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Paul Verhoeven: “Estou mais à vontade com as mulheres. Os homens são cansativos”

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Homenageado pelo IndieLisboa com uma retrospetiva integral que ainda decorre na Cinemateca, o cineasta holandês fala-nos do seu passado, da experiência em Hollywood nos anos 80 e 90 e do novo filme, “Elle”

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Encontrámos Paul Verhoeven num período de grande expectativa para o realizador de “Robocop” e “Showgirls”: o seu novo filme, com Isabelle Huppert, prepara-se para se estrear na competição do Festival de Cannes. Trata-se da história de uma mulher que, depois de ser violada, começa a perseguir o rasto do homem que a violou. Segundo Verhoeven, numa longa conversa da qual deixamos aqui algumas passagens, é o seu melhor trabalho.

Realizou “Delícias Turcas” em 1973, um filme associado à libertação sexual e que foi um dos seus maiores êxitos. Que memórias guarda desse tempo?
Guardo a joie de vivre! A fúria de viver numa ilusão utópica em que tudo era possível. Sem julgamentos morais, sem preconceitos, sem repressão: e o mundo mudou tanto, não foi? Ficou outra vez tão mais conservador.

É otimista em relação à liberdade?
Ao ver o que aconteceu agora com a primavera árabe, do Egito à Tunísia, tenho de ser otimista. E é engraçado porque eu sou um crítico do Ocidente. A liberdade que conquistámos nos anos 70 perdeu-se pouco depois. Foi substituída pelo cinismo.

Há muitos filmes seus que falam disso, do cinismo...
Sobretudo os que fiz na América, “Showgirls”, “Soldados do Universo”, aquele em que a sátira é mais ambígua. Chamaram-lhe fascista. Para mim, é uma sequela de “Robocop” a nível satírico. Talvez tenha ido longe demais porque foi um fracasso ao passo que “Robocop” tinha sido um grande êxito.

Os seus filmes sempre tiveram uma relação muito forte com a fisicalidade, com o corpo, que as suas personagens invariavelmente gostam de pôr à prova. Porque é que isto é um assunto tão recorrente?
Eu diria até: o que somos nós sem o nosso corpo? Os meus filmes são muito baseados na matéria, no movimento, no que existe, mais do que naquilo que se sonha, que se pensa, que se diz. O corpo é expressão e eu sou um materialista focado naquilo que existe, focado na realidade.

Ao recordar os seus filmes, dos primeiros que fez com Rutger Hauer até à atualidade, noto que as suas personagens femininas não pararam de evoluir, da Elizabeth Berkeley de “Showgirls” até “Elle”.
É uma questão importante sobre a qual ainda um dia hei de refletir. E que me faz pensar noutra coisa: nos sketches de Picasso dos últimos anos da sua vida. Essencialmente, esses desenhos tratam de mulheres nuas a serem observadas. Há um confronto entre quem observa e quem age e que deve estar ligado ao envelhecimento masculino.

Confia mais nas mulheres do que nos homens?
Ah, isso é seguro! Estou rodeado de mulheres, sou casado com uma, tenho duas filhas, e também duas cadelas. Estou mais à vontade com as mulheres, é mais fácil ser honesto com elas do que com os homens e a sua teimosa competição. Os homens são cansativos.

A sua partida para Hollywood, em meados dos anos 80, é ainda um mistério para algumas pessoas. O que é que o levou a dar esse salto arriscado?
Nos anos 80, os meus filmes eram êxitos de bilheteira na Holanda e, paradoxalmente, quanto mais êxito eu tinha mais difícil era encontrar dinheiro para continuar a filmar. Tivemos nesse período uma série de governos de esquerda e os júris dos comités por eles nomeados não queriam subsidiar os meus filmes. Chumbavam-me constantemente. Diziam que os meus argumentos eram perversos e decadentes e que dava uma má imagem do país no estrangeiro. Quando o convite para “Robocop” chegou, eu estava longe de pensar que me mudaria para os EUA. Mas a minha mulher insistiu, disse-me que era estúpido nem tentar pois essa era a melhor maneira de fugir daquela “sabotagem”.

Tinha lá amigos?
Sim, conhecia Spielberg. Era um dos poucos que já então podiam fazer o que quisessem. Tornei-me amigo do John Landis, muito amável, o William Friedkin ajudou-me e o Mel Brooks, um homem extraordinário, apoiou muitos anos um projeto que eu tinha sobre Jesus Cristo.

Teve sempre o final cut dos seus filmes?
Sempre. Tive de mudar muitas coisas nos argumentos, mas o final cut era meu. Sabe, na Hollywood dos anos 80 ainda havia estúdios, como aqueles com que eu trabalhava [Orion, Carolco], que só exigiam uma boa ideia e uma vedeta. O cinema ainda era feito pelos realizadores. Em “Desafio Total”, o Arnold Schwarzenegger foi escolhido ainda antes de me porem o filme nas mãos, tal como o Michael Douglas no “Instinto Fatal”. Mas depois deixavam-me fazer o que quisesse. Comecei a pensar que ia mesmo perder o controlo quando fiz “O Homem Transparente” [2000]. Os produtores queriam controlar tudo. O filme até foi um sucesso. Mas eu decidi voltar para casa. Nunca quis tornar-me produtor de mim próprio. Foi talvez o meu grande erro.

Falou várias vezes na incompreensão com que “Showgirls” foi recebido em 1995.
O que é triste na história de “Showgirls” não é o facto de o filme não ter funcionado. Aliás, foi um desastre! Não, o que é triste é a história da atriz principal, a Elizabeth Berkeley. Destruíram-lhe a carreira. Exatamente o que tinha acontecido a Eiko Matsuda, a atriz de “O Império dos Sentidos”, depois do escândalo do filme de Oshima. A Elizabeth foi julgada. Só tinha 22 anos. Não posso perdoar o que lhe fizeram.

Mas não fala “Showgirls” disso mesmo, de bastidores, da produção?
Sim, “Showgirls” é uma acusação contra quem quer fazer dinheiro a qualquer preço. É uma crítica à ganância. Todas as personagens são más, desprezíveis, a começar pela principal, a Nomi, que empurra a rival das escadas. Só se salva a sua amiga negra, e não é por acaso que esta é punida e violada. Mas sabe, a verdade é que me aborreço um bocado com as pessoas que agora me dizem que o “Showgirls” é genial. Está longe de ser perfeito, o argumento tem falhas que não pude ultrapassar. Prefiro que as pessoas vejam antes o “Elle” quando estrear. É o meu melhor filme.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 30 abril 2016