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“Treblinka” recorda os que foram apagados da história

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O novo documentário de Sérgio Tréfaut e outros destaques do IndieLisboa 2016

O IndieLisboa acolheu a estreia em solo português do novo documentário de Sérgio Tréfaut: “Treblinka”. No centro do filme estão as palavras de Chil Rajchman (1914-2004): um judeu polaco que sobreviveu ao campo de extermínio nazi do título, e cujas lancinantes memórias foram recentemente publicadas pela sua família (podemos encontrá-las num livro intitulado “Je Suis le Dernier Juif”). Nelas, Rajchman dá conta do seu quotidiano como membro de um sonderkommando, isto é: de um grupo de prisioneiros incumbidos pelos nazis de zelar pelo ‘correto funcionamento’ do campo (ora removendo os cadáveres das câmaras de gás, ora recolhendo as roupas e os haveres dos mortos…). Para recuperar um passado histórico e pessoal que se presta mal à representação, o filme de Tréfaut começará por recriar, de modo alusivo, o território ao qual se reporta. Nomeadamente: encerrando a câmara (e o espectador com ela) no interior do espaço concentracionário de um comboio que, como aqueles que conduziam os judeus a Treblinka, vai circulando através da Ucrânia, da Rússia, da Polónia… Estamos perante uma viagem que servirá para suportar o texto de um narrador intradiegético (Kiril Kashlikov, cujo rosto vemos desfocadamente refletido nas janelas do comboio) que, em russo, vai cuidando de revivificar as memórias de Rajchman. O que daqui resulta é a permanente sobreposição do presente e do passado: do presente no qual a viagem decorre e do passado que as palavras retomam, num processo de evocação que fará ressurgir os fantasmas daqueles que foram chacinados pelos torcionários nazis (figurados pelos passageiros nus que, a espaços, se vão materializando no comboio). É um gesto estético que, como aquele que Sergei Loznitsa levou a cabo em “The Old Jewish Cemetery”, se rege pela urgência de não deixar morrer pela segunda vez – recordando-os – aqueles cujas existências foram apagadas da história por um regime atroz. Ou, se preferirmos: pela necessidade de resgatar do esquecimento os ténues traços e vestígios da sua passagem pelo mundo (aqueles que o texto de Rajchman salvou in extremis). Que ninguém se espante, então, se dissermos que está aqui o mais arrojado e arriscado dos documentários que Tréfaut assinou até hoje.

Se “Treblinka” é o veículo de uma confirmação (a de Sérgio Tréfaut), “Underground Fragrance” foi, para nós, o veículo de uma descoberta, a saber: a de Song Peng Fei, que com este trabalho (incluído na secção Silvestre do Indie 2016) se estreou na realização. Diga-se, todavia, que o nome deste jovem realizador chinês não nos era inteiramente desconhecido: já nos havíamos cruzado com ele no genérico de um filme de Tsai Ming-liang (“Cães Errantes”), onde vinha creditado como argumentista. Trata-se de uma obra cuja memória parece ecoar através dos planos de “Underground Fragrance” que, como ela, se propõe coreografar o difícil quotidiano daqueles que se movem nas margens de uma grande metrópole: a de Pequim, no caso. De maneira a fazê-lo, Peng Fei segue os passos de um rapaz que – lado a lado com famílias inteiras – vive num exíguo e esquálido quarto, soterrado nas catacumbas da cidade. A sobrevivência desta personagem depende da gestão da ruína, ou seja: da recolha e revenda do mobiliário que foi sendo abandonado por aqueles que se viram desapossados das suas casas (devoradas pela construção de empreendimentos de luxo). Ainda mais negra ficará a vida do protagonista, no dia em que um acidente (a queda de um muro) o deixa temporariamente cego e incapaz de trabalhar, condenando-o a orientar-se sozinho através do labirinto subterrâneo onde habita. A sua fragilidade será, contudo, amparada por uma vizinha: uma rapariga que faz questão de lhe esconder o facto de que trabalha como stripper num bar local… Esboça-se assim um princípio de romance que – pressentimo-lo – está votado ao malogro, e, em fundo, esboça-se também o retrato de um chinese dream que, aqui como no cinema de Jia Zhang Ke, precisa de segregar aqueles que dele não participam. Dir-se-á, e com razão, que este olhar sobre a China capitalista é traído pela sua rigidez (nota-se que o filme cumpre um programa temático que, por vezes, o obriga a esquecer-se das personagens), mas, ainda assim, convirá ficarmos atentos às futuras aventuras de Peng Fei na realização.

“Desde Allà”, de Lorenzo Vigas, Leão de Ouro em Veneza 2015

“Desde Allà”, de Lorenzo Vigas, Leão de Ouro em Veneza 2015

Alexandra Bas

Uma palavra, ainda, para a primeira longa de Lorenzo Vigas (“Desde Allà”), que chega à secção Silvestre do Indie depois de ter conquistado o Leão de Ouro na última edição do Festival de Veneza. Como “Underground Fragrance”, este filme projeta o diagnóstico de uma sociedade (a venezuelana) que se encontra marcada pelas diferenças de classe. Aqui, essas diferenças são sancionadas pela distância física que separa um homem de meia idade (Alfredo Castro, actor-fetiche de Pablo Larraín) dos rapazes de rua a quem paga para à frente deles se masturbar, no recato de um apartamento de Caracas que denuncia a sua pertença à classe média do país. Não será preciso esperar muito, porém, até que o predador se descubra vitimado por uma das suas presas: um rapaz que o espanca e lhe rouba a carteira, ainda no prefácio da ‘sessão’ para a qual havia sido recrutado. No entanto, longe de afastar o protagonista do seu objeto de desejo, este episódio de violência limitar-se-á a atraí-lo na sua direção. Entre estas duas figuras, nascerá depressa uma ambígua relação de tutoria (com a mais velha a arvorar-se na protetora da mais nova) que parece estar em condições de suprimir a distância que inicialmente as separava. O filme cativa-nos pelo modo como contrasta as ‘terras altas’ e as ‘terras baixas’, a tranquilidade da casa do protagonista (pintada em tons quentes, acolhedores) e a brutalidade das ruas de Caracas, e, sobretudo, pelo modo como recusa entregar-se ao freakshow sexual e ao determinismo social. Infelizmente, o lugar comum sociológico que “Desde Allà” passa o seu tempo a combater, acabará por contaminar uma sequência final que, para além de maniqueísta, atraiçoa o cinismo e o fatalismo do olhar de Vigas. E é pena porque, até esse momento, o filme havia feito prova de uma complexidade (temática e formal) que raramente se vê numa primeira longa. Seja como for, este trabalho que o Indie nos convidou a descobrir merece, pelo que põe em jogo, uma discussão séria. E convenhamos que, nos tempos que correm, isso já não é coisa pouca.