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José Mário Branco: é tempo de “Mudar de vida”, com um “rap eriçado”

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António Pedro Ferreira

São 115 minutos de um documentário entusiasmante que traça o longo percurso de criação artística e de combate cívico e político do cantautor. O documentário, que “cavalga o coração” de uma ou duas gerações de gente, como escreve o nosso crítico Jorge Leitão Ramos, chega esta quinta-feira à estreia comercial no cinema

25 de abril de 2005: estudantes do curso de cinema na Universidade da Beira Interior, na Covilhã, Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro, numa atividade prática ligada ao seu plano curricular, vão registar o recital inaugural do Teatro Municipal da Guarda. Era um espetáculo de José Mário Branco – e logo aí surgiu a ideia de um documentário sobre a vida e obra do cantautor.

Armados apenas com a sua boa vontade e sem qualquer perspetiva de financiamento, deslocam-se a Lisboa, batem à porta de José Mário Branco e fazem-lhe a proposta. Este pede algum tempo para refletir mas, três dias volvidos, aquiesce à ideia. Começa, então, uma longa aventura em que, para lá de demoradas conversas filmadas, Fidalgo e Guerreiro partem à descoberta de materiais escritos, sonoros, iconográficos e audiovisuais e chegam à fala com várias pessoas cuja vida se cruzara com a de José Mário Branco – tudo num eixo Lisboa–Paris, cidade para onde, entretanto, Pedro Fidalgo se deslocara, em Erasmus.

E é em Paris que descobrem um material preciosíssimo e inédito: os takes, ainda em estado bruto, nunca montados, de um filme incompleto sobre a emigração portuguesa em que o cantor colaborara ativamente, “Chant en Exil”, realizado por Dominique Dante. Aí se documentam espaços humanos da emigração, atividades de resistência antifascista, atuações de José Mário Branco em anos longínquos.

Arquivo "A Capital"

Entretanto, em Portugal, a busca de fontes de financiamento que permitissem que o filme avançasse deveras – nomeadamente pela compra de material de arquivo necessário, tanto de imagem como de som – encontra mil obstáculos. Os anos passam. Através de uma plataforma de crodwfunding, primeiro (7 mil inestimáveis euros para ir custeando despesas imprescindíveis) e, depois, da venda de uma difusão à RTP (que pagou em géneros, fornecendo imagens e sons dos seus arquivos), a dupla de realizadores/produtores fechou “Mudar de Vida – José Mário Branco, Vida e Obra” em 2013.

Em 115 minutos de um documentário entusiasmante traça-se o longo percurso de criação artística e de combate cívico e político (e nunca um sem o outro, embora o primeiro tenha a primazia) do criador de “Mudam-se os tempos, Mudam-se as Vontades”. O IndieLisboa apresentou-o em estreia mundial a 25 de Abril de 2014, no S. Jorge. Depois disso…

Depois disso a RTP não se interessou pelo filme e constrangeu os realizadores a uma versão curta de 52 minutos (só obra musical, quase nada de vida) que estreou, na RTP/2, tarde e a más horas, ao fim de uma noite de segunda-feira de novembro de 2015. Quanto à versão longa, sem distribuidor que se interessasse, nada aconteceu. Ou melhor, praticamente nada, já que sessões de quase militância permitiram esporádicas e muito espaçadas exibições por aí, por espaços culturais que se iam interessando. Agora, nesta quinta-feira, 5 de maio, no City Alvalade e com uma única sessão por dia – às 19h – o filme chega, enfim, à estreia comercial em sala.

D.R.

Pontuado pelo longo texto-canção (“rap eriçado”, alguém lhe chamou) que dá o título ao filme (“Mudar de Vida”), criado para um espetáculo na Casa da Música, no Porto, em 2007, o documentário tem deliciosas minúcias de arquivo, sejam as sinistras fotografias de prisão de José Mário Branco pela PIDE, em 1963, sejam as imagens de uma atuação na Suiça, com Sérgio Godinho, sejam vociferações contra o fado (em coro com Francisco Fanhais e Manuel Freire) nos tempos radicais do início dos anos 70, ou as muito recentes, colhidas por Bruno de Almeida, fixando a cumplicidade atual com Camané, entre um manancial de outras, já mais conhecidas, mas que dão a marca de toda uma época.

Passam inúmeros depoimentos (Luís Cília, Sérgio Godinho, Jean Sommer, Manuela de Freitas, Nuno Pacheco, …). E há a música, sempre a música, quase nunca canções inteiras, fragmentos de fazer apetecer tudo o mais que fica por ouvir. É um filme quente, solidário, tecnicamente, às vezes, tosco, mas de uma vibração que contagia o espectador. Para uma ou duas gerações de gente, cavalga-nos o coração. É bom que se não perca na voragem de filmes que por aí grassa, ou no despertar do calor que, quando acontece, faz encher as praias e desejar o ar livre – com o consequente êxodo das salas de cinema.