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“Pensei que me ia pedir um autógrafo. Ela disse: seu judeu!”

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O romancista britânico Howard Jacobson (prémio Booker, 2010), presente este ano no festival literário de Matosinhos, conta ao EXPRESSO uma experiência traumática que teve há uns anos em Londres

Luís M. Faria

Jornalista

Uma das sessões mais curiosas do LeV - Literatura em Viagem, o festival literário de Matosinhos, foi com o escritor britânico Howard Jacobson, autor de, entre outros, os romances “A Questão Finkler” (prémio Booker, 2010) e “J”, recentemente publicado pela Quetzal. Conhecido pela sua utilização do humor, Jacobson mostrou o seu lado jovial na 'entrevista de vida' a que o submeteram - por exemplo, quando aconselhou as esposas dos seus dois jovens interlocutores a deixá-los imediatamente, pois os homens só aprendem ao terceiro casamento (“procurem um homem de 50, 55, judeu, de preferência romancista...”).

Piadas à parte, Jacobson hoje fala cada vez mais no tom de quem pensa que o mundo está a evoluir numa direção inquietante. Jacobson diz que nos anos 50, quando era um adolescente judeu em Manchester, o avisavam para resistir à tentação de falar de antissemitismo se se queria queixar de alguma coisa. As pessoas da sua geração achavam que, após o Holocausto, esse flagelo jamais mais poderia voltar, pelo menos com a antiga intensidade. Mas agora ele vê-o de regresso.

A propósito da ruína do processo de paz no Médio Oriente, volta-se a pôr em causa a própria existência de Israel. “Veneno velho em garrafas novas”, diz Jacobson, lembrando que o antigo mayor de Londres, Ken Livingstone, atualmente suspenso do Partido Trabalhista por causa de umas declarações que fez, garantiu não ser antissemita, explicando que apenas não gosta de judeus em Israel. Jacobson diz que a oposição a Israel canaliza um aglomerado de velhos preconceitos da esquerda: defesa das vítimas, anticolonialismo, paranóia da conspiração judaica (que serviu de pretexto a campanhas anti-judias de Estaline), antiamericanismo...

Howard Jacobson, ao centro, durante o debate em que participou no Lev, o festival literário de Matosinhos

Howard Jacobson, ao centro, durante o debate em que participou no Lev, o festival literário de Matosinhos

D.R.

Para ele, a distinção a fazer não é entre antissemitismo e antissionismo - ele acha-os inseparáveis - mas entre antissionismo e críticas às ações do Governo de Israel, que são sempre legítimas - ele próprio reconhece que acha Netanyahu difícil de engolir, e que os palestianianos têm motivos para a sua raiva. Infelizmente, há quem não entenda essas distinções. Em conversa com o EXPRESSO, Jacobson contou uma experiência direta que teve há anos:

“Eu tinha feito um programa de televisão que correra bem, e muita gente parava-me na rua e pedia-me um autógrafo. Vi esta rapariga a sorrir para mim à saída de uma estação de correios no centro de Londres. Bem vestida, classe média, uns 26 anos, parecia uma estudante. Pensei: ah!, vai-me pedir um autógrafo. O que se faz numa altura dessas é preparar o rosto para um sorriso. E ela virou a cabeça e disse: seu judeu!

Eu fiquei incrédulo e perguntei: o quê? Ela respondeu: você ouviu. Seu judeu! Uma rapariga de classe média, com um ar perfeitamente respeitável. Eu entrei nos Correios, fiz o que tinha para fazer, e então pensei que não tinha de aguentar aquilo. Fui procurá-la. Quando saí, não a vi logo, mas lembrei-me que a tinha visto atravessar a rua e entrar numa farmácia. Fui até lá e descobri-a na caixa, a comprar uns ganchos para o cabelo. Abordei-a: desculpe, o que há bocado me disse foi o que acho que me disse? A pessoa na caixa olhou espantada a tentar perceber o que se passava. A rapariga disse-me: oh, vá-se embora. Vá tomar um duche. E sabe bem de que tipo de duche eu estou a falar.

Fiquei assombrado. Nem soube o que dizer. Normalmente sou rápido a responder, mas ali fiquei sem palavra. pensei, chamo a polícia? Não, não ia chamar a polícia por causa de uma rapariga. Mas não pude deixar de continuar a pensar no assunto. Tentar entender não adianta muito. Onde é que podemos chegar com a nossa compreensão? Mas escrevi 'A Questão Finkler' em parte como reação a isso.

Devo dizer que não é o tipo de coisa que aconteça com frequência. O que já tive foi pessoas como, por exemplo, um tutor na universidade que nunca se lembrava do meu nome e me chamava todos os nomes judeus que sabia: Goldberg, Finkelstein... Eu não era nada. E houve mais uma ou duas coisas como essa. Ou, numa luta com outros miúdos, alguém me chamava um porco judeu. Mas à parte isso, nada.

Não é disso que me queixo quando falo de antissemitismo. Não dessas manifestações horríveis, práticas, físicas. O antissemitismo que conheço, e sobre o qual escrevo e falo, é uma forma de discurso. Há muito antissemitismo pelo mundo. Se as pessoas quiserem ouvir, ouvem. Ainda há gente que acredita que os judeus pretendem dominar o mundo, que mentiram sobre o Holocausto. Talvez aquela rapariga fosse uma estudante universitária. Talvez fosse uma apoiante dos palestinianos. Ou talvez fosse louca. Mas eu posso alegar que qualquer pessoa que odeia outras pessoas irracionalmente é louca. Onde é que isso nos leva?

O que eu sei é que o que está a passar-se em Israel entre os israelitas e os palestinianos tem intensificado isso. E agora é admissível, quando se fala da situação lá, falar de judeus da forma mais violenta. Normalmente há o cuidado de lhes chamar israelitas, mas às vezes quem fala esquece-se e então fica perfeitamente claro. Em vez de dizer 'o que o Governo de Netanyahu está a fazer', diz-se 'sionismo'.

Aí cruza-se uma linha particular. Porque o sionismo é uma ideologia para a libertação dos judeus. Se se quer que os palestinianos tenham a sua própria terra, e se compreende e se estima os palestinianos, devemos estimar o sionismo. E o oposto também é verdade. Se se simpatiza com o sionismo, também se deve simpatizar com os palestianianos. Isto não implica simpatizar sempre com os métodos. Mas a ideia de que devem ter um lar, que é intolerável viverem como vivem, evidentemente que sim.”