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Quando a vida te der limões, faz o álbum mais poderoso da tua carreira

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EM PALCO. A Formation Tour arrancou esta quarta-feira, quatro dias depois do lançamento de "Lemonade". O primeiro espetáculo aconteceu em Miami

FOTO FRANK MICELOTTA/PARKWOOD ENTERTAINMENT VIA GETTY IMAGES

Diz-se com frequência que as agruras da vida são limões ácidos e que todos temos o poder de os transformar numa saborosa limonada. No caso de Beyoncé, ela pegou nas infidelidades do marido, mas também na história da sua família e de gerações de mulheres negras que vieram antes de si e fez o álbum mais poderoso de toda a sua carreira. Há quem diga que “Lemonade” é o “Purple Rain” dela - para já, sabemos que é o disco com potencial para revolucionar uma carreira inteira

Qual é a diferença entre uma estrela pop com milhões de discos vendidos, digressões bem-sucedidas e hits constantes nas rádios, e um verdadeiro ícone? Talvez seja o poder de lançar um álbum sem avisar ninguém e o mundo parar para o ouvir (e ver). Talvez seja a genialidade de se reinventar a mil por cento e manter um fiel exército de fãs ao seu lado. Também pode ser a coragem de sair da sua bolha de estrela pop óbvia para se lançar em géneros diferentes, letras mais ousadas, significados cada vez mais complexos.

Beyoncé tem tudo isto. Numa hora, uma hora de espetáculo absoluto transmitida sem pré-aviso em exclusivo no canal HBO, ela canta e dança tão eficazmente como sempre, mas há mais: há os sentimentos (que ela sempre fez questão de manter em privado), há o ativismo político (o poder da mulher negra é a mensagem mais importante a retirar), há uma Beyoncé crua e talentosa que se andou a esconder por trás de megasucessos mais adocicados e amigos da rádio como “Crazy in Love” ou “Irreplaceable”.

Por esta altura, quem não vive numa gruta e tem acesso a uma ligação de Internet dificilmente não terá ouvido falar das traições de Jay-Z. Da pergunta direta (“andas a trair-me?”) para as insinuações e ameaças (“se continuares assim vais perder a tua mulher”, grita ela enquanto atira a aliança para o chão na genial “Don't Hurt Yourself”, que conta com o toque de Jack White), a infidelidade do rapper funciona como fio condutor do álbum. As 12 músicas estão organizadas de acordo com as fases da depressão, da raiva ao perdão, e intervaladas por excertos de poemas da poetisa somaliana e britânica Warsan Shire.

O verso que fez a internet enlouquecer definitivamente chega no final de “Sorry”, também conhecida por contar com o momento de “girlpower” em que Serena Williams faz twerk ao lado de uma Beyoncé que assegura que se “arrepende daquela noite” em que casou. E, então, a estrela faz a revelação bombástica: “Ele só me quer quando eu não estou / Mais vale chamar a Becky do cabelo bonito”.

As especulações estão por todo o lado - Becky pode ser a estilista Rachel Roy, pode ser a cantora e protegida de Jay-Z Rita Ora, pode ser uma combinação de todas elas, pode ser um produto da imaginação de Beyoncé. Mas concentrar a análise do álbum nela seria um erro, porque quando a voz cortante de Malcolm X interrompe “Don't Hurt Yourself” para relembrar que “a pessoa mais desrespeitada da América é a mulher negra”, percebemos que este álbum não é só a raiva de uma mulher que foi traída: é a raiva de todas elas, juntas, a raiva de gerações maltratadas a quem Beyoncé tenta devolver o poder e o controlo.

FOTO FRANK MICELOTTA/PARKWOOD ENTERTAINMENT VIA GETTY IMAGES

O controlo de Beyoncé é possivelmente o elemento mais fascinante de todo o álbum: ela pisca o olho ao reggae na inesperada “Hold Up”, em que se passeia com um sorriso maníaco enquanto destrói tudo quanto encontra com um taco de basebol, e logo a seguir mostra o poder da sua voz no registo gospel de “Freedom”, com Kendrick Lamar a dar uma ajuda, e ainda se aventura pelo country em “Daddy Lessons” (sim, porque Jay-Z não é o único homem infiel exposto neste álbum e, citando Beyoncé, ele só vem perpetuar “a maldição dos homens desta família” da qual o seu próprio pai faz parte). E no meio de tudo isto - da poesia, dos discursos, das colaborações (o elenco de estrelas vai de James Blake a Jack White, os vídeos estão cheios de celebridades negras como Serena Williams ou Zendaya), da reinvenção total, é sempre ela que está ao centro, coerente, poderosa, mais segura do que nunca.

Talvez isto seja um ícone: Beyoncé, a mesma que, de acordo com a sua agente, não dá uma entrevista em direto ou responde a uma pergunta inesperada desde 2013, consegue revelar toda a sua fragilidade num minuto para de seguida se mostrar controlada, forte outra vez. A admiração da internet também é essa - que outra mulher conseguiria chamar mentiroso ao marido, dizer que é boa demais para ele e no fim conseguir que ele apareceça num dos seus vídeos a beijar-lhe os pés (na balada “Sandcastles”, em que uma Beyoncé sozinha diante do piano decide dar-lhe uma nova oportunidade enquanto ele se mostra agradecido - “mostra-me as tuas cicatrizes e eu não te abandonarei”, promete ela).

SUPERBOWL. Beyoncé foi a personagem principal do evento ao cantar "Formation", uma canção com referências ao movimento Black Lives Matter

SUPERBOWL. Beyoncé foi a personagem principal do evento ao cantar "Formation", uma canção com referências ao movimento Black Lives Matter

RONALD MARTINEZ/GETTY IMAGES

Seria possível adivinhar uma viragem na carreira de Beyoncé, embora dificilmente nestes moldes e dimensões. Em 2013, quando lançou o seu último e homónimo álbum, fê-lo também de surpresa, também com uma forte componente visual. Já nessa altura, em “Flawless”, uma Beyoncé mais politizada colocava a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie em posição de chegar a milhares de meninas e adolescentes com as palavras da sua famosa Ted Talk: “Nós criamos as raparigas para olharem umas para as outras enquanto concorrência; não por empregos ou objetivos, mas pela atenção dos homens. Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e económica dos sexos”. (No mesmo discurso, qual profecia, Chimamanda acrescenta: “O casamento pode ser uma combinação de alegria, amor e apoio mútuo, mas porque é que ensinamos as raparigas a aspirar ao casamento e não ensinamos aos rapazes a mesma coisa?”.)

Beyoncé pode não conceder praticamente entrevista nenhuma (há quem diga que é para manter a aura de mistério, outros consideram que a estrela é pouco eloquente), mas no mesmo ano lançava o documentário “Life is but a dream” e as pistas que levariam a este “Lemonade” estavam todas lá. “Tenho sempre esta batalha sobre quanto de mim devo revelar. Como é que continuo a ser relevante? Como é que continuo a emocionar as pessoas? Sinto que ser bem-sucedida comercialmente não chega. É batalha da minha vida.”

Depois, é claro, aconteceu o Superbowl. Estávamos em fevereiro deste ano, o mundo de olhos postos nos anúncios caprichados e nas atuações das maiores estrelas mundiais (e parece que também houve um jogo pelo meio), e de repente aparecia Beyoncé, vestida a imitar os membros do movimento Black Panthers, cantando sobre o orgulho que tem no seu cabelo afro e autoproclamando-se “o próximo Bill Gates negro”. A seguir, o vídeo que incendiou a internet para acompanhar “Formation”: Beyoncé a afogar-se em cima de um carro da polícia em Nova Orleães, um menino negro dançando em frente a uma fila de polícias brancos, as mensagens grafitadas para apoiar o movimento Black Lives Matter, e uma estrela pop sem medo de assumir a cor da sua pele e a herança que ela traz.

Em “Lemonade”, a companhia de Beyoncé não se faz só de atrizes negras conhecidas. As mulheres que surgem emocionadas segurando com firmeza as fotografias de jovens negros não foram escolhidas ao acaso. Elas são as mães de Michael Brown e Trayvon Martin, dois dos mais mediáticos casos de mortes à custa da violência policial nos Estados Unidos e duas das tristes inspirações que ajudaram a lançar o Black Lives Matter.

A terminar o álbum (é dificil separar as canções porque Beyoncé assim o decidiu: todo ele parece uma obra una que flui sem interrupções desnecessárias), as caras de outras mulheres negras: a mãe de Beyoncé, feliz com o segundo marido quando a filha canta sobre a reconciliação; a filha, Blue Ivy, em representação da próxima geração de mulheres negras; e a avó de Jay Z, num excerto do discurso que fez no ano passado, no seu 90º aniversário, e que dá nome ao álbum (ela refere o conhecido provérbio “Quando a vida te dá limões, faz limonada”).

No passado domingo, quando terminou no HBO a hora que dura esta história de infidelidade e perdão dedicada a todas as mulheres negras, ninguém conseguiu falar de outra coisa. No “Guardian” dizia-se que Beyoncé, ao pôr o marido calado e a beijar-lhe os pés, assumiu o protagonismo e deu uma lição de feminismo a Hillary Clinton (“Queremos a Hillary que chora, sofre e vence no final, sem o marido a intrometer-se no seu caminho”). Na “Rolling Stone”, que dá cinco estrelas ao disco, escrevia-se que “Lemonade” veio lembrar, poucos dias depois da morte de Prince, que os gigantes da música ainda estão entre nós. O “Huffington Post” anunciava que este álbum (ou história, ou filme, ou muito mais do que isso) é o “Thriller” ou o “Purple Rain” de Beyoncé: o álbum que vai definir a sua carreira.

O álbum de Beyoncé é um hino a todas as mulheres que passam dificuldades, que têm essa vida ácida cheia de obstáculos, que reencontram o seu poder e o mostram ao mundo. A decisão de voltar para o marido é sua (“Prometi que te ia deixar, mas as promessas não funcionam assim”), o atrevimento de surpreender o mundo com um álbum tão forte é seu, a capacidade de dominar até os cochichos e coscuvilhice sobre a sua vida pessoal é sua, ela é o centro de tudo (ela dá-se ao luxo de vender na digressão que iniciou esta quarta-feira t-shirts com a mensagem “boicotem a Beyoncé”). Com os limões que a vida lhe deu, Beyoncé não se limitou a fazer limonada: ela fez o álbum mais poderoso de toda a sua carreira.