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Quem foi (realmente) Vasco da Gama?

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Marcos Borga

João Morgado lança hoje um romance biográfico sobre Vasco da Gama. "Índias" pretende mostrar o lado humano de um "herói imperfeito". A polémica é garantida.

Depois de escrever um livro sobre Pedro Álvares Cabral, João Morgado dedicou-se ao seu "arquirrival", Vasco da Gama. Para o atual chefe de gabinete do Presidente da Câmara de Belmonte, a terra onde nasceu Cabral, este é o oitavo livro desde 2010 - e o segundo na temática dos Descobrimentos. Vencedor de vários prémios literários, o ex-jornalista de 51 anos descreve Vasco da Gama como um homem cruel, que semeou atrocidades na Índia, e que chocou o reino com os atos lá praticados. Defende que era odiado por muitos – Igreja, nobreza, Ordem da Cruz de Cristo... -, mas foi, contudo, endeusado por Luís de Camões n' "Os Lusíadas" e tornado Capitão-Mor de todas as Armadas pelo Rei D. Manuel I. Essa ligação é um dos aspetos desenvolvidos no livro, além do retrato da personalidade, das relações e ódios de Gama. "Quis mostrar o lado humano de Vasco da Gama", explica João Morgado -, o "herói imperfeito". Que "pilhou barcos, assaltou portos, avassalou povos e sobretudo, matou e torturou imensa gente", conta. "Por que não se fala nestas crueldades? Porque Gama é o grande herói de Portugal – e os heróis são 'perfeitos'".

Em "Índias", Vasco da Gama é descrito como "um homem ambicioso, que não olhava a meios para atingir os seus fins. Era grosseiro, rude, violento. Filho ilegítimo de baixa nobreza, tinha um problema de inferioridade e por isso queria a todo o custo atingir fortuna e estatuto social - que conseguiu graças à cumplicidade com o Rei D. Manuel I, que lhe deu fortuna e títulos". Foi a primeira vez em Portugal que alguém foi nomeado Conde sem ter sangue nobre, afiança João Morgado. O autor tem a sua tese acerca da estreiteza da relação entre Vasco da Gama e D. Manuel I: "Tinham a mesma idade, pertenciam à mesma geração de cavaleiros e apresentavam uma personalidade idêntica: eram ambiciosos, ávidos de poder, de riquezas e de estatuto". Além disso, eram ambos "venturosos" – o cognome do Rei era aliás o "Bem-Aventurado". "O Rei D. Manuel chegara a rei não por sucessão direta, mas por a sua irmã, casada com D. João II, ter conseguido que fosse nomeado herdeiro após a morte do filho do rei, herdeiro legítimo do trono, num acidente a cavalo". Teve ainda a sorte de levar a cabo o que D. João II, seu antecessor, planeou para os Descobrimentos. O Reinado de D. Manuel foi uma era marcada pelas riquezas do Oriente e pelo domínio de Portugal no mundo.

"D. Manuel gostava de Vasco da Gama porque este era prático e lhe apresentava resultados", defende João Morgado. "Apesar de ter tido de o afastar duas vezes devido aos seus excessos – Vasco da Gama era figura contestada pela Igreja, pela Ordem da Cruz de Cristo, por nobres e por mercadores -, a verdade é que o Rei lhe deu mordomias que não deu a mais ninguém..."

Ex-jornalista, o atual chefe de gabinete do presidente da Câmara de Belmonte lança este domingo o seu oitavo livro, uma biografia romanceada de Vasco da Gama

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Marcos Borga

Gama e Cabral, o "Ronaldo-Messi" da altura

Os Descobrimentos – e a descoberta da Índia e do Brasil em particular – guardam vários segredos, entre eles, uma rivalidade ao jeito "Ronaldo-Messi" do século XVI. João Morgado defende que Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, os dois grandes descobridores que marcaram a História de Portugal, eram arquirrivais. E que em boa parte, essa rivalidade originava nas profundas diferenças entre os dois homens. O autor elabora: enquanto Pedro Álvares Cabral era um "nobre de linhagem", Vasco da Gama era "filho ilegítimo e nobre de segunda linha". Enquanto Cabral era "um homem instruído na corte, um humanista", Gama não tinha estudos, e destacou-se "a combater piratas no Atlântico e a transportar piratas e degredados". Álvares Cabral era "um homem muito alto e forte, carismático", Vasco da Gama "era tido como violento, temido pelos seus homens, e não querido". Cabral era "militar e cavaleiro da Ordem Militar e Religiosa da Cruz de Cristo", que financiou a expedição de 1500 ao Brasil, enquanto Vasco da Gama era da Ordem de Santiago. Finalmente, Cabral "era um homem religioso", e Vasco da Gama "desregrado de costumes e mal visto pela Igreja, que tinha influência enorme junto do Rei". Quase tudo os distinguia.

Mas recuemos um pouco e procuremos na História outras explicações para esta inimizade. Em 1497, D. Manuel I retoma os Descobrimentos e convida Paulo da Gama, irmão mais velho de Vasco da Gama, para liderar a expedição até à Índia. Doente, Paulo declina em favor do irmão Vasco, mas acompanha-o na viagem. No regresso, Paulo morre, tomando para si boa parte da glória. Em Portugal, D. Manuel nomeia Vasco da Gama Capitão dos mares da Índia, futuro capitão de todas as armadas. Logo na primeira Armada, que levava 13 barcos, a escolha de Vasco da Gama foi amplamente contestada, por considerarem que este não tinha perfil de diplomata para garantir o comércio nas Índias.

É então que a escolha recai sobre Pero Álvares Cabral, em tudo diferente de Gama. "O herói nacional do momento não lhe perdoou a desfeita de ficar em terra e perder a glória para um homem que nada percebia de mar", defende Morgado. "A Cabral nem tudo correu bem. Perdeu metade da Armada. Mas conseguiu nas Indias alguns acordos comerciais (ao contrário de Gama) e descobriu o Brasil. D. Manuel torna a dar-lhe o comando de nova Armada, com 20 homens. E Gama fica de novo em terra".

Mais tarde, Vasco da Gama consegue alterar o ponto de vista do rei quanto à estratégia a seguir a Oriente. Em vez de irem como comerciantes, deveriam ir como militares, impondo pela força e conquistando povos, sugere. D. Manuel aceitou a proposta de Gama. Dividiu a Armada em duas: a parte comercial ficaria a cargo de Cabral, a parte militar a cargo de Vicente Sodré, tio de Vasco da Gama. Cabral não aceitou esta decisão - declinou o posto de Capitão e virou costas ao Rei. Vasco da Gama parte assim para a Índia, com os seus familiares, "para vingar todas as humilhações a que fora sujeito na primeira viagem. Com um poderio bélico imenso, matou imensa gente". "Ainda hoje, passados 500 anos, não se pode falar de Gama na Índia - é a personificação do demónio", defende o autor. Mas seria ali na Índia, longe da Pátria, que acabaria por morrer, em 1524.

A crueldade que Vasco da Gama exerceu na Índia contrasta ainda mais com as atitudes de tolerância e humanidade de Cabral no Brasil, enunciadas por Pêro Vaz de Caminha na Carta ao Rei D. Manuel, que relata a descoberta do Novo Mundo. João Morgado acredita que Cabral levava ordens da Ordem da Cruz de Cristo, razão pela qual pregou uma cruz em Vera Cruz, debaixo da qual celebrou uma missa, e não os tradicionais padrões que todos os descobridores portugueses plantavam em territórios conquistados. A motivação seria a busca de novos territórios para evangelizar, e não tanto riquezas para pilhar ou novas rotas comerciais para estabelecer.

Apesar de tecer um perfil duro de Vasco da Gama, a intenção de João Morgado não é julgar o homem – pois tal não é possível a 500 anos de distância. Mas sim humanizá-lo, garante. "Índias" aí está para ajudar o leitor a entender.