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Cenas de um casamento... ou de muitos

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FESTA. A boda camponesa, de Pieter Bruegel, o Velho (1567)

Uma socióloga francesa debruça-se sobre a evolução do casamento nas últimas décadas, centrando-se sobretudo na sua dimensão pública

O mês que começou ontem marca o início da temporada em que se concentram, regra geral, os casamentos. Até setembro, muitos casais irão “dar o nó”, pelo civil ou pela igreja, perante congregações de familiares e amigos de variável dimensão. O casamento enquanto festa mantém-se atraente para muitos, mesmo em tempos de secularização. E tende a alargar-se a todos, progressivamente, à medida que cada vez mais países o vão legalizando para pessoas do mesmo sexo.

Ainda assim, o número de casamentos tem tendido a descer, em Portugal como no estrangeiro, desde os anos 70. É certo que no nosso país houve mais 873 casais a casar-se em 2015 (com 32.043 uniões, 350 delas homossexuais) do que em 2014 (31.170), mas nada que se compare aos 103.125 de 1975 ou mesmo aos 47.857 de há dez anos. Mais de metade dos bebés, noticiava há dias a imprensa, nasce a pais que não estão casados. E isto repete-se um pouco por todo o mundo, pelo menos ocidental.

É de assuntos como este que fala a socióloga francesa Florence Maillochon no livro “La passion du mariage” (A paixão do casamento), publicado há cerca de um mês. A autora não se limita a analisar a quebra no número de casamentos, abordando também a uniformização crescente das cerimónias, algo contraditória com o desejo (e a persuasão) entre os nubentes, de terem uma festa única, e o período de preparação cada vez mais longo que antecede aquela. Efeitos da globalização? Do marketing? Das redes sociais?

O casamento tornou-se menos abundante mas mais visível. É, na civilização judaico-cristã ocidental, cada vez menos obrigação e mais escolha. Mas a muito obriga. A sua função passou de iniciática a expressão social de uma realização pessoal. Daí que Maillochon realce a sua dimensão de performance física e quase artística (veja-se a quantidade de feiras da especialidade, revistas, páginas nas redes sociais à disposição de todo e qualquer noivo), sem ignorar até que ponto organizar um casamento tem o seu quê de provação.

Exigências estéticas

Segundo o sítio francês “Revues Lectures”, este livro “mostra como a procura de inovação e perfeição conduz menos ao desaparecimento dos constrangimentos sociais do que à elaboração de novas normas matrimoniais. Do pedido coreografado aos alongados preparativos, das fotografias intermináveis às partes gagas cuidadosamente ensaiadas por noivos ou por convidados que os querem surpreender, são as exigências estéticas que ocupam a maior parte do tempo e da preocupação dos protagonistas. E nem entremos na lista de aniversários de casamento, que entre bodas de prata, ouro ou platina as regista de algodão, papel ou diamante, havendo quase uma designação para cada ano.

O dinheiro gasto também é maior, lembra o diário “Le Monde”, realçando “a dupla exigência de personalização e surpresa”. E tudo acaba, conclui a “Revues Lectures”, por agravar desigualdades de género e classe.

Maillochon é especialista em relações interpessoais, estudando fenómenos como a sexualidade, a sociabilidade dos adolescentes, a violência ou o divórcio. É diretora de investigação da equipa dedicada às desigualdades sociais do Centro Nacional de Investigação Científica francês (o prestigiado CNRS). Estruturou esta obra seguindo uma metodologia científica, dividindo-a em capítulos que vão da “invenção de um evento” à “iconografia do casamento”, passando por conceitos como “Bridezilla” (noiva + Godzilla), pela evolução histórica das noites de núpcias ou pela construção social do corpo da mulher.

Com o brinde da praxe aos casadoiros dos próximos tempos, fica a sugestão de um livro sobre uma instituição que – independentemente da atitude de cada qual face à mesma – não está prestes a desaparecer da nossa sociedade. Indo roubar a Lavoisier, não se perde nem se cria, antes se transforma… como nós, que a fazemos.

“La passion du mariage”, autora: Florence Maillochon, editora: Puf, páginas: 378, preço: €27 (preço de editora)

“La passion du mariage”, autora: Florence Maillochon, editora: Puf, páginas: 378, preço: €27 (preço de editora)