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Seiva Trupe regressa com “Espectros” intemporais ao TNSJ

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João Tuna

Espetáculo concebido a partir da obra de Henrik Ibsen explora o lado obscuro da sociedade e da família

André Manuel Correia

Qual é a herança que passamos aos filhos? Que salvação pode haver na alegria de viver? Podem os afetos prevalecer numa sociedade dominada pelas regras de conduta? O que significa ser mulher? Questões, muitas questões, é aquilo que a companhia Seiva Trupe traz até ao Teatro Nacional São João (TNSJ), 16 anos após a última aparição na emblemática sala portuense. O regresso materializa-se com “Espectros”, obra escrita em 1881 pelo autor norueguês Henrik Ibsen. Ao longo de uma noite de chuva, são várias as tempestades interiores que se abatem sobre as personagens, num constante combate entre a liberdade caótica e a ordem repressiva. O espetáculo encenado por João Mota tem estreia agendada para amanhã.

“Deve haver espectros por toda a parte. Devem ser incontáveis como grãos de areia numa praia, acho eu. E depois nós, todos nós a viver com um lastimável medo da luz”. Quem o diz é Helene Alving, uma mulher viúva há dez anos que se debate com fantasmas do passado, provenientes de um casamento alicerçado nas aparências e de uma paixão proibida por um sacerdote.

Apesar de todas as frustrações pessoais, Helene, interpretada pela atriz Custódia Gallego, tenta que o filho Osvald mantenha uma imagem imaculada do pai. “Aquela mulher para manter o mito do pai junto do filho entra num sacrifício, quase como um mártir”, explicou João Mota aos jornalistas após um ensaio.

A protagonista é uma mulher com uma personalidade bastante forte, traço comum nas obras de Ibsen. Trata-se de uma figura maternal, que tenta proteger o filho de todas as adversidades, e de alguém bastante culto, capaz de questionar os dogmas religiosos e as convenções sociais.

Para além de Helene, viúva do socialmente respeitado barão Alving, e do seu filho Osvald, um jovem diletante, fazem também parte deste enredo Regine, criada da família e filha ilegítima do nobre defunto, o carpinteiro Engstrand e o pastor Manders, símbolo de um moralismo retrógrado e inquisidor. “Todas as personagens nesta peça têm um lado oculto, um lado subterrâneo”, destacou o encenador em conversa com os jornalistas.

O enredo constrói-se a partir de segredos, mentiras, relações familiares em ruínas, amores impossíveis, jogos de libertação e uma herança terrível e implacável. Temas e tabus contemporâneos são colocados a nu neste espetáculo, tais como a eutanásia, o fanatismo religioso, o incesto, a eterna luta de classes e a submissão da mulher no casamento.

Na opinião do encenador, atualmente “continuamos a debater-nos com o papel da mulher, com a posição da Igreja, das obrigações, da lei, da ordem e da mentira”, considera João Mota, que também é o responsável pela cenografia.

Em palco, dois tons sobressaem: o negro da noite pautada pelo som da chuva e um vermelho vivo. “É uma peça de sangue”, enalteceu o encenador, que optou por uma ornamentação cénica mais minimalista. “O tratamento que tentei dar ao cenário é o de um espaço vazio. Mas não é só o espaço que tem de ser despojado, é necessário encontrar o vazio dentro do ator. Quando os atores encontram esse vazio, não precisamos de muito mais, porque esta é uma peça feita pelo texto e pela palavra.”

Para além de Custódia Gallego, o elenco é composto por António Reis, Catarina Campos Costa, Júlio Cardoso e Ricardo Ribeiro. A peça vai estar em exibição até 29 de maio e destina-se a maiores de 16 anos. As sessões são à quarta-feira, pelas 19h, de quinta a sábado, às 21h, e ao domingo à tarde, pelas 16h.

Este domingo, enquanto os pais assistem à peça, há uma oficina criativa pensada para crianças até aos 12 anos, na qual poderão “explorar as suas possibilidades expressivas, de forma a incrementar a criatividade e o poder de improviso”, destaca o TNSJ em comunicado.