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A doce Amy que nada disto queria

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O documento biográfico que estreia esta terça-feira em televisão é a manta de uma vida retalhada pela ascensão, pelo sucesso e pela queda. Asif Kapadia tece-lhe a homenagem em “Amy”, para lá de todas as polémicas

Pujante como a sua curta carreira, trágico como a sua vida. Todos sabem como terminou a história de Amy Winehouse, mas os caminhos que percorreu até ao seu derradeiro dia estavam por traçar.

Asif Kapadia aceitou o desafio da Universal, discográfica da cantora britânica, e pegou em material de arquivo inédito para um documentário biográfico apresentado pela primeira vez em Cannes. Esta terça-feira, quase cinco anos volvidos desde a sua morte, o filme que no ano passado chegou aos cinemas estreia em televisão.

Podia ser um filme triste mas não é. “Amy”, nome próprio e título que não podia encaixar melhor no documento, é um hino a uma vida entretanto perdida. “Eu não sou uma rapariga a tentar ser uma estrela”, diz-nos Amy com a sua inconfundível voz. O testemunho é poderoso e feito a várias vozes. Contrariamente ao que acontece em grande parte das películas do género, não é feito no tempo presente a recriar um passado desconhecido. É, isso sim, um olhar de quem a conheceu sobre o que realmente se passou. Não se cinge a isso. São imagens da sua vida profissional e privada agora reveladas.

Vítima de uma era mediática, com os media a explorarem até ao tutano todos os pormenores da sua vida, Amy Winehouse é mostrada em todo o seu esplendor, sem artifícios. Claro que os problemas da artista não começavam e terminavam na exposição pública. Eram um catalisador de uma vida marcada pela dor – que tantas vezes expunha na sua música mas que, por incrível que pareça, passou ao lado de quase todos enquanto esta se autodestruía.

Primeiro foi a separação dos pais, depois foram as mudanças de casa e de modo de vida. De Southgate para Camden (Londres), onde tudo havia de se precipitar, e daí para o mundo. O amor a Blake Fielder-Civil (acusado de a levar para o mundo das drogas duras) e o sucesso à escala global, com o qual não sabia lidar, deram o empurrão que faltava. Ainda hoje todos cantamos “They tried to make me go to rehab / I said, no, no, no” sem pensar no significado das suas palavras. Muitas eram gritos de ajuda quando nem ela tinha forças para se erguer.

Cantou em Portugal em 2008, num Rock in Rio sedento por vê-la em terras lusas pela primeira vez. Chegou aos tombos, vítima daquilo que a alegrava, cantou (o que conseguiu) e deixou a sua marca. Haveria de voltar em 2011, a 4 de agosto, para o Sudoeste. Cancelou o concerto e não sobreviveu até à data do mesmo. Morreu poucos dias antes, a 23 de julho, vítima de uma intoxicação alcoólica depois de uma dura batalha que havia de perder. A droga tomou conta de si e levou-a. Tinha 27 anos (como Jim Morrison, Janis Joplin ou Kurt Cobain). Só queria dar uso à sua voz. Amy não queria metade do que lhe aconteceu.

“Amy” estreia esta noite, às 22h, no canal TVCine 2, inserido na programação Documentários: Vozes Singulares. Nas próximas duas semanas são mostrados “Vontade de Vencer”, de André Banza e sobre Anselmo Ralph, e “Carlos do Carmo: Um Homem no Mundo”, de Ivan Dias.