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A banalidade da pipoca

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CINEMA. “Roma”, de Fellini, é um dos filmes programados para a Cadeia de Paços de Ferreira, num ciclo dedicado ao tema da liberdade

d.r.

Roubaram-nos o cinema. Pior. Sequestraram-nos o prazer do cinema. Ao ponto de, hoje, só por um mórbido prazer de autoflagelação se entender a visita às salas convencionais de apresentação de produtos fílmicos. Esta será a melhor e mais benigna das designações para a enlatada padronização de gostos contida nas múltiplas ofertas, diferentes nos títulos, mas tão iguais nos objetivos, no conteúdo e na forma presentes nas salas a abarrotar de pipocas e cheiro a cachorros quentes.

Os arroubos nostálgicos não são úteis instrumentos de trabalho. Não se trata de contrapor uma suposta idade dourada – por norma confundida com os anos de juventude de quem escreve – a um tempo de trevas, identificado com a produção contemporânea.

A questão é outra e radica antes nas consequências do processo de industrialização dos estúdios, transformados em estruturas de produção em série, sem espaço, ou com escassas fendas por onde possam passar propostas capazes de romper com o pensamento médio, o gosto médio, o humor médio, o drama médio ou o médio erotismo permitido pelo politicamente correto.

Não por acaso, há cada vez mais amantes do cinema a procurar espaços alternativos. Procuram a diferença, e não apenas de programação. Querem escapar à opressão do espaço onde a compra de uma simples entrada para ver um filme mais parece um supermercado de guloseimas. Transportadas, manuseadas, deglutidas no interior da sala, seja qual for o filme. Seja em que momento for do filme. Na mais completa e significativa indiferença por quanto possa estar a ser projetado na tela.

“César deve morrer”, dos irmãos Taviani

“César deve morrer”, dos irmãos Taviani

d.r.

No passado domingo, um ocasional passeio noturno pela baixa portuense provocou um reencontro com o cinema Batalha. Fechado há anos, surgia iluminado e era difícil resistir ao apelo de voltar a atravessar aquelas portas e entrar na sala, ainda belíssima, onde, a par da cuidada programação da casa, durante anos e anos o Cineclube do Porto apresentou as suas sessões. Havia uma componente quase religiosa naquelas projeções aos domingos de manhã. Aos olhos de hoje, todo aquele culto cinéfilo - à hora das missas dominicais - podia ser desmesurado. As saudades possíveis não são maiores, nem mais intensas do que as contidas na evocação de qualquer boa memória.

O problema não está na saudade. Cada um terá as suas. O óbice é outro e explica-se numa constatação simples. Naquela noite, sem grandes anúncios, terminava um festival de dois dias, o "Desobedoc", com “As vinhas da Ira”, de John Ford. A sala estava quase cheia de gente de todas as idades, atraídas pela ideia de um grande filme numa grande sala cuja função é exibir cinema. Nada mais.

Percebe-se assim o êxito de um ciclo como o que está a ser dedicado ao cinema russo Teatro do Campo Alegre, como se entende a excelente procura das sessões especiais realizadas no Teatro Rivoli, no Passos Manuel, na Casa das Artes ou na Faculdade de Belas Artes.

Há uma ânsia de cinema. Há uma procura real de um cinema outro, não enredado nos mecanismos de produção em série, não submetido às lógicas de marketing prédefinidoras de apetências e de receitas para o sucesso, como o comprova o êxito de um dos mais recentes e originais festivais de cinema organizados em Portugal, o PortoPostDoc.

“Táxi”, de Jafar Panahi

“Táxi”, de Jafar Panahi

d.r.

Por vezes, esse desejo de cinema não submetido aos ditames da infantilização do gosto, incapaz de conviver bem com a hipótese de suscitar uma qualquer reflexão, uma hipotética dúvida, um qualquer questionamento, manifesta-se nos mais inesperados locais. Assim sucederá na próxima semana, de terça a quinta-feira, na Cadeia Prisional de Paços de Ferreira. Durante três dias, e a partir de uma escolha do jornalista Manuel Vitorino, será apresentado um ciclo construído à volta do debate suscitado pela questão da liberdade, ou da sua ausência. Seja nos limites de uma prisão, seja como resultado da vivência numa sociedade da qual estão arredadas as liberdades cívicas, políticas e individuais.

Com apresentação na Biblioteca da Cadeia, o ciclo inclui "César Deve Morrer" (2012) de Paolo e Vittorio Taviani; "Taxi", do iraniano Jafar Panahi (2015) vencedor do Urso de Ouro de Berlim, e "Roma", de Federico Fellini (1972).

Três grandes filmes incompatíveis com a banalidade da pipoca.

Valdemar Cruz escreve a coluna “Linha do Norte” todas as quintas-feiras no EXPRESSO DIÁRIO