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As mulheres que vestem uma minissaia não estão a pedi-las

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BRAIDS. Raphaelle Standell Preston, à direita na foto, é a voz dos Braids. Escreveu esta semana um ensaio comovente que na verdade é uma confissão - com uma emocionante mistura de vulnerabilidade e força

d.r.

É um testemunho poderoso: durante anos, Raphaelle Standell Preston, hoje vocalista da banda indie Braids, foi abusada sexualmente pelo próprio padrasto. As suas músicas refletem uma infância de dor e de recuperação, mas a verdadeira cura só chegou esta semana, quando se encheu de coragem e recuperou o controlo da sua própria história

Desde o verão passado que os fãs de Braids, a banda indie que está a conquistar um lugar na indústria musical americana, se viciaram em “Miniskirt”, um dos temas mais fortes do álbum “Deep in the Iris”. “Visto a minha pequena minissaia e tu achas que tens o direito de me tocar porque eu estou a pedi-las. A minha pequena minissaia é minha, só minha", canta a vocalista, Raphaelle Sandell-Preston, que explicava na altura à “Montreal Gazette” que este é um tema que deve ser cantado com “confiança”.

Algures num quarto de Berlim, um fã ouvia este “hino feminista para uma nova geração” (a descrição é da revista “Otawwa Magazine”) e, mais do que uma crítica cultural certeira, sentia os versos de Raphaelle como seus. Foi este fã que abordou a vocalista no último concerto da digressão do ano passado para lhe agradecer: finalmente a sensação de isolamento que sentia desde que fora violado deixava de fazer sentido. Para Raphaelle, esse foi o momento em que percebeu que tinha de contar ao mundo que aqueles versos tinham por inspiração os abusos sexuais que sofreu às mãos do próprio padrasto quando não passava de uma criança.

Entre o lançamento do álbum, em agosto do ano passado, e a revelação da cruel história de Raphaelle passou quase um ano – foi nesta segunda-feira que a vocalista finalmente decidiu publicar o ensaio “Reclamation through a microphone” na revista “Pitchfork” (AQUI). “Na primeira vez em que um jornalista me perguntou se Miniskirt era um relato pessoal, (...) congelei. Podia ser honesta. Podia dizer ‘sim, foi inspirada na minha infância, fui molestada pelo meu padrasto durante anos, a minha mãe descobriu e a nossa família explodiu’”, lê-se no texto, uma emocionante mistura de vulnerabilidade e força.

Para o fã alemão, talvez não tenha sido difícil perceber que ao tecer críticas a uma sociedade que condena e estigmatiza as vítimas, Raphaelle estava a lutar contra os seus próprios demónios. As pistas estão todas lá: “Na minha posição eu sou a fácil, a oferecida, aquela que todos destestam. E há outro nome para estes homens, um nome muito mais ligeiro: mulherengo, galã, Casanova”, atira ela, a voz delicada, o olhar perdido.

“Houve um homem que prometeu amar a minha família. Em vez disso está cheio de ódio, e tudo aquilo em que toca pertence-lhe. Devora a alma da minha mãe, e quando ela descobre que ele me tocou ela bate-lhe, confronta-o (...). Vamos para um abrigo de mulheres durante nove meses.” O relato que se houve em “Miniskirt” é pormenorizado e deixa adivinhar que mais ninguém poderia descrever de forma tão certeira a experiência de uma vítima. “Atravesso a rua até á Igreja, rezo confusa sobre o que me dói.”

A história é desconcertante, toca um daqueles assuntos em que ninguém quer ter de pensar. Mas, na verdade, não foram os pormenores crus e as memórias cruéis que fizeram Raphaelle hesitar na hora de revelar a verdade sobre o trauma que ainda a persegue: todos os seus medos residiam na reação das pessoas que a rodeiam, numa sociedade que “estigmatiza e desvaloriza” as histórias de quem sobrevive para as contar. “Há um sentimento de que fizemos algo de errado: se não tivéssemos estado naquele lugar, dito aquela coisa, vestido aquela roupa, se tivéssemos sido mais assertivas ou menos ingénuas, as coisas teriam sido diferentes.”

d.r.

Durante muito tempo sentiu-se “suja e diferente”, com medo de ser olhada de lado, mas hoje em dia Raphaelle sabe - como todas as vítimas deveriam saber - que a culpa não é sua. “Procuramos culpas em nós para dar sentido a algo que nada teve que ver connosco e que continua a não fazer sentido - se calhar, nunca vai fazer sentido”, escreve no ensaio que publicou na “Pitchfork”. Em “Companion”, um dos temas mais recentes da banda, explica ao filho do padrasto que não há razões para se sentir parte de tudo aquilo, e ao fazê-lo recupera o controlo de uma história de culpas que começa e acaba no violador (“Não teve nada que ver contigo / Como é que posso tornar isto mais claro?”).
Nas redes sociais, as reações são de força e elogio à coragem da cantora. Os utilizadores do Twitter classificam “Miniskirt” como “uma das músicas mais emocionantes” que já ouviram e acrescentam que o tema é “um abalo importante na cultura em que se culpa a vítima”.

“Nunca podemos fugir dos momentos que vivemos, mas podemos mudar a maneira como os vemos”, explica Raphaelle. “Dentro de nós está a pessoa que foi magoada e a que sobreviveu. Ambas existem, e quando a metade corajosa é paciente e dá à outra metade tempo para se curar, as feridas começam a sarar.”