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Gregório Duvivier. “Os golpes hoje em dia não precisam mais de militares”

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PEDRO LOUREIRO

O humorista da "Porta dos Fundos" está em Portugal para uma digressão da peça “Uma Noite da Lua” e para uma participação especial em “Refrigerantes e Canções de Amor”, mas o seu Brasil não o deixa descolar da realidade. A deposição de Dilma e a chegada ao poder de Michel Temer está na ordem do dia

Chegamos ao Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, e Gregório Duviver está sentado de costas, a olhar fixamente para o seu telemóvel, alheado do que o rodeia. A realidade do seu país preocupa-o e a distância não o faz esquecer o Brasil. Quando o deixou, Dilma ainda estava no poder. Quando aterrou em Portugal, era já Michel Temer quem controlava os destinos de 200 milhões de habitantes, a partir de Brasília. Já era esperado que tal acontecesse, mas o humorista da "Porta dos Fundos" não podia deixar de acompanhar os acontecimentos.

Assim que dá pela nossa presença, recompõe-se. É tempo de falar de trabalho, de apresentar "Uma Noite na Lua", monólogo que levará a todo o país até ao próximo dia 5 de junho. "Esta é a história de um escritor que vive obcecado pela sua mulher Berenice, enquanto tenta terminar a sua primeira obra." É comédia mas também tem drama, dá para rir mas também emociona. É a vida mostrada da perspetiva de um homem que queria ser mais do que é e que acabou por perder o que tinha. O melhor é não revelar demasiado, até porque Gregório não está cá apenas para a peça de teatro.

PEDRO LOUREIRO

Também há um filme português na calha. "Refrigerantes e Canções de Amor", com argumento de Nuno Markl e realizado por Luís Galvão Teles, está em rodagem e o humorista faz uma participação especial na longa-metragem. "É um comédia romântica sobre um sujeito que se apaixona por uma mascote de supermercado", conta Duvivier, que não revela qual será a sua personagem. "Na verdade eu não sei, mas não contem isso para o diretor."

PEDRO LOUREIRO

Voltamos ao que preocupa Gregório. As notícias não param de chegar do Brasil e o também escritor é perentório ao falar sobre o assunto. "Eu acho que o que está a acontecer agora é uma farsa", refletindo sobre o que está a acontecer sobre o seu país. "Não sei exatamente se é um golpe de Estado porque não tem intervenção militar, não tem dissolução do congresso ou algo do género, mas na verdade tem a deposição de uma presidenta eleita e a posse de um presidente não eleito, que se hoje tivesse eleições teria um por cento dos votos no Brasil". Para Duvivier, "isso é um atentado à democracia" e é uma pena que tal aconteça num regime como o brasileiro, pois embora "esse governo da Dilma tenha sido muito frágil e muito ruim em vários sentidos, foi democraticamente eleito e conseguiu algumas conquistas sociais para os mais desfavorecidos".

PEDRO LOUREIRO

"Esse golpe é dado por uma elite que se vai beneficiar", prossegue, explicando que "é um golpe de banqueiros e pró-mercado". Duvivier não deixa nada por dizer e exemplifica com a realidade: "Assim que a Dilma perdeu no Senado, a Bolsa subiu, o dólar caiu e o real ficou mais valorizado".

"Os golpes hoje em dia não precisam mais de militares. Eles se dão assim, são golpes brancos, são arsas com o apoio do mercado e da mídia", diz-nos. A relação dos grupos de comunicação social brasileiros com a política é uma das questões que preocupa Duvivier, que aponta para a falta de independência. "Os maiores mídia são controlados por cinco famílias e o maior anunciante dos jornais é o governo."

Para Duvivier, a realidade já teve mais piada, mas fica a garantia de que continuará a esforçar-se para mostrar no mundo do humor como funciona o Brasil (e o mundo). "Delação", com mais de 6,5 milhões de visualizações, é um dos vídeos do momento e "mostra a forma como apenas um dos lados é investigado".