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A literatura viajou para Matosinhos

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Mais uma vez, o festival Lev levou à cidade nortenha autores portugueses e estrangeiros, para discussões onde se falou de insónia, da Europa e das diferentes formas de viajar

Luís M. Faria

Jornalista

Decididamente, os festivais literários estão na moda. O de Matosinhos, que terminou há dias, chama-se LeV – Literatura em Viagem. É adequado, tratando-se de uma cidade que há muito vê partir e chegar navios. Este ano, o mote era “O Rapto da Europa”, e foi exatamente um percurso europeu que traçou o historiador e ex-deputado Pacheco Pereira na conferência inaugural, na última sexta-feira à noite. A viagem foi mediada intelectualmente pela sua biblioteca pessoal, tida como a maior no nosso país, com uns cinco quilómetros de estantes (todas as semanas cresce metro e meio, parece).

Pacheco Pereira

Pacheco Pereira

Luís Barra

Além da dimensão, a biblioteca é notável por conter livros de três gerações: a do avô, a do pai e a do próprio Pacheco Pereira. Este, não levando literalmente consigo os livros, tinha muita e afetuosa informação sobre eles. Uma viagem pela História assim realizada fazia implicitamente a crítica ao desprezo atual pelas disciplinas humanísticas, na escola e não só. Ao longo das duas horas que durou a conferência, o público que enchia o salão da Câmara Municipal de Matosinhos manteve-se no lugar, mesmo sabendo que lá fora corria a Festa do Senhor de Matosinhos, um evento bastante animado em vertentes extraliterárias que também deviam apetecer a parte da assistência. Admitindo que não era apenas cerimónia, alguma coisa o orador devia estar a dizer que lhes agradava.

Sábado de manhã havia uma visita à Igreja de Matosinhos e ao Mosteiro de Leça do Balio ou, em alternativa, um minisseminário destinado a pessoas que têm originais para publicar e não sabem como fazê-lo. No primeiro debate formal do LeV, a seguir ao almoço, o jornalista Paulo Moura e o viajante profissional Gonçalo Cadilhe discutiram se ainda é importante ir aos lugares, numa época em que podemos vê-los em direto na internet e encontrar todo o tipo de informação sobre eles; às vezes, mais do que aquela a que se tem acesso no próprio lugar.

Moura defendeu que continua a ser importante viajar, e que para aprender a fazê-lo é essencial a experiência. No seu caso, a abordagem é um pouco diferente. "Tenho uma atitude perante a viagem própria do repórter. Uma atitude ativa. Não apenas para ver coisas mas para investigar". Falou do seu projeto de uma volta ao mundo motivada pelos acontecimentos: "Ir a sítios onde estão a acontecer coisas, políticas ou outras, e fazer reportagem".

A época ideal para viajar

Cadilhe, que já deu a volta ao mundo (três vezes, cada uma com um enfoque diferente: sem aviões, para surf…), explicou que hoje é a melhor altura de sempre para viajar. "Anteriormente, havia um tal fosso cultural, de comunicação, que podíamos perguntar em que medida as pessoas que viajavam ficavam a compreender o que tinham visto. Marco Polo, que esteve 17 anos na China, terá tido tempo. Mas quem viajava, por exemplo, no século XIX, um mês aqui um mês ali... Houve de facto um período em que viajar era mais intuir, imaginar o que se passava na cabeça do outro".

Atualmente, com a divulgação do inglês como língua franca, essa dificuldade reduziu-se. E pode acontecer que com o tempo o outro acabe a pensar da mesma maneira que nós, mas por enquanto, segundo Cadilhe, ainda existe uma diferença relevante, e isso faz com que viajar seja especialmente compensador hoje em dia.

Veio depois uma sessão com Teolinda Gersão e Patrícia Reis (a qual, entre outros assuntos, falou das suas atividades como ghost writer) e uma conversa com Filipe Mourato Gomes sobre o Irão de hoje. Já ao fim da tarde, o escritor italiano Claudio Magris, autor de um livro chave sobre a Europa ("Danúbio") e de outros mais recentes que também se encontram traduzidos em Portugal (o último, "Uma Causa Improcedente", é sobre o único campo de extermínio nazi que houve em Itália, mais precisamente em Trieste, cidade natal do escritor) deu aquilo a que os festivais chamam 'entrevista de vida'. Na verdade, e sobretudo com autores de forte pendor ensaístico como Magris, o que está em causa é uma pequena conferência em que umas poucas perguntas servem de deixas para o autor se espraiar em exposições que podem facilmente atingir dez, quinze minutos de duração, sem que o público se canse.

Magris falou da situação atual na Áustria, da Europa, de vários livros seus (incluindo o romance cuja história se ocupa de um cosmonauta russo que fica 'preso' no espaço quando a URSS desaparece)... Descreveu-se como um "patriota europeu", embora reconhecendo que neste momento se encontra bastante longe um cenário em que os cidadãos da Europa poderão votar num presidente do Estado europeu. Lamentou que a política neste momento se encontre bloqueada, mas reiterou a sua fé na mudança, que ao fim e ao cabo é tão legítima como a fé, muito mais generalizada, de que as coisas irão ficar na mesma durante gerações. O Muro de Berlim, cuja longevidade alguém assegurava a Magris pouco antes de cair, é um exemplo clássico, mas a vida oferece uma abundância de outros.

“O Livro do Desassossego” ajuda a adormecer?

No dia seguinte, houve um debate em que se perguntava se os livros podem salvar o mundo. A britânica Ella Berthoud, uma estudiosa de literatura que enveredou pela biblioterapia e publicou recentemente um livro que emparelha livros concretos e problemas muito diversos (“Remédios Literários”, ed. Quetzal) respondeu: “Sem dúvida. Temos andado a salvar as pessoas uma a uma ao longo dos últimos oito anos. Espalhar a alegria da literatura. Da infância aos noventas”. Colocada perante a mesma questão, Clara Ferreira Alves foi mais matizada: “Os livros podem fazer tudo o que quiserem. Podem amaldiçoar o mundo ou salvá-lo. A mim salvaram-me mais do que me amaldiçoaram. Mas há livros maus. E conhecemos alguns, não? Felizmente há mais livros bons do que maus”

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

António Pedro Ferreira

O moderador Hélder Gomes pediu a Berthoud que explicasse o que é afinal a biblioterapia e como funciona. Eis o sumo da explicação: “A biblioterapia é a arte de prescrever livros. Quando trabalhamos com clientes, vemo-los individualmente. Apuramos as suas preferências, os problemas que eles têm no momento. Passamos uma hora a falar com eles e, no fim, recomendamos um livro que será o ideal para eles lerem naquele momento”. Além das virtudes terapêuticas, Berthoud elogiou o potencial social da leitura: “Dantes andava-se com livros, era uma ótima forma de começar uma conversa. Agora com o Kindle é difícil. Mas ainda se podem partilhar livros. Pela nossa parte, incentivamos casais a ler alto, descobrir juntos algo de excitante. Acreditamos no poder dos livros para juntar as pessoas”.

Tudo muito bem. Mas quando Gomes lembrou que Berthoud recomenda “O Livro do Desassossego” para tratar insónias – “está escrito como uma espécie de onda cerebral, com frases desconexas, etc., um pouco como um estado de sonho, e pode ajudar-nos a aproximar desse estado” – Clara Ferreira Alves discordou. “Nunca o li à noite. É um livro muito peculiar. Requer muita atenção, concentração. Faz pensar. Faz-nos examinar o nosso papel na vida. Muito poético. Não tenho a certeza… Livros importantes, leio durante o dia”.

“Pessoa vivia uma boa parte da sua vida durante a noite”, continuou. “Há uma vida de todos os dias que tem de ser vivida, e ele não é o melhor personagem para o fazer. Refugia-se no daydream… ‘O Livro do Desassossego‘ é sobre um empregado de escritório que tem uma vida muito monótona mas olha para fora, para a essência das coisas. Que ele pudesse converter uma vida tão normal, tão sem acontecimentos, tão miserável, de certa forma, naquela cavalgada de símbolos e movimentos… Isto é um livro totalmente oposto à maior parte dos poemas, de Pessoa ou de outros. Conhecemo-lo tarde, e talvez não o compreendamos muito bem. É diferente dos outros livros de Pessoa. Não sabemos bem o que é. Não é um romance, não são poemas. É o poema épico de uma vida não vivida”.

Em conclusão (e isto é a grande objeção à biblioterapia, sem dúvida), “talvez as pessoas sintam melancolia, ou o oposto. Talvez fiquem iluminadas. As pessoas reagem de formas muito diferentes à palavra escrita”, conclui Clara Ferreira Alves. Ainda não é desta que a neura genial de Pessoa recebe certificação oficiosa.