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Ninguém entende “As Criadas” no Teatro Carlos Alberto

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João Tuna

O palco do Teatro Carlos Alberto, no Porto, vai ficar por conta de “As Criadas”, de Jean Genet, conduzidas pela mão de encenador Simão Do Vale

André Manuel Correia

Numa viagem até ao universo feminino, criado originalmente por Jean Genet, encontramos duas mulheres. Duas criadas, por condição. Duas irmãs de sangue, com temperamentos distintos, mas com um objetivo comum: a libertação para lá daquilo que são. Condenadas à clausura, sem acesso à intimidade e à privacidade, elas envolvem-se numa relação bombástica, crispada, difícil e densa com a patroa. Um homicídio é conspirado, sonhado e ritualizado no meio de uma miscelânea de ódio oculto e admiração declarada pela senhora. Entre rituais de “faz-de-conta” e impulsos violentos, o público poderá também encontrar momentos de humor nesta adaptação do encenador Simão Do Vale, com estreia marcada para amanhã no Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto.

“Toda a gente nos ouve, mas ninguém entende”, diz Solange (Teresa Arcanjo) à sua irmã mais nova, Clara, interpretada por Joana Africano. Num cenário aberto, sem necessidade de ser emparedado, as jovens debatem-se com a clausura e olham constantemente o abismo em espirais de fantasia. Após um dos ensaios da peça, Simão Do Vale explicou aos jornalistas que “se fosse um espaço fechado, retiraria a dimensão onírica aos momentos em que tem de haver. A ideia de clausura está nas personagens”.

As duas irmãs vivem numa rede intrincada de emoções, com fraturas do núcleo fraterno devido a rancores antigos. Aquilo que as une é simples: libertarem-se dos caprichos hedonistas da patroa, interpretada por Cristina Carvalhal.

Já o que as separa e distingue, é sobretudo comportamental. “A Clara terá adquirido mais hábitos e mais traços de um estatuto social mais elevado. Tem melhor gosto. Para a Solange, a necessidade da purga e da catarse é mais presente. Ela é mais intempestiva, é mais fogo”, salienta o encenador.

No espetáculo fica esbatido o inevitável choque entre classes sociais distintas, em que a repressão conduz sempre a relações tumultuosas e intempestivas. Toda a ação se desenrola como uma missa negra, constituída por três rituais. A existência daquelas duas jovens em tudo é modesta, até na forma de sentir. O amor é para elas inacessível. Uma arma demasiado perigosa. Um requinte a que não se podem permitir.

Em conversa com os jornalistas, Simão Do Vale enfatizou que esta peça constitui um “grande desafio” para as intérpretes. “Como qualquer ser humano, os atores incorrem sempre num erro: lerem as coisas do ponto de vista histórico. E nesta peça Genet prega uma grande partida aos atores, porque isso efetivamente não é prioritário”, assegura.

Numa trama de difícil desenlace, torna-se quase impossível perceber onde os acontecimentos começam e acabam. “É uma peça compartimentada, quase como se fossem sketches”, expressa o encenador, para quem o fundamental é “arrumar a narrativa para o lado e seguir o caminho das personagens e da força que existe entre elas”.

No ano em que se assinalam 30 anos da morte de Jean Genet, autor francês que esteve preso repetidas vezes, este espetáculo tem a particularidade de ter sido construído a partir da tradução inédita que Luísa Costa Gomes fez da primeira versão da peça. “É muito mais cristalina, na leitura das personagens, dos rituais, na maneira como vão flutuando entre realidade e ficção” explica o encenador, que considera esta tradução “muito mais feliz”.

Esta é uma coprodução da companhia “Subcutâneo” e do Teatro Nacional São João e estará em cena até 22 de maio. As récitas podem ser vistas à quarta-feira, pelas 19h, de quinta-feira a sábado, às 21h, e ao domingo à tarde, pelas 16h.