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Quanto custa?

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FESTIVAL. A companhia de Ambra Senatore estará no Festival Dias da Dança organizado pelas Câmaras do Porto, Matosinhos e Gaia

FOTO VIOLA BERLAND

Quanto custa?

Eis a mais previsível, a mais banal e - porque não assumi-lo? - uma das mais insidiosas perguntas tantas vezes colocadas pelos jornalistas no final de conferências de imprensa destinadas a apresentar iniciativas culturais da mais diversa índole. Ao enredar-se num inevitável grotesco, a situação desencadeia comentários jocosos, ao ponto de ser já comum a ironia contida no modo como quem está do outro lado da mesa se antecipa à sacramental e obrigatória curiosidade. Debitam números. Apresentam orçamentos rigorosos. E todos saem satisfeitos.

Como é bom de ver, o problema não está na questão em si mesma, se individualmente considerada. Os jornalistas têm a obrigação de estar atentos à gestão da coisa pública e às opções tomadas para a utilização de dinheiros públicos. Por aí nada haveria a apontar. A realidade, porém, é bem mais complexa do que qualquer axioma construído à volta da inevitabilidade de uma pergunta na aparência tão simples. São apenas duas palavras e, no entanto, mesmo quando os jornalistas não se apercebem ou não o fazem de forma consciente, há todo um mundo de preconceitos, às vezes ideológicos, a contaminar quanto pudesse haver de genuíno naquele desejo de apurar o custo.

Um pouco mais de atenção, e repararemos como aquela pergunta, colocada nas suas múltiplas variantes, ocupa hoje um lugar central na definição e organização das sociedades ocidentais, onde de forma crescente a economia tem vindo a ser imposta como um dogma de fé, e os economistas entronizados como “as autoridades máximas em matéria de felicidade”, como dizia esta semana numa entrevista Leon Wieseltier, crítico literário, ensaísta e, como o definia o El País, “uma espécie de humanista chefe” da Brookings Institution, o principal laboratório de ideias de Washington.

Um outro conceito, o do lucro, aparece associado a esta visão contabilística da vivência em comunidade. As diferentes profissões, as atividades, não apenas culturais ou artísticas, são definidas e valorizadas em função da dimensão utilitária nelas contida. Aqui chegados, assumem-se como naturais perguntas antes tidas como impensáveis: para que serve estudar filosofia? Qual o interesse de estudar línguas e literaturas? Qual é a importância do teatro? Para que queremos financiar ópera se só dá prejuízo? Que contributo dá o ballet para o avanço da sociedade?

Os serrenhos do caldeirão, de Vera Mantero

Os serrenhos do caldeirão, de Vera Mantero

FOTO HUMBERTO ARAÚJO

O problema não é especificamente português. Assiste-se a uma generalizada e preocupante desvalorização dos valores do humanismo, e de quanto a um vasto conjunto de princípios éticos e filosóficos possa estar associado. Tudo em nome de um pragmatismo que, levado ao limite, implicaria a crença numa distopia. Isso mesmo, uma sociedade tão indesejável quanto assustadora, da qual seriam dispensados, por não rentáveis nem economicamente produtivos, os contributos do pensamento de filósofos e escritores, das propostas estéticas suscitadas pelo cinema de autor, pelas artes plásticas ou pelas artes de palco.

Houve em tempos muito recentes no Porto um presidente de Câmara a quem ficou colada uma máxima que, se não é exata nas palavras, traduz a ideia por si expressa de que não haveria mais dinheiro para a cultura enquanto existissem bairros degradados. O resultado, no final de doze anos de mandato, foi uma absoluta degradação do panorama cultural da cidade, sem resultados palpáveis na melhoria das condições de vida dos moradores dos bairros sociais. Acrescentou-se uma degradação a outra degradação. A justificação para os cortes nos apoios à cultura não passava de um pretexto para caucionar uma opção ideológica muito ancorada naquela visão utilitária da sociedade.

Tem, por isso, o sentido de uma brisa refrescante o anúncio da realização de um grande festival internacional de dança contemporânea, organizado em conjunto pelos municípios de Porto, Matosinhos e Gaia. Arranca hoje e prossegue até 7 de maio. É o DDD – Dias da Dança e adivinha-se que algo do género teria ou poderia surgir na região a partir da nomeação de Tiago Guedes para a direção artística do Teatro Rivoli, em tempos um espaço de referência na Europa para o ballet contemporâneo.

 Vaga 2, de Né Barros

Vaga 2, de Né Barros

d.r.

É desde logo relevante e ousada esta disponibilidade de três concelhos vizinhos para colocarem de lado rivalidades inúteis e apostarem antes na junção de esforços para construir algo cuja dimensão nenhum dos três, por si só, alguma vez alcançaria. É importante este tipo de associações - e já têm surgido – em algo tão essencial e objetivo como o saneamento, a distribuição de água ou o tratamento de lixos.

Todavia, o que nos diferencia enquanto humanos não se esgota na estreita visão utilitarista de custo benefício de quanto fazemos. Será importante saber quanto custa este festival, até por uma questão de transparência. Não menos decisivo, porém, é perceber como iniciativas destas, sem terem resultados mensuráveis do ponto de vista económico, contêm implícito um lucro inimaginável para a sociedade que pretendemos formar. Será um lucro do domínio do intangível. Mas um lucro, ainda assim.

Valdemar Cruz escreve a coluna “Linha do Norte” todas as quintas-feiras no EXPRESSO DIÁRIO

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    Porto, Matosinhos e Gaia juntam-se para a organização de um Festival Internacional de Dança