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A síndrome do leitor vago

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LEV. Decorre este fim de semana na Biblioteca Florbela Espanca, em Matosinhos, o Festival Literatura em Viagem FOTO LUCÍLIA MONTEIRO

LUCÍLIA MONTEIRO

Shakespeare. Cervantes. Basta nomeá-los e, mesmo a quem jamais os tenha lido, não deixará de ocorrer uma frase, uma ideia capaz de traduzir um universo muito particular associado aos dois gigantes da literatura universal. O mundo das letras anda num frenesim a assinalar os quatrocentos anos da morte de ambos, com grandes iniciativas glorificadoras. Criaram leitores. Desencadearam intensas paixões pela leitura. Inovaram. Ousaram romper por onde outros jamais se tinham aventurado. Escreveram obras solares. Únicas. Inimitáveis. Porém, jamais o teriam conseguido se não tivessem sido eles próprios grandes leitores.

Shakespeare, de quem muito se julga saber dentro do pouco que se sabe, suscita uma incógnita nunca resolvida. Tanto quanto até agora se apurou, nunca terá frequentado uma Universidade e, quando muito, terá beneficiado da reconhecida excelência das escolas isabelinas na transmissão do saber linguístico e literário.

Livraria Santiago, no interior de uma igreja, em Óbidos

Livraria Santiago, no interior de uma igreja, em Óbidos

ANA BRÍGIDA

Peter Ackroyd, autor de uma das mais recentes e extensas biografias do bardo inglês, sobre quem, desde 1998 foram publicados pelo menos mais seis igualmente imponentes trabalhos biográficos, define o poeta e autor teatral como uma das mais eficazes esponjas da história da literatura. Absorvia tudo quanto lhe tocava um qualquer dos sentidos. A mestria maior estava na capacidade para trabalhar os conhecimentos adquiridos e vertê-los nas suas obras de uma forma que, parecendo outros, não deixavam de ser os mesmos.

Era, além do mais, um leitor compulsivo, o que em muito terá contribuído para um das riquezas maiores do universo shakespeariano: a rara fortuna de um léxico tantas vezes beneficiário do seu conhecimento de outras línguas. Tudo isto acontece num tempo de sociedades feitas de escassas leituras, fosse pela dificuldade dos meios de impressão e difusão, fosse pelas circunstâncias de uma realidade tão prosaica, quanto decisiva: a esmagadora maioria das pessoas não sabia ler.

Vivemos uma época em tudo diferente. Abundam os meios de difusão. Não se coloca qualquer problema com a impressão, ao ponto de chegar a ser desnecessária, substituída pelos processos digitais. A escola pública na prática acabou com o analfabetismo e, no entanto, quase não há leitores. Nem por isso abranda a torrente de livros publicados. A concentração editorial tem lógicas perversas e alimenta o paradoxo de publicar muito, porque se vende pouco. Daí até a criação de uma banda demasiado larga nos critérios de escolha de livros a editar vai um pequeníssimo passo, dado cada vez com mais frequência.

Livraria do Mercado, Óbidos

Livraria do Mercado, Óbidos

ANA BRÍGIDA

É difícil combater o poder avassalador das editoras dominantes. E, no entanto, vão surgindo ilhas de resistência. Há dias, numa pequena livraria independente de Coimbra - situação rara, no sentido em que hoje quase todas as livrarias aparecem ligadas a um grande grupo editorial cioso de impor afunilamentos na oferta, ao ponto de privilegiarem as suas próprias edições - descobri três pequenas editoras independentes sobre as quais já escutara alguns sussurros. Não mais que isso. Nunca estivera face a uma tão generosa oferta do seu catálogo. Isso terá sido crucial para melhor entender a qualidade das propostas editoriais da E-Primatur (ver AQUI), de Torres Vedras, da Lápis de Memórias (ver AQUI), de Coimbra, ou da lisboeta Sistema Solar (ver AQUI).

Se todas se distinguem pela originalidade das escolhas de autores, ou de obras específicas ostracizadas pelas grandes editoras, uma, a E-Primatur apresenta ainda duas outras características diferenciadoras. Desde logo o excelente grafismo das capas, com soluções belíssimas. Depois, ou principalmente, o inovador processo de edição. A partir do pressuposto de que continuam a faltar nas livrarias portuguesas traduções de obras essenciais da literatura universal, colocam projetos em apreciação pública na sua plataforma digital em média com seis meses de antecedência. Os interessados em viabilizar a edição podem avançar com uma doação, em geral correspondente a 2/3 do posterior custo do livro, com direito a receber em casa um exemplar quando a obra for impressa.

Dinamizada por três profissionais com larga experiência de edição, antes ligados à Cavalo de ferro, às Edições 70 ou ao Grupo Almedina, a E-Primatur aceita sugestões de novos projetos e lançou já obras como “O Salão Vermelho”, de August Strindberg, “Os Mutilados”, de Hermann Ungar, uma preciosidade redescoberta nos anos de 1980, ou “Mário de Sá Carneiro - A Obra essencial”, preparada e organizada por Fernando Pessoa.

Livraria Ulmeiro

Livraria Ulmeiro

mario joão

São livros à procura de leitores, apesar de por vezes andarem escondidos em recantos de pequenas livrarias. Dizia alguém, sobre Shakespeare, ter padecido de uma espécie de síndrome do leitor vago. Devorava os textos dos grandes clássicos e citava muitos começos de livros bíblicos ou de Ovídio. Não obstante, isso não se traduziria numa peregrinação até o final das obras. Pouco importa. Poderia ler vagamente, mas lia, e com muito proveito.

Mesmo com iniciativas tão estimulantes como a deste fim de semana em Matosinhos, com o festival Literatura em Viagem, vive-se hoje um problema diferente. Cada vez mais escasseiam os leitores, mesmo se vagos.

Valdemar Cruz escreve a coluna “Linha do Norte” todas as quintas-feiras no EXPRESSO DIÁRIO