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O mosaico da Primavera Árabe

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CLIMA DE GUERRA. Em 2011, a praça de Tharir foi símbolo de revolução pela democracia. Desde então, transformou-se em campo de batalha, mostrando a outra face da Primavera Árabe, que não conseguiu impor os seus ideais

REUTERS/Amr Abdallah Dalsh

A primeira obra de jornalismo literário sobre a Primavera Árabe e os acontecimentos que se seguiram chega ao mercado editorial. “A Rage for Order” tem assinatura de Robert F. Worth, antigo correspondente do “The New York Times”

Começamos pelo fim, mas sem levantar demasiado o véu. No epílogo de “A Rage of Order: The Middle East in Turmoil, from Tahrir Square to ISIS”, um livro em formato de mosaico de histórias pessoais que se cruzam em nome da Primavera Árabe, procura-se o rasto das personagens que Robert F. Worth, ex-correspondente do “The New York Times”, entrevistou. Incluíndo o de Ahmed Darrawi, um dos líderes do movimento juvenil que foi crucial no derrube do regime de Mubarak, no Egito. Liderou a revolta na Praça Tahrir, concorreu ao Parlamento e perdeu, para depois se lhe perder o rasto. Worth, que viveu os acontecimentos de Tahrir na primeira pessoa, conversou e acompanhou longamente este jovem. No epílogo, o jornalista conta que, à medida que a polarização política tomou conta da sociedade egípcia e tornou rivais aqueles que, anteriormente, foram camaradas em Tahrir, Darrawi foi perdendo a esperança. Entrou em depressão e desapareceu, sem dar conta do seu paradeiro à família. Rumou à Síria e, mais tarde, aderiu ao Estado Islâmico (Daesh). Acabou por morrer num ataque suicida.

A história do jovem egípcio Ahmed Darrawi é uma de várias a que Robert F. Worth dá voz no seu livro, e que procura entender o que aconteceu aos desígnios originais da Primavera Árabe, a revolução que tomou conta das ruas do Egito, Síria, Tunísia, Iémen e Líbia contra os seus regimes autoritários, as economias decadentes, as violações dos direitos humanos, os sistemas sociais colapsados. A primeira parte, derrubar estes regimes, foi a mais fácil. A ausência de estruturas que substituíssem as anteriores, ainda que decrépitas, lançou o mundo árabe na escuridão da guerra civil, da morte, das lutas fratricidas, do desespero e da desesperança.

“A Rage for Order” dá conta desta evolução. Acompanha Darrawi, mas também as duas amigas de infância sírias, uma alauita e outra sunita, que começam a dar o seu testemunho logo após a revolta contra o regime de Bashar Al Assad. Mas à medida que a guerra civil escala e toma conta do país, tornam-se nas mais vigorosas inimigas e procuram reescrever, cada uma à sua medida, a história da amizade que as chegou a unir.

Nem todos os intervenientes deste mosaico narrativo são figuras anónimas. Mas são estas, sobretudo, as que mais dão conta da dimensão humana e trágica que, desde 2011, continua a crucificar o mundo árabe, como a história do interrogador líbio que, por uma questão de justiça, decide não torturar o assassino do seu irmão; ou o voluntário do Daesh proveniente do Kuwait que, mais tarde, desertou do movimento; ou ainda o agricultor iemenita que escreve poesia enquanto acontecimentos trágicos acontecem. Mas Worth também acompanha, entre outros, Muhammad Beltagy, islamita moderado que prometia ser uma das grandes esperanças do Egito. Ou os políticos tunisinos Rached Ghannouchi e Beji Caid Essebsi, o atual Presidente da Tunísia.

“A Rage for Order”, na sua narrativa em storytelling, assume-se como a primeira peça de jornalismo literário escrita sobre o tema. E não podia ser melhor. Segundo o “The New York Times”, trata-se de um livro “maravilhosamente escrito, com as palavras de Worth a correrem fácil e graciosamente pelas páginas”, descortinando os eventos que, por agora, académicos, especialistas e políticos ainda não conseguem explicar.

“A Rage of Order: The Middle East in Turmoil”, de Robert F. Worth Farrar, Ed. Straus and Giroux, 272 páginas, €13,30 (preço na Amazon)

“A Rage of Order: The Middle East in Turmoil”, de Robert F. Worth Farrar, Ed. Straus and Giroux, 272 páginas, €13,30 (preço na Amazon)