos como o Beatle “fofinho” e superficial, em contraste com o profundo e iconoclasta Lennon, sai efetivamente redimido em “Paul McCartney: The Life”, escreve “The Guardian”. Norman parece corroborar, por fim, a ideia de George Martin, o recém-falecido produtor dos Beatles, segundo a qual “John era limão onde Paul era azeite”, que é como quem diz que são precisos dois para temperar a música da banda mais bem-sucedida de sempre.

O diário britânico nota até que há uma dose de “paninhos quentes diplomáticos no tocante às qualidades menos atraentes” do biografado, mormente a escassa simpatia e generosidade dispensada a empregados e subalternos. McCartney não colaborou diretamente com Norman, mas tão-pouco o hostilizou. A biografia é tacitamente autorizada e conta com contributos inéditos de amigos e parentes. E não se pense que é hagiográfica: autoritarismo e desejo de autopromoção são características de Paul que Norman aborda, bem como o sexismo dos Beatles e a avareza do mais célebre dos seus membros sobreviventes.

UM CERTO ANTICLÍMAX

Depois de evocar a infância de McCartney, o impacto da morte da mãe e a influência do pai, músico amador, o autor regressa aos anos de Hamburgo, onde os Beatles tocaram em clubes (ainda antes da formação definitiva, com George Harrison e Ringo Starr), e aos bas-fonds da Londres dos anos 60, para garantir que “Macca” (como McCartney era conhecido) também tinha interesses de vanguarda, tendo estudado compositores como Karlheinz Stockhausen e Luciano Berio.

A imagem mole deveu-se, conclui Norman, a uma certa atitude displicente do próprio Paul – que, segundo a revista “New Yorker”, faz um esforço sobre-humano por parecer vulgar – e à acidez de Lennon pós-rutura dos Fab Four, como os Beatles ficaram conhecidos. A dor causada pelo fim da parceria com John, a convicção de que a música acabara para si e a forma como deu a volta merecem lugar de destaque. McCartney veio à tona e deu mostras de impressionante produtividade a solo (17 álbuns pós-Beatles) e, nos anos 80, com os Wings (7 discos).

O espesso volume revela episódios (ainda haverá algo por descobrir sobre os quatro liverpoolianos?) como os nove dias que Paul passou numa prisão de Tóquio, por posse de marijuana. E conta que um compromisso com os escuteiros o fez perder um concerto com Lennon quando faziam parte da banda Quarrymen, na juventude. A concentração nos anos anteriores e posteriores aos Beatles dá ao jornal nova-iorquino, contudo, uma certa sensação de “anticlímax”. E que o respetivo clímax tivesse sido alcançado aos 20 e tal anos não é irrelevante.

CONTINUAR A TRAUTEAR

A vida pessoal de Paul merece algum destaque, a que as recensões da imprensa têm prestado atenção. O ex-Beatle homenageou a primeira mulher, Linda Eastman (falecida em 1998), dizendo que não sabe como é que alguém conseguira viver com ele nos piores momentos, mas Norman traça um quatro idílico, rural e vegetariano da família naqueles anos. O livro escalpeliza ainda o segundo casamento do músico, com a modelo Heather Mills, e o seu triste fim, em 2008, ao fim de seis anos. Desde 2011 McCartney está casado com Nancy Shevell.

“The Washington Post” elogia a densidade e completude da obra, que retrata “um McCartney mais pleno do que qualquer outra”. Norman consegue não só confirmar o papel central da música nesta vida como mostrar as outras dimensões da mesma. Para este jornal, “apetece sacudir o McCartney do terço final deste livro e dizer-lhe: ‘Rapaz, não queres voltar a ser um grande artista?’.” Mas a verdade é que não só Paul nunca deixou de o ser como a vida “se leva melhor em adaptação permanente, a trautear, do que a tentar agarrar as estrelas com a mão”.

“Paul McCartney: The Life” , Autor: Philip Norman, Editora: Weidenfeld & Nicolson, Páginas: 853, Preço: £12 (€15)

“Paul McCartney: The Life” , Autor: Philip Norman, Editora: Weidenfeld & Nicolson, Páginas: 853, Preço: £12 (€15)