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Os esquecidos

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PÓS-PUNK. Viny Reilly (à esquerda) e Bruce Mitchell, a “alma” dos Durutti Column

d.r.

Reinaldo Serrano

Nos primeiros dias de janeiro de 2013, o mundo da música - pelo menos daquela mais alternativa ou independente - sentiu um misto de choque e surpresa quando, através das redes sociais, um sobrinho de Viny Reilly lançava um apelo desesperado: o tio, um dos mais originais guitarristas e compositores da era pós-punk do Reino Unido, enfrentava sérias dificuldades financeiras, mal conseguindo pecúnio suficiente para as necessidades básicas, nomeadamente para alimentação. O apelo rapidamente se transformou num impressionante movimento de solidariedade e a questão terá sido resolvida a contento. Quer isto dizer que restaram, para a posteridade, o choque e a surpresa acima mencionados.

A notícia que então circulou contrastava em absoluto com o trabalho desenvolvido por vários anos pela dupla Viny Reilly/Bruce Mitchell que, com uma ou outra colaborações externas de maior ou menor monta (Dave Rowbotham, Chris Joyce, Phil Rainford e Tony Bowers), constituíam o núcleo duro de uma das bandas mais extraordinárias emergidas nos anos 80 no panorama da música europeia, nomeadamente da Bretanha industrial e, mais concretamente ainda, de Manchester: os Durutti Column.

O nome foram obviamente buscá-lo à mítica Coluna Durruti que, nos idos de 1936, teve um papel fulcral na Guerra Civil espanhola. Criada na capital da Catalunha, batizada com o apelido do revolucionário e sindicalista Buenaventura, chegou a ter perto de 6 mil elementos de forte componente anarquista, que combateram ao lado das forças republicanas e que rapidamente se transformaram num dos movimentos mais populares na luta contra a ditadura espanhola.

Porventura fascinados com a história que a História reservou àquele movimento armado, os Durutti Column chamaram a si, pelo menos o legado de revolucionários, que aplicaram com sensibilidade e bom senso na história... da música. Os primeiros acordes foram dados ainda em 1978, e desde cedo se percebeu que algo de novo e absolutamente original saía do talento de Viny Reilly; basta pensar quão avançado era, à época, o conceito de "chill-out" que hoje cativa (com alguns excessos, diga-se) plateias consideradas... modernas: sem o saber, os Durutti Column davam os primeiros passos num género que não apenas não se deixou influenciar pelo "disco" e demais movimentos que preenchiam as tabelas do que se chama "trending", como criavam um conceito único no panorama musical.

FEITO CÁ. “Amigos em Portugal”, uma das raridades da discografia dos Durutti Column

FEITO CÁ. “Amigos em Portugal”, uma das raridades da discografia dos Durutti Column

Melhor prova que as palavras é a música e, felizmente, durante algum tempo, ela figurou nos nossos escaparates e, direta ou indiretamente (por encomenda), é possível adquirir a vasta e profícua obra dos Durutti Column entre nós. A construção da frase não é inocente: é que a banda atuou por diversas vezes cá no burgo (nomeadamente no Primavera Sound em 2007), e uma das raridades na sua discografia chama-se justamente... "Amigos em Portugal". Gravado nos estúdios da Valentim de Carvalho, o álbum é, à semelhança de todos os outros, uma delícia para os ouvidos; os mesmos que podem e devem escutar temas como "Lisboa", "Estoril à Noite", "Saudade" ou "Lies of Mercy". Sempre com a prestação de Bruce Mitchell, nome decisivo na fundação da editora Factory Records, e a quem o "The Guardian" apelidou de "Mr. Manchester", Viny Reilly e os Durutti Column brindaram o público e a crítica com inúmeras pérolas que parecem injusta e injustificadamente esquecidas.

Álbuns como "Circuses & Bread" (onde se destaca, muito provavelmente de entre todos os temas da banda, o sublime "Tomorrow"), "Lips That Would Kiss", "Obbey The Time" ou o genial "The Return of the Durutti Column", entre muitos outros (entre todos os outros) são exemplo de inequívoca consistência e de um não-alinhamento que, curiosamente, nada parece ter de obstinação ou de um assumido remar contra a corrente, mas antes se assume como um "statement" tão suave quanto o são as melodias e o prodigioso som que emana da guitarra de Viny Reilly. Que ninguém espere uma interpretação vocal de génio mas, à semelhança de Tom Jobim, muito provavelmente um dos maiores compositores do século XX, é sobretudo o valor instrumental dos Durutti Column que releva de uma vasta obra caída num estranho esquecimento, à semelhança de tantos outros nomes que fizeram história na música, curiosamente num tempo (os anos 80) que é alvo de chacota e zombaria, talvez porque os símbolos dessa década se sobreponham, fruto de uma pouco seletiva exposição mediática, aos conceitos que realmente nela imperaram. Além dos Durutti Column, nomes como os dos australianos The Triffids, da francesa Anne Pigalle, da holandesa Mathilde Santing ou das editoras Crammed Discs (Bélgica) ou 4AD (Reino Unido), merecem renascer nos vários formatos que a tecnologia põe à disposição do potencial ouvinte. O mesmo que, estou certo, irá deliciar-se com os Durutti Column e com o talento de Viny Reilly, de quem o lendário Ian Curtis, dos Joy Division, era fã, à semelhança de John Frusciante: o antigo guitarrista dos Red Hot Chili Peppers considera Reilly "o maior guitarrista do mundo". É preciso dizer mais? Seguramente que não. É preciso ouvir mais? Seguramente que sim.