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Chama-se Outro e é o arquiteto do novo Museu de Escultura de Santo Tirso. Sabe quem é?

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LUCILIA MONTEIRO

Com inauguração marcada para este sábado, o edifício construído de raiz liga-se ao requalificado Museu Abade Pedrosa

Nem Siza, nem Souto Moura. O autor do projeto do Museu Internacional de Escultura de Santo Tirso é um arquiteto chamado Outro. A surpresa acontece a meio da conversa com Álvaro Siza Vieira. Vai ser inaugurada amanhã mais uma obra feita em parceria com o seu ex-aluno, grande amigo e também Prémio Pritzker, Eduardo Souto de Moura. Ao ser questionado sobre o modo como se organizam para trabalharem em comum, dá uma resposta desconcertante. “O projeto é feito por um outro”.

Como? É a imediata reação de espanto, e não tanto uma forma de pergunta, que desponta nos lábios do jornalista. Siza explica: “Na verdade o projeto é feito por um outro, que é a junção de dois arquitetos que gostam de trabalhar em conjunto”.

Aproveita para contar uma história. Em 2005 foram convidados a desenhar em conjunto o Pavilhão Serpentine, em Londres. Pouco tempo após a inauguração, um amigo de Souto Moura contacta-o e diz-lhe que o projeto nem parece dele. Uns dias depois acontece o mesmo com Siza. Também para um seu amigo, aquele não parecia um projeto dele. Ao que lhe responde, recorda agora, "que se parecesse meu, teríamos de perguntar o que lá tinha estado a fazer o Eduardo Souto Moura".

Uma exposição de Carlos Nogueira na abertura do novo museu

Uma exposição de Carlos Nogueira na abertura do novo museu

LUCILIA MONTEIRO

Gostam de trabalhar em conjunto, mas não são um escritório de parceria. Aceitam ocasionalmente estas encomendas. O resultado final, prossegue Siza, “é o trabalho de um outro, porque é o resultado do entendimento entre dois arquitetos com uma boa relação”. Não há problemas de “predominância de egos”, sublinha.

O desenvolvimento do trabalho é feito com a maior das naturalidades e o resultado final, como pode ver-se agora em Santo Tirso, é uma proposta arquitetónica cuja harmonia resulta da confluência de diferentes linguagens.

Muito satisfeito com o resultado final, Álvaro Siza destaca o apoio total da Câmara Municipal, bem como do IGESPAR, o que permitiu uma conclusão rápida, sem percalços de um edifício “cuja execução é boa, o que nem sempre acontece”.
Construído de raiz, o Museu de Escultura Contemporânea articula-se com o Museu Abade Pedrosa e insere-se no conjunto patrimonial do qual faz parte, ainda, o Mosteiro de S. Bento.

Numa cidade que nas duas últimas décadas tem ocupado um espaço central na produção de escultura em Portugal, ao ponto de ter acumulado um dos mais originais e valiosos museus de escultura ao ar livre existentes em todo o mundo, Stº Tirso tem agora um edifício para acolher exposições temporárias e outras atividades culturais ou conferências.

Sala de exposição permanente no Museu Abade Pedrosa

Sala de exposição permanente no Museu Abade Pedrosa

LUCILIA MONTEIRO

A inauguração faz-se com “Casa Comprida com Luz e Outras Construções”, de Carlos Nogueira. A escolha, explica Álvaro Moreira, diretor do Museu, resulta “da natureza da obra e da sua muito significativa proximidade à arquitetura”. Concebida para aquele novo espaço, a exposição, com o título escolhido, diz Nogueira, “funciona como uma espécie de metáfora que se pretende incorporar no discurso do museu para que isto seja uma casa luminosa”.

A dificuldade maior deste projeto estava em introduzir um corpo novo ligado ao antigo Museu Abade Pedrosa. Era necessário um novo acesso e ter em conta a existência, em frente, de um jardim que dá para a cota superior da cidade. Havia ainda uma capela, vinda de uma quinta e que ali estava isolada. Os arquitetos optaram por construir um corpo retangular e criaram um vértice de ligação ao convento. A implantação, refere Siza, “foi feita cuidando de incluir na composição a capela, que estava perdida no terreno”.

O arquiteto lamenta não haver um tratamento global do antigo convento, “uma bela peça de arquitetura”. Também ali ocorreu um restauro significativo, com uma solução belíssima para a galeria. Há uma sequência de seis salas que se abrem umas para as outras e criam um efeito de transparência. Nesta zona, com recurso a vídeos no corredor e objetos expostos nas longas vitrinas no correr das salas, é criado um discurso cronológico desde a pré-história até a contemporaneidade.

Escultura de Carlos Nogueira

Escultura de Carlos Nogueira

LUCILIA MONTEIRO

Feita a opção de evitar os suportes informáticos pesados, há um roteiro a acompanhar a visita com caracterização dos materiais expostos.

No museu de escultura, o programa incluía um átrio, uma escada para um piso inferior, onde se desenvolve o espaço expositivo e salas de apoio. Há um bar, uma zona de entrada comum aos dois museus, ambos de acesso livre, e uma cave para arquivos.

Estão já programadas as próximas exposições, sempre concebidas a pensar naquele específico espaço. A próxima será do valenciano Miguel Navarro e seguir-se-á uma coletiva dos 14 escultores portugueses que integram a coleção do Museu de Escultura. Cada exposição durará, em média, três meses.

Álvaro Moreira chama a atenção para outras áreas do novo edifício, como a dos serviços educativos, o centro de documentação, onde será disponibilizada a mais completa informação sobre todas as esculturas e todos os escultores representados em Santo Tirso.