Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

José Eduardo Agualusa: “O tradutor é o nosso melhor leitor”

  • 333

O escritor angolano faz parte da shortlist do Man Booker International Prize, cujo vencedor será anunciado na noite desta segunda-feira, em Londres

antonio pedro ferreira

Como é que reagiu ao facto de ser escolhido para a longlist de um dos mais importantes prémios literários do mundo, na companhia de pesos pesados como Orhan Pamuk e Kenzaburo Oe, ambos vencedores do Nobel, ou da italiana Elena Ferrante?
Fiquei muito feliz, evidentemente. Foi uma grande alegria. Mas a maior honra, para mim, é ficar ao lado de Raduan Nassar, o outro representante lusófono. Apesar de ter pouca obra publicada, ele é um dos maiores escritores brasileiros. Os seus livros são extraordinários. E este em particular, o que foi selecionado (“Um Copo de Cólera”), marcou-me muito quando o li. A verdadeira surpresa foi encontrá-lo na lista, porque ignorava que ele ainda não tinha sido traduzido para inglês. Pelos vistos, só foi agora.

Que impacto é que esta nomeação pode ter na sua carreira internacional?
Pode ter um impacto enorme. Pode mudar tudo. Eu já tive a experiência anterior do Independent Foreign Fiction Prize [atribuído, em 2007, à tradução de “O Vendedor de Passados”]. Depois do prémio, o livro vendeu bem no mercado inglês, o que é sempre difícil, e até foi reeditado, o que é raríssimo. Mas sobretudo deu um grande impulso às traduções e compras de direitos para outras línguas. É de longe o meu livro mais internacionalizado, com umas 25 ou 26 traduções.

A partir deste ano, o Man Booker International, que era bianual e distinguia o conjunto da obra de um autor, passa a ser anual e um prémio para livros traduzidos, fundindo-se justamente com o Independent Prize. Acredita que a marca Booker aumenta o impacto deste galardão?
Sem dúvida nenhuma. A marca Booker é fortíssima, e não apenas nos mercados anglo-saxónicos. Se excluirmos o Nobel, não deve existir nenhum outro prémio com um impacto tão grande.

O prémio final, no valor de 50 mil libras (64 mil euros), será dividido em partes iguais entre o escritor e o tradutor. Parece-lhe justo?
Parece-me justíssimo. Eu tenho a sorte de trabalhar com o Daniel Hahn, que é um magnífico tradutor. E desde o princípio, porque a primeira tradução dele foi de um livro meu, o “Nação Crioula”. Depois, traduziu outros seis, entre os quais “O Vendedor de Passados” e agora o “Teoria Geral do Esquecimento”, que foi o nomeado para a longlist. Percebi logo que era um tradutor muito bom com as primeiras palavras que transpôs para inglês e com a lista de dúvidas que me enviou. Hoje somos amigos. Tenho absoluta confiança nas suas capacidades. E é muito interessante ver como ele resolve os problemas e ultrapassa os obstáculos que vão surgindo. Eu acho mesmo que o tradutor é o nosso melhor leitor. O romancista comete erros de que só se apercebe quando o tradutor os aponta. São erros que por vezes escaparam até ao editor, até aos revisores. Para ficarmos descansados, só devíamos publicar em português depois de publicar noutras línguas, depois de passar pelo crivo do tradutor.

De certa maneira, porque tem de reescrever a totalidade do livro, palavra a palavra, é ele o único que mantém com o texto uma intimidade semelhante à do escritor.
Exatamente. É mesmo isso. Aliás, quando o Daniel e outros tradutores muito bons, como o holandês e o alemão, apontam os tais erros, eu emendo logo que posso na versão original. Ou seja, as edições seguintes, em português, vão sendo corrigidas pelos meus tradutores.

Em “Teoria Geral do Esquecimento” há uma mulher que vive emparedada num prédio de Luanda, durante quase 30 anos, enquanto lá fora o país se torna independente e atravessa todas as grandes transformações das últimas décadas. O livro é um retrato de Angola?
Sim, mas é mais do que isso. Há nele qualquer coisa de universal. Depois de publicar o romance, comecei a receber histórias de outras pessoas que se isolam nas suas casas, um pouco por todo o mundo. Acho que é um livro sobre o medo do outro. E sobre o absurdo desse medo. Acaba por ser uma metáfora do próprio colonialismo. A protagonista é uma portuguesa que fica para trás no momento da independência e se fecha sobre si mesma. No final, só se salva quando se entrega ao outro e se apercebe do absurdo em que viveu durante aqueles anos todos.

Depois da nomeação, já recebeu ecos de Angola?
Da parte dos angolanos, sim. Da parte das autoridades oficiais, não.

Nada que o surpreenda.
Já estava à espera. Ao longo do tempo, tem sido sempre assim.

Nunca escondeu a sua oposição ativa ao regime angolano, nomeadamente no caso recente da prisão e greve de fome de Luaty Beirão. Ainda assim, uma nomeação puramente literária não devia ficar isenta de leituras políticas?
Devia. Mas a situação em Angola é tão trágica que muitas vezes até os organismos que deveriam promover a cultura angolana atuam no sentido inverso da sua função. Já testemunhei isso em várias ocasiões, não só comigo mas com outros autores. Posso contar um caso concreto. Quando o Presidente Lula da Silva me atribuiu uma medalha de mérito cultural, a anterior ministra da Cultura de Angola, Rosa Cruz e Silva, fez um protesto junto do Governo brasileiro. Eu soube disso porque recebi um telefonema de uma rádio angolana a pedir para comentar a situação. Eu respondi que não acreditava, porque se trataria de um ato antiangolano. Mas aconteceu: em vez de se alegrar com o prémio, a ministra da Cultura fez um protesto. Isto dá bem a medida de como funcionam as coisas em Angola.

Já que falamos de Angola, acredita que José Eduardo dos Santos vai mesmo retirar-se em 2018?
Essa declaração foi muito estranha, porque vai haver eleições em 2017 e o Presidente José Eduardo dos Santos, no mesmo congresso em que anunciou essa retirada, foi eleito de novo como presidente do partido. E a constituição prevê que o Presidente será o líder do partido que ganhar as eleições. É como se Marcelo Rebelo de Sousa tivesse anunciado em 2015 que iria abandonar a política ativa em 2016, depois das presidenciais. Não compreendo essa declaração. Não faz sentido. Além de que o Presidente já anunciou várias vezes a sua saída e depois ficou. O lógico seria anunciar a sua retirada agora. Retirada mesmo. Já nem se candidataria sequer. O ideal é que preparasse a saída em contexto democrático. E preparasse o país para uma democracia verdadeira.

Tem esperança de que isso possa vir a acontecer?
Gostava de ter esperança. Mas não é esse o caminho que está a ser tomado, infelizmente.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 18 março 2016

  • Karl Ove Knausgård: “Uso-me como matéria-prima”

    Nos Estados Unidos é uma estrela pop. Na Escandinávia devoraram-no. Karl Ove Knausgård, um dos finalistas do Booker Prize International que esta noite será conhecido, tornou-se o herói da sua própria vida, roubando a Hitler o título “Mein Kampf”, a Proust a empreitada. Em seis volumes e milhares de páginas de confissões, esvaziou-se na memória. No final, sobre a sua vida e a da sua família, foi pouco o que este norueguês deixou por dizer e poucas são as hipóteses de escaparmos à sua escrita. Recorde ou releia a entrevista que deu há um ano à Revista E do Expresso

  • Elena Ferrante, a voz que nos persegue

    Elena Ferrante, finalista do Man Booker International, cujo vencedor será anunciado esta segunda-feira, é muito menos conhecida do que os seus livros. Ancorada numa escrita clara, confessional, e numa legião de leitores que compulsivamente fazem passar a sua obra de mão em mão, esta contadora de histórias, de origem italiana e identidade desconhecida, já se tornou uma obsessão, também em Portugal