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De Portugal para a Polónia ao ritmo da dança

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Photography Marcin Gołkowski/ StudioPm

Das clássicas às latinas, das urbanas ao ballet, passando pelas contemporâneas e pelas mais tradicionais. Esta sexta-feira assinala-se o Dia Internacional da Dança. João Relha é um jovem dançarino e quer chegar ao topo. Está a caminho. E em Portugal, é difícil ser-se o melhor. Aos 17 anos pôs a escola em pausa, largou o ninho e foi primeiro para Barcelona e depois para cidade polaca de Łódź. É por lá que deve ficar... porque quer ser o melhor

Um, dois, três, quatro...
Cinco, seis, sete, oito...

Um, dois, três, quatro...
Cinco, seis, sete, oito...

O João agarra elegantemente nas costas de Alicja. Tem a mão esquerda sobre a mão direita dela. O foco de luz segue-os pela pista, o vestido dela brilha refletindo as cores intensas na camisa branca dele. Esta sexta-feira, em que se assinala o Dia Internacional da Dança, o João está dançar em Florença num campeonato internacional. Tem 17 anos e largou (quase) tudo para ir atrás do sonho. Deixou o conforto do lar, o mimo da família e a companhia dos amigos porque quer ser o melhor nas danças de salão. E ser o melhor, em Portugal, é “complicado”.

“É inexplicável o que sinto quando danço. Adoro o que faço mas no nível em que estou já nem penso se gosto disto, penso apenas que quero ser o melhor. Já estou num nível competitivo. Sempre fui uma pessoa muito competitiva e quero ser o melhor. Não tenho outra coisa na cabeça senão isso. O meu objetivo é chegar ao topo”, conta João.

Aos oito ou nove anos, João Relha acompanhava o irmão mais velho Pedro às aulas de dança. Todos os dias ia e ficava à porta, nunca queria entrar. Até um dia... “Houve uma vez que disse sim à professora e fui. Desde aí não parei. Não sei porque dizia não, nem me lembro disso. Só sei estas histórias que a minha mãe me conta”, recorda João, que deu os primeiros passos de dança nos Alunos de Apolo, em Lisboa.

Apaixonou-se pelas danças de salão, “um desporto e uma arte” que depende do par. Não se pode dançar o tango, a valsa ou a rumba sozinho. Começou por ter uma parceira, que o acompanhou desde o início até janeiro de 2014. Competiram juntos e juntos conquistaram quatro títulos nacionais: foram duas vezes campeões de danças clássicas, uma vez vice-campeões e ainda venceram um campeonato de danças latinas.

O par cresceu na idade e como dançarinos. Treinavam quase diariamente e, tal como qualquer outro adolescente, tinham a escolas, os amigos e os namoricos. A dançarina que o acompanhava acabou por desistir e ele teve de arranjar substituta. “Até foi uma situação um bocadinho chata, porque fiquei sem par apenas duas semanas antes do campeonato nacional. E nesse ano tínhamos, seguramente, todas as condições para ganhar”, recorda.

Photography Marcin Gołkowski/ Studio PM

Quem também viu o desenvolvimento de João foi Pedro Borralho, antigo dançarino que soma 22 títulos nacionais em danças de salão. Foi professor de João desde os tempos dos Alunos de Apolo e até 2014. “Foi, e continua a ser, um aluno muito especial. É muito ambicioso e extremamente focado no objetivo. Além do talento que tem, não consegue parar de trabalhar. A forma dele estar e de aprender é algo que nunca vi em nenhum dos meus alunos. João sabe o que quer”, diz Borralho.

Os treinos foram sempre a prioridade de João. Queria mais, queria ser melhor, só não queria parar. Depois de perder o seu par, chegou a dançar com uma rapariga húngara e uma russa. Ainda fez parceria com a Natacha Lopes, com 19 anos, que era de Aveiro. E com apenas dois meses de treino foram campeões nacionais das Dez Danças, em 2014.

Mas isto não era o suficiente.

“Fui à procura do sonho”

No verão do ano passado surgiu a oportunidade de ele ir para Barcelona, para se juntar a Maria de Jesús, que estava sem par. Após discutir a possibilidade com os pais e assegurar que os estudos não ficavam para trás, João embarcou no aeroporto da Portela e partiu à aventura. “Diria que 90% da minha decisão de ir para Barcelona foi por causa dos professores que me iriam acompanhar todos os dias. Achei que poderia evoluir imenso”, explica.

Ao fim de pouco tempo, o jovem dançarino percebeu que os objetivos da nova partner não eram os mesmos que os seus. Voltou a ficar sem parceira. E voltou a procurar. “Na altura foi um golpe muito duro e andei perdido alguns dias, mas o sonho é demasiado grande e forte para morrer tão facilmente”.

E eis que num site especializado em dança desportiva encontrou nova companheira. O problema? Estava a mais de três mil quilómetros de distância. João é de Cascais, Portugal. Alicja Ciesielsk é de Łódź, na Polónia. Mas como se diz por cá, “o sonho comanda a vida” e a dança comandou a vida do português.

“Estou na Polónia desde o início de janeiro e não podia estar mais feliz em relação a como as coisas estão a correr. No entanto, com coisas boas também vêm algumas más... ”. A escola ficou em pausa. Quer dizer, mais ou menos.

O dançarino está no 12.º ano e, por lei, tem que completar a escolaridade obrigatória. Mas nem outra coisa lhe passou pela cabeça. Ao contrário do que acontecia em Espanha, na Polónia a língua é um entrave. “Se fosse aqui à escola não ia perceber nada”, conta João. “Em junho vou a Portugal fazer os exames nacionais a Português e Matemática, bem como as provas de equivalência a frequência a Biologia, a Filosofia e a Educação Física”, acrescenta.

Photography Marcin Gołkowski/ Studio PM

Portanto, pela dança abdicou de tudo o que fez no 10.º e 11.º anos e a nota final do secundário vai depender destas provas. A média do João no final do segundo ano do secundário estava fixada em 18 valores a Português e 19 a Matemática.

Os dias agora passam entre a preparação para conclusão do ensino e os treinos. De manhã, João agarra nos livros e à tarde, quando Alicja chega da escola, vão dançar. Em média, são três horas de dança diárias. Só ao domingo é que não, é dia de descanso. O que faz bailar 21 horas por semana, 90 por mês e mais de mil em apenas num ano.

“Voltar a Portugal era dar um passo atrás”

Já sabemos que Portugal é um país pequeno em dimensão. Está num cantinho da Europa, com dificuldade em brilhar. Há quem diga que os portugueses têm a mania que o estrangeiro é que é bom e não conhecem o que há dentro dos seus 92.212 km² de território. E nas danças de salão, como é?

“Há qualidade. Os portugueses têm algum talento para a dança. O grande problema é o investimento. Comparativamente aos outros países, diria que estamos 20 anos atrasados”, defende Pedro Borralho. “Temos o futebol, o ténis e talvez o judo como as federações mais apoiadas. E isto tem tudo a ver com a nossa cultura. Os investidores ainda não perceberam que podem ter retorno com a dança”, acrescenta.

João não foi o primeiro e, com certeza, não será o último dançarino à procura de formação e experiência além fronteiras. Depois da aventura frustrada de Barcelona, voltar a Portugal seria “dar um passo atrás na carreira”.

“Iria estar sem par e não tinha ninguém para treinar. E acho que seria um pouco complicado trazer alguém de fora para Portugal, porque em Cascais não tenho nenhum professor de topo que me possa acompanhar diariamente. Se trouxesse alguém, desmotivaria rapidamente. Ter um treinador todos os dias dá motivação e apoio”, justifica João.

Para Pedro Borralho não há muito professores de topo por cá. “Há para aí uns dez”, diz. Ser um bom treinador implica, na opinião do antigo campeão nacional, combinar a experiência com a técnica e a capacidade de lidar com os alunos. “Há uns muito bons na parte psicológica e há outros que são muito bons na técnica. Mas são poucos os que conseguem combinar ambas”.

A falta de patrocínios e investidores também não facilita o desenvolvimento da modalidade. Se há pouco dinheiro, os dançarinos não conseguem viver exclusivamente da sua arte. Logo, há menos tempo dedicado à prática desportiva porque é preciso ter outros trabalhos.

“Ou já temos um suporte financeiro, ou lecionamos para poder investir. Mas, depois, o foco para treinar não é o mesmo. E o tempo também não, pois gastamos parte dele a dar aulas. Por exemplo, na Dinamarca o campeão nacional recebe 2500 euros de prémio. Cá não se recebe nada. Alguém que trabalhe para ser campeão tem muito mais motivação ao saber que se vencer tem uma compensação monetária”, explica Pedro Borralho, que admite no entanto que em Portugal “tem havido uma boa evolução” mas não é suficiente.

Afinal, vale mesmo é realmente ir para fora? “Não é necessário mas se houver a possibilidade é melhor. Se queremos ser os melhores, então temos de ir aprender com os melhores”, sublinha o professor.

E o João sabe disso. “Na Polónia o nível é muito elevado. Fui campeão nacional em Portugal e cheguei aqui e fui 10.º classificado. Claro que foi bom para um mês de parceria, mas não deixa de ser um 10.º lugar. Significa que ainda houve nove pares à minha frente”, conclui.