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Toque, pise e escute a magia do teatro no Mosteiro de São Bento da Vitória

João Tuna

Embarque num “comboio fantasma” através de alguns dos cenários mais emblemáticos criados pelo Teatro Nacional São João ao longo do tempo

André Manuel Correia

A magia do teatro nunca esteve tão perto. Normalmente usufruída desde a plateia, poderá agora ser apreciada bem de perto, a partir de amanhã, no Mosteiro São Bento da Vitória, com a exposição “Noites Brancas”. A mostra reúne fragmentos cenográficos de algumas das peças mais emblemáticas apresentadas pelo Teatro Nacional São João (TNSJ) ao longo dos anos e agora retiradas do armazém. Toque. Pise. Escute. Mergulhe no arquipélago da insónia criativa e deambule pelos diversos cenários e ambientes, como um ator entregue ao improviso.

Mais do que uma exposição, esta é uma viagem que permite perceber todas as engrenagens ocultas do teatro. Aqui a cortina não se fecha. Tudo está à vista. Desde os cenários até aos figurinos e adereços. Desde os cartazes e fotografias de cena aos pormenores dos bastidores.

Para evitar a perdição, o diretor artístico do TNSJ, Nuno Carinhas, guiou o Expresso por entre paisagens mentais e psicadélicas, estrados de madeira sobre terra, cortinas de veludo vermelho, pelo ambiente sujo de uma feira na Polónia ou um labirinto de escoras suspensas. O teatro é isto: o lugar onde a imaginação se torna realidade.

Ao longo do corredor superior do mosteiro, lugar onde estará patente a mostra, o responsável pelo TNSJ sublinhou que este pode ser um espaço de “meditação e de descanso”, mas simultaneamente equiparável a um “comboio fantasma”.

Uma exposição permanente ou algo mais

A exposição reúne sete fragmentos cenográficos de espetáculos encenados por Ricardo Pais e pelo próprio Nuno Carinhas. “Para quem viu as peças é uma memória que se reaviva e para quem não viu é dar um pouco a conhecer, de forma mais próxima, o que é o teatro”, referiu o diretor artístico.

“Noites Brancas” começa como uma exposição permanente. Pelo menos por enquanto. Também à conversa com o Expresso, o diretor de palco Rui Simão admite que no futuro “não devia ser apenas uma exposição e devia transformar-se num museu” e fez referência ao facto de não haver nenhum museu de teatro no Porto. “Nada do que aqui está exposto é fixo, se nos apetecer para o ano podemos alterar os objetos e expor outra coisa”, acrescentou.

A viagem explora todos os sentidos. Os estímulos visuais são variadíssimos e levam o espectador até diferentes épocas e ambientes. Desde clássicos como “D. João”, de Molière, o “Mercador de Veneza”, de Shakespeare, ou a “Alma”, de Gil Vicente, até obras mais contemporâneas como “Casas Pardas” e “Tambores na Noite”, ambas encenadas por Nuno Carinhas, ou “O Saque” e “Lições”, peças levadas a palco por Ricardo Pais.

Para lá de toda a riqueza visual, a viagem é também sonora. Enquanto se deambula pelo espaço, ouvem-se excertos dos diálogos e da própria sonoplastia dos espetáculos ali reavivados. “Esta viagem poderia ser feita mesmo sem se ver e isso é muito interessante, sobretudo para o público invisual. Porque há aqui uma informação sonora que nos acompanha”, realça o diretor artístico.

Homenagem à única pessoa que morreu de amor

“Noites Brancas” constitui igualmente uma tributo aos vários intérpretes que foram passando por aquela casa de espetáculos. “Aqui vemos apenas os objetos mortos e desativados, porque, de facto, são os atores que lhe dão vida”, afirma Nuno Carinhas.

Destaque para o momento evocativo do percurso profissional da atriz Fernanda Alves, através de uma instalação que agrega registos áudio e fotografias de cena de espetáculos nos quais participou. A respeito da atriz, o poeta Mário Cesariny, figura máxima do surrealismo em Portugal, disse um dia: “É a única pessoa que conheço que morreu de amor.”

Nas palavras do diretor artístico, esta é também uma “mais-valia para dar a conhecer o espaço”, uma vez que o acesso à exposição estará integrado nas visitas guiadas ao Mosteiro de São Bento da Vitória, que decorrem de segunda a sexta-feira, pelas 12h. Os bilhetes têm o preço de três euros.

Também amanhã, dia da inauguração, realiza-se às 18h mais uma sessão da iniciativa “Um Objeto e Seus Discursos por Semana”. Trata-se de um ciclo de conversas, promovido pela Câmara Municipal do Porto, que já passou por vários locais da cidade. O objetivo de dar a conhecer a história de elementos e artefactos icónicos da cultura portuense e nacional.

Desta vez, a conversa girará inevitavelmente à volta do teatro. Mais concretamente, em torno da peça “Casas Pardas”. Na tertúlia estarão presentes o artista plástico e responsável pela conceção do cenário Pedro Tudela, o encenador e diretor artístico Nuno Carinhas e ainda Mónica Guerreiro.

“Casas Pardas” estreou em 2012 e foi distinguida pela Sociedade Portuguesa de Autores como melhor trabalho cenográfico. A obra ilustra os prenúncios ou pedaços de casas em construção ou já em risco de derrocada, numa alusão ao declínio do regime salazarista. O custo da entrada para esta tertúlia é de um euro.