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Como se leva para Belmonte uma carta que vale €2,5 milhões? O Expresso acompanhou a viagem

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DE LUVAS O momento da colocação da Carta de Pêro Vaz de Caminha na vitrina especialmente criada para receber o documento, no Castelo de Belmonte

Marcos Borga

Pela segunda vez na vida, a Carta de Pêro Vaz de Caminha, o documento de 1500 que marca o descobrimento do Brasil e é Património da Unesco, saiu da sua residência habitual, a Casa-forte do Arquivo da Torre do Tombo. O Expresso acompanhou, em exclusivo, o transporte deste documento, avaliado em 2,5 milhões de euros, até Belmonte, onde vai estar nos próximos seis meses

5h50 da madrugada. Torre do Tombo, noite cerrada. Em frente a uma das caixas-fortes do edifício (existem pelo menos cinco), preparamo-nos para retirar do seu interior a Carta escrita por Pêro Vaz de Caminha, em 1500, que narra a descoberta do Brasil. O documento, que foi considerado Memória do Mundo pela Unesco em 2005, só saiu do seu ninho habitual em 2000, para comemorar os 500 anos do "achamento do Brasil", quando cumpriu um périplo emocional pelo país descoberto por Pedro Álvares Cabral.

Luís Sá, um dos seis conservadores da Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), é o responsável pelo transporte da carta em condições de perfeita segurança. Este frágil fólio de "papel de trapo, com fibras resistentes em linho e tinta ferro-gálica" está habitualmente guardado numa caixa forrada a vermelho com interior de veludo. Nas raras ocasiões em que sai, viaja numa "mala com isolamento térmico, anti-choque, que leva duas camadas de um material que reduz as oscilações". Abre-se a porta, imponente. Somos transportados para o universo do Tio Patinhas, mas a realidade é bem mais simples. Nesta casa-forte estão guardados muito poucos documentos, devido à logística horária da viagem de hoje. A porta tem quase 50 cm de fundura. Dentro da mala, a Carta está envolvida numa capilha, em cartolina alcalina.

O conservador Luís Sá, da Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, sai de uma das casas-fortes com a Carta de Pêro Vaz de Caminha, datada de 1500, numa mala de transporte

O conservador Luís Sá, da Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, sai de uma das casas-fortes com a Carta de Pêro Vaz de Caminha, datada de 1500, numa mala de transporte

Marcos Borga

Luís Sá fecha a mala e cerra a porta da Casa-forte. Chegou o motorista da carrinha que levará a Carta de Pêro Vaz, avaliada em 2,5 milhões de euros, "para efeitos de seguro", explica Silvestre Lacerda, diretor da DGLAB (pois "o valor real da Carta é incalculável"), até à sua nova morada nos próximos meses: o Castelo de Belmonte. Ali, a exposição "O Novo Mundo e a Palavra" permitirá a quem quiser ver a Carta ao vivo, numa oportunidade rara. Belmonte foi a terra de nascimento de Pedro Álvares Cabral, nobre que ainda hoje mantém património na freguesia.

Pela mão de Luís Sá, a mala sai, pela porta da frente da Torre do Tombo, para a carrinha de transportes que aguarda ao fundo da escadaria (que nem sequer é uma carrinha de valores). São 7h, já amanheceu e os pássaros cantam anunciando a alvorada, mas a cidade ainda dorme. "Às vezes, a simplicidade é a melhor estratégia", explica Luís Sá, com um sorriso. Mas explica que há outros locais de saída mais discretos, pelas traseiras e pela garagem.

SEGURANÇA Luís Sá fecha a porta da Caixa Forte. A Carta de Pêro Vaz de Caminha segue na mala

SEGURANÇA Luís Sá fecha a porta da Caixa Forte. A Carta de Pêro Vaz de Caminha segue na mala

Marcos Borga

É pela porta da frente que a Carta, avaliada em 2,5 milhões de euros (para efeitos de seguro) sai. Ao fundo da escadaria, encontra-se a carrinha que a levará até Belmonte.

É pela porta da frente que a Carta, avaliada em 2,5 milhões de euros (para efeitos de seguro) sai. Ao fundo da escadaria, encontra-se a carrinha que a levará até Belmonte.

Marcos Borga

Três horas de caminho passado, chegamos ao Castelo de Belmonte. Na torre de menagem, a vitrina, especificamente construída para receber a carta, aguarda. Esta tem de assegurar três parâmetros essenciais, para poder albergar o documento de 1500: "temperatura a cerca de 20ºC, humidade de cerca de 50%, e luminosidade baixa". Luís Sá mede a luz no interior da vitrina. Confere. Depois, abre a mala, calça umas luvas brancas, e retira a primeira capa protetora. Estão dez pessoas na exígua sala da exposição, mas não se ouve um pio.

O conservador começa por colocar "o berço" dentro da vitrina – o suporte de acrílico transparente que vai suportar a carta. Depois, escolhe o folio com a assinatura para colocar aberto, os restantes 12 fólios por cima. A vitrina é fechada à chave. A videovigilância da sala será acompanhada por elementos de segurança, 24 horas por dia.

TRATAR COM PINÇAS Calçadas as luvas, o conservador abre a mala de transporte para o momento decisivo: aquele em que se coloca um frágil fólio de 1500 numa vitrina, com parâmetros específicos de humidade, temperatura e luminosidade

TRATAR COM PINÇAS Calçadas as luvas, o conservador abre a mala de transporte para o momento decisivo: aquele em que se coloca um frágil fólio de 1500 numa vitrina, com parâmetros específicos de humidade, temperatura e luminosidade

Marcos Borga

"Onde outros olham para a Carta e veem um objeto histórico, classificado pela Unesco, eu vejo tinta e papel", conta Luís Sá. Formado em arqueologia, ele olha para os documentos como tendo de os "salvar". Passada uma escassa hora, inaugurará a exposição "O Novo Mundo e a Palavra", que se mantém em Belmonte durante seis meses. Uma centena de pessoas assiste à cerimónia. Presidente da câmara, embaixadores de vários países, padre, militares da GNR, ilustres da terra acorrem todos ao Castelo, ver a Carta. As mulheres trajam os seus melhores vestidos, as crianças vêm a condizer. A banda percorre, orgulhosa, as ruas empedradas da terra, semeando sons de fanfarra e alegria.

Bernardo Vasconcellos e Sousa, descendente em 16ª geração de Pedro Álvares Cabral, não quis faltar à chamada. O ex-diretor da Torre do Tombo acompanhou a Carta na sua primeira viagem para fora de Portugal, em 2000. Sobre esta, que descreve como "o testemunho de um encontro de culturas", destaca essencialmente a lição de tolerância que nos dá. "Não há uma linha de animosidade, de ódio", apesar de narrar o encontro de dois povos que não se conheciam. "Dá-nos uma lição de compreensão exemplar".

A CARTA De Pêro Vaz pode ser vista, nos próximos seis meses, no Castelo de Belmonte, terra onde nasceu Pedro Álvares Cabral, chefe da Armada que descobriu o Brasil em 1500

A CARTA De Pêro Vaz pode ser vista, nos próximos seis meses, no Castelo de Belmonte, terra onde nasceu Pedro Álvares Cabral, chefe da Armada que descobriu o Brasil em 1500

Marcos Borga

Efetivamente, ao longo das 14 páginas que constituem a Carta que Pêro Vaz de Caminha escreve ao Rei D. Manuel I, a relatar a descoberta de Vera Cuz, sobressai a bondade e ingenuidade dos nativos, numa antecipação de Teoria do Bom Selvagem, que Rousseau viria a professar séculos mais tarde. Algo que é bem diferente do que aconteceu noutros processos de Descobrimento e colonização - e ao qual o próprio Brasil não foi imune, mais tarde. Ali presente também, uma pequena delegação oriunda de Porto Seguro, no Brasil, não consegue conter a emoção: "Esta é a certidão de nascimento do Brasil", dizem."É um momento mágico... São 516 anos do menino-Brasil..." Soprem-se as velas. Reze-se a missa.

A exposição, com curadoria de André de Quiroga, conta, além da Carta de Pêro Vaz, com outras obras de arte: um quadro do século XV da "Virgem com o Menino", do Museu Nacional de Arte Antiga, um outro do século XVI da "Nossa Senhora do Leite", da Casa-Museu Medeiros e Almeida; um painel de azulejos de Sevilha, de 1508; e uma reprodução em papel de parede, de um mural de Carnovsky representando o Novo Mundo, com a sua fauna, iluminada a várias luzes. Para ver e usufruir até outubro.

Além da Carta, a exposição "O Novo Mundo e a palavra" integra outras obras de arte, como dois quadros do século XVI e este mural de Carnovsky

Além da Carta, a exposição "O Novo Mundo e a palavra" integra outras obras de arte, como dois quadros do século XVI e este mural de Carnovsky

Marcos Borga

Horário: de terça a domingo, das 10h às 18h
Preço: 5€ para a exposição "O Novo Mundo e a Palavra", ou 10€ com acesso aos quatro museus de Belmonte