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Uma escada para o céu

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EM PALCO. Robert Plant, durante um espetáculo no autódromo de Interlagos, Brasil, em março de 2015

getty

Reinaldo Serrano

A figura que páro propositadamente durante o visionamento e que por este motivo se detém no meu écrã não constitui propriamente um choque mas uma suave surpresa; observo-a com um misto de incredulidade e insensatez, esquecendo-me durante breves instantes que o tempo cursa e que o seu legado mais não é que um inexorável processo de erosão.

A figura tem algo de indefinível ou indecifrável: podia constar do corpo de mosqueteiros que serviu o trono de França no século XVII, ser um modelo requisitado por um qualquer pintor renascentista ou simplesmente um homem experiente e amadurecido por uma memória da qual foi eminente protagonista. Detenhamo-nos nesta última hipótese, que se torna realidade quando nos apercebemos que a figura em causa se chama... Robert Plant.

O vocalista dos Led Zeppelin está acompanhado pela demais banda, vestida a preceito num traje de gala que dista anos-luz da imagem icónica do grupo que se tornou lenda na história da música. Só a profusão de imagens e sons que a nossa própria memória se encarrega sem esforço de evidenciar aproxima o retrato distante do tempo presente, mesmo se o presente nos remete para 2012

TRIBUTO. Os Led Zeppelin na cerimónia no Kennedy Center, com Robert Plant na ponta esquerda

TRIBUTO. Os Led Zeppelin na cerimónia no Kennedy Center, com Robert Plant na ponta esquerda

getty images

Foi neste ano que os Led Zeppelin integraram o curto rol de homenageados que anualmente justificam a cerimónia que decorre no John F. Kennedy Center for the PerformingArts. Realizada desde 1978, a Kennedy Center Honors é um tributo genuíno e gratificante a nomes incontornáveis no panorama das artes, de todas as artes e de todo o mundo. A lista de homenageados é, no mínimo, impressionante: Leonard Bernstein, James Cagney, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Yo-Yo Ma, Tennessee Williams, Bob Dylan, James Brown entre muitos e muitos outros, sempre em naipes de 5 que, ano após ano e sob o olhar da administração vigente (em 2012 era Barack Obama), recebem tributo perante os seus pares e perante o mundo.

No caso concreto dos Led Zeppelin, a homenagem foi diretamente prestada por Jack Black, que na alocução inicial disse desde logo ao que vinha: prestar tributo “à maior banda da História: melhores que Beatles e Rolling Stones”. Subjetividade à parte, o que se seguiu foi um notável miniconcerto levado a cabo por Foo Fighters (“Rock and Roll”), Kid Rock (“Babe I´m Gonna Leave You/Rumble On”) e, sobretudo, Heart com Jason Bonham (fillho do malogrado ex-baterista da banda, John Bonham), com a recriação do sublime “Stairway To Heaven”, joia da imensa coroa que é o repertório dos Led Zeppelin. Consta que, aquando da edição de “Led Zeppelin IV” - o quarto álbum de estúdio, datado de 1971 -, uma estação de rádio norte-americana, abismada com a história da mulher que estava certa que tudo o que brilha é ouro, tocou os oito minutos e dois segundos da canção, ininterruptamente, ao longo de 24 horas. Lenda ou realidade, o facto é que, dos acordes iniciais às transições melódicas, “Stairway To Heaven” é por muitos considerada a melhor canção de sempre na história do rock.

Este longo introito mais não serve do que para destacar a presença na net de coisas muito mais interessantes que os meros desabafos ou devaneios que povoam as redes sociais. As cerimónias mais recentes do Kennedy Center Honors estão disponíveis na íntegra, mas vale a pena dar uma olhada, até em família, às homenagens mais distantes, quanto mais não seja (e é tanto!) para reavivar a memória sobre gente que o tempo se encarregou de desvanecer e, por esta razão, injustiçar, na voragem dos dias que (nos) consomem sensatez e nos afastam do bom gosto. O mesmo que nos outorgaram nomes como Bob Hope, Arthur Rubinstein, Robert Redford, Clint Eastwood, Mikhail Baryshnikov,Count Basie ou Vladimir Horowitz, que, convidado para o tributo que lhe seria prestado, acabou por ficar de fora da cerimónia à qual concordou ir mas... só se fosse às 4 da tarde.

Estas e outras histórias foram-nos trazidas pelos anfitriões desta imensa festa que é reconhecer o talento e tributá-lo com honra e dignidade. Não por acaso, o veterano do jornalismo norte-americano Walter Cronkite (para sempre conhecido por ter anunciado, de forma particularmente emotiva, a morte de John F. Kennedy) é o recordista das apresentações do Kennedy Center Honors, onde saber e entreter se conjugam numa união cada vez mais difícil de alcançar.

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