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Eu, violino

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reuters

Reinaldo Serrano

“O violinista é aquele ser humano peculiar que é metade tigre e metade poeta”
Yehudi Menuhin

Num ano em que a literatura parece chamar a si a primazia das celebrações, muito por força dos 400 anos passados sobre a morte de William Shakespeare, em Stratford-upon-Avon, e de Miguel de Cervantes em Madrid, achei justo e equilibrado deixar à literatura o que a ela pertence e invocar a música a propósito de uma outra, bem mais discreta, celebração.

É que nesta última sexta-feira, 22 de abril de 2016, cumpriram-se 100 anos sobre o nascimento de um dos maiores nomes da história da música: porque no mesmo dia do ano de 1916 nascia em Nova Iorque o genial Yehudi Menuhin. Virtuoso do violino, o homem que aos 11 anos de idade sonhava dirigir uma orquestra deixou a sua marca em várias, pese embora seja recordado sobretudo como intérprete. E do violino se fez homem o filho de um casal de judeus russos que, chegados aos Estados Unidos, sentiram na pele a discriminação antissemita, a tal ponto que, para vincar a sua origem, o casal Moshe Menuhin/Marutha Sher decidiu batizar o recém-nascido com o nome de Yehudi: “o judeu”.

Redutora a etiqueta, de Yehudi Menuhin se dirá ter sido um cidadão do mundo; um exemplar cidadão do mundo, aqui se acrescenta sem reserva. Porque a longa atividade do violinista e maestro não se reduziu à música (o que já não seria pouco) mas também a ações de cariz humanista, traduzidas na fundação que ostenta o seu nome e que procura, em 11 países (entre os quais Portugal), dar voz aos que não têm voz. O pressuposto assenta que nem uma luva na raiz essencial do seu pensamento, segundo o qual a música é inerente ao ser humano, numa espécie de luz que ilumina a sua vida, e a dos outros.

Lirismo à parte, aqui se lembra um percurso iniciado desde muito cedo quando, com apenas 7 anos, o petiz se deu a conhecer como prodígio através da sua interpretação do Concerto para Violino de Mendelssohn. Foi o ponto de partida para uma carreira plena de sucesso... e de paradoxo: é que o desempenho do violinista, unanimemente reconhecido como impregnado de rigor técnico, era, ao mesmo tempo, um notável exercício de estilo em que a paixão se evidenciava em primeiro plano, como se a técnica fosse um mero veículo para a paixão. Mesmo nas gravações mais recentes, onde a idade do mestre era naturalmente mais avançada, o que delas releva é a fortitude do seu domínio sobre o violino, dando a cada nota um sentido muito próprio, muito singular, absolutamente genuíno, como se cada interpretação fosse um imenso castelo de cartas, sólido como tem de ser, mas simultaneamente frágil no seu íntimo.

Prova destas linhas são aquelas com que se escreve e ouve “Yehudi Menuhin - The Complete American Victor Recordings”, que, em boa hora e um tanto ou quanto inesperadamente, acaba de chegar no nosso mercado. A edição, numa caixa de 6 cd, inclui algumas pérolas dos trabalhos iniciais do mestre, nomeadamente 2 inéditos absolutos em edição discográfica: a gravação de composições de Beethoven registada em dezembro de 1949 e as sonatas de Kreutzer, onde o violino de Yehudi é acompanhado ao piano pela sua irmã Hephzibah. Mas, se me permitem a ousadia, destaco, sem margem para qualquer dúvida, a imensa curiosidade de um registo das primeiras gravações do então muito jovem violinista (1928), acompanhado ao piano pelo seu professor Louis Persinger. As boas notícias continuam quando se sabe que esta edição reflete todo o virtuosismo de Yehudi Menuhin na interpretação de peças de Béla Bartók, Bach, Schubert, Mendelssohn e Beethoven, entre outros, todas e cada uma delas uma delícia para os sentidos. Além do mais, o preço desta caixa de surpresas é, ele próprio, uma agradável surpresa: cerca de 20 euros.

A fama que Yehudi Menuhin alcançou enquanto músico foi catapultada para a defesa de outras causas, nomeadamente o combate à exclusão social, à injustiça social e à defesa dos direitos das minorias, além de ter proporcionado ao artista a possibilidade de demonstrar em várias ocasiões a sua solidariedade em diversos palcos: durante a II Guerra Mundial, Menuhin deu cerca de 500 concertos para as forças aliadas e, terminado o conflito, emprestou a sua arte em concertos na Alemanha para os sobreviventes dos campos de concentração.

Teve uma vida intensa, nobre, e devidamente reconhecida pelos seus pares, pela crítica e pelo público. Foi agraciado no Reino Unido com o título de Cavaleiro do Império Britânico e o de Lord Menuhin of Stoke d´Abernon, com o respetivo assento na Câmara dos Lordes. Muito ativo enquanto pedagogo, pensador, professor e estudioso de música, Yehudi Menuhin morreu em Berlim, a 19 de março de 1999. A edição de “Yehudi Menuhin - The Complete American Victor Recordings” prova duas coisas: a perda de um génio e a negação de tal ter acontecido. É este o poder e o legado do poeta do violino, que aqui vivamente se recomenda.