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A “história omitida” de Chernobyl

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SERGEI SUPINSKY / AFP / Getty Images

Svetlana Alexievich foi distinguida pela Academia Sueca em 2015 pela sua obra “polifónica”, descrita como “um memorial ao sofrimento e à coragem da nossa época”. No dia em que se assinala o 30.º aniversário do desastre nuclear de Chernobyl, falamos sobre o seu livro “Vozes de Chernobyl – História de um desastre nuclear”, que dá voz a quem viveu a situação de perto, entre habitantes das aldeias, bombeiros, soldados, cientistas, médicos, sobreviventes, familiares e amigos dos que morreram

Helena Bento

Jornalista

“A mãe e o pai beijaram-se, e eu nasci. Antes eu pensava que nunca iria morrer. Mas agora sei que vou morrer. Havia um menino no hospital… O Vádik Korinkov… Desenhava-me passarinhos, casinhas. Ele morreu. Morrer não me assusta. Vais dormir por muito tempo, nunca irás acordar. O Vádik dizia-me que quando morresse iria viver muito tempo noutro lugar. Um dos meninos mais velhos tinha-lhe dito. Ele não tinha medo. Sonhei com a minha morte”.

Ólia Zvónak, que ainda não era nascida ou era muito pequena quando ocorreu o desastre nuclear de Chernobyl, na cidade de Pripyat, perto da fronteira com a Bielorrússia, foi uma das cerca de 500 pessoas – entre habitantes das aldeias, bombeiros, soldados, cientistas, médicos, sobreviventes, familiares e amigos dos que morreram – que a escritora bielorrussa Svetlana Alexievich entrevistou ao longo de mais de dez anos. Esses testemunhos foram publicados no livro “Vozes de Chernobyl – História de um desastre nuclear”, publicado originalmente em 1997 e editado em Portugal no início deste ano, pela Elsinore. “Este livro não é sobre Chernobyl mas sobre o mundo de Chernobyl”, explica a autora numa das primeiras páginas. “Sobre o acontecimento em si, já se escreveram milhares de páginas e filmaram centenas de milhares de metros de película. Pois eu ocupo-me daquilo a que chamaria a história omitida, os sinais, sem deixarem sinal, da nossa permanência na terra e no tempo. Escrevo e recolho o quotidiano dos sentimentos, dos pensamentos, das palavras”.

Foi há exatamente 30 anos que a antiga União Soviética acordou para aquele que viria a tornar-se o pior desastre nuclear da história da Humanidade. Uma série de explosões destruiu um dos reatores da central nuclear de Chernobyl, formando-se de imediato uma nuvem radioativa que atingiu sobretudo a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia, alcançando depois outros países. Um dos excertos que o livro apresenta como introdução, retirado de uma coletânea de 1992, traça um percurso de propagação e contaminação que começou em Chernobyl e terminou nos Estados Unidos e Canadá, onde a 5 e 6 de maio de 1986, cerca de 10 dias após o acidente, foram detetadas substâncias radioativas.

“Demorou menos de uma semana para que Chernobyl se tornasse um problema do mundo inteiro”. Das três antigas repúblicas da União Soviética, a Bielorrússia foi a mais afetada. 70% dos 50 milhões de curies de radionuclídeos que foram lançados para a atmosfera caíram sobre o país, afetando 2,5 milhões de pessoas, mais de 3600 cidades e aldeias e um quarto do total da área florestal e agrícola, segundo números do Banco Mundial. Dados de uma coletânea de 1996, citada nessa série de textos introdutórios, dão a ver as consequências do desastre de outra perspetiva, porventura mais clara, mas igualmente aterradora – dez anos depois da tragédia, um em cada cinco bielorrussos vivia em terreno contaminado, o que correspondia a 2,1 milhões de pessoas, das quais 700 mil eram crianças.

Ólia Zvónak era uma delas. Ólia Zvónak que não tinha memórias – era demasiado pequena ou não tinha sequer nascido – mas aos dez anos já sonhava com a sua morte. “Sonhei com a minha morte. Ouvi no sonho o choro da minha mãe. E acordei...”

A história de Chernobyl foi também, ou sobretudo, a história de uma série de erros e más decisões de repercussões gigantescas, com alguma ingenuidade e desconhecimento à mistura. O Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, que começou por suspeitar que se tratara de um ataque dos Estados Unidos, estando em curso a Guerra Fria, reagiu como se fosse isso que tivesse efetivamente acontecido. “Estamos em estado de guerra. Nada de conversas desnecessárias! Quem deixar a pátria em apuros é traidor”, disse um oficial na altura a um grupo de soldados que foram chamados a um centro de recrutamento.

Foram precisas 36 horas para a população das áreas mais afetadas ser retirada. As pessoas começaram a abandonar as suas casas e os seus animais levando, muitas delas, apenas a roupa que tinham no corpo e uns poucos pertences, reunindo-se depois em grupos à espera dos autocarros, com destino a Minsk ou Kiev. Estavam longe de saber que nunca mais voltariam. “O pai trouxe a palavra evacuação do trabalho: ‘Vamos ser evacuados’. Como nos livros sobre a guerra. Estávamos já sentados no autocarro, quando o meu pai se lembrou de se ter esquecido de alguma coisa. Correu para casa. Regressou com duas camisas novas… No cabide… Foi estranho… Não tinha nada a ver com o pai… No autocarro estavam todos calados, a olhar pelas janelas. Os soldados tinham um aspeto extraterrestre, andavam nas ruas com capas de camuflagem brancas e máscaras”.

Enquanto isso, bombeiros e liquidadores chamados de emergência ao local trabalhavam dezenas de horas, mais do que podiam, mais do que a saúde aguentava, porque queriam fazer mais dinheiro ou porque o sacrifício os atirava para aquilo, sem os meios de proteção adequados, “mãos desprotegidas ou só com umas luvas de lona”, sem fraquejar, sem questionar, menos ainda duvidar, “porque o que tem de ser tem muita força” e, por isso, “nenhum lamento” e nenhuma dor. Havia as piadas e anedotas que contavam entre eles e isso bastava, dava para enganar a tristeza, era “o riso através das lágrimas”. “O que nos salvou foi o humor”, dizia um deles. “É como naquela velha parábola… As pessoas condoem-se do homem a quem o incêndio devorou a casa e o palheiro… Ardeu tudo… O homem responde: ‘Ao menos, arderam muitos ratos!’ E atira alegremente o chapéu ao chão. Assim é o bielorrusso!”, dizia outro.

O reator n.º 4, onde ocorreram as explosões, ardeu durante dez dias. Os procedimentos em caso de ameaça de guerra nuclear previam tratamento preventivo imediato da população com iodo, que deveria ter sido usado até o fogo se encontrar completamente extinto, mas pouco foi feito a esse e a outros níveis. “A ciência estava ao serviço da política, e a medicina também foi envolvida na política”, dizia Vassíli Boríssovitch Nesterenko, então diretor do Instituto de Energia Nuclear da Academia das Ciências da Bielorrússia, em entrevista à autora. “Funcionava o KGB, os serviços secretos. Abafavam-se as ‘vozes ocidentais’ com interferências. Havia milhares de tabus e de segredos partidários e militares (…) Além disso, éramos todos educados na crença de que o nuclear soviético para fins pacíficos era tão perigoso como a turfa e o carvão. Éramos pessoas paralisadas pelo medo e pelo preconceito. Pela superstição da fé...”.

Svetlana Alexievich, nascida em 1948 em Ivano-Frankivsk (então Stanislav), na Ucrânia, foi distinguida pela Academia Sueca pela sua obra “polifónica”, descrita como “um memorial ao sofrimento e à coragem da nossa época”. “Vozes de Chernobyl” é o resultado de dez anos de investigação no local. Das 500 pessoas que a autora bielorrussa entrevistou, 107 foram incluídas na versão final do livro, tendo cada uma delas sido entrevistada mais de 20 vezes. De cada entrevista, cuja transcrição ocupava entre 100 a 150 páginas, foram usadas, em média, dez páginas.

Este método, que Svetlana aprendeu com outros autores russos e bielorrussos e, numa entrevista à “New Yorker”, comparou à pintura de um retrato, correspondendo os segundos e terceiros e quartos contactos a “uma nova pincelada”, permitiu-lhe chegar onde mais ninguém chegara até ali nem viria a chegar – permitiu-lhe entrar na casa, na memória de cada uma dessas pessoas. Entrar com respeito e com respeito sair. A palavra-chave aqui é precisamente essa: respeito. Respeito pela história, pela vida dessas pessoas. Este livro também é delas.

Houve pais que perderam os filhos, filhos que perderam os pais, mulheres e homens que se perderam uns dos outros, uns aos outros, para sempre. Valentina Apanassévitch viu o marido, liquidador – um desses “heróis de Chernobyl” – morrer-lhe nos braços, desfeito pela doença. Liudmila Ignatenko nem sequer se pôde despedir do seu. Numa ocasião – a única desde que o marido, bombeiro, dera entrada no hospital – em que se ausentou para ir ao funeral de dois amigos, ele, Vassíli Ignatenko, morreu. Liudmila estivera sempre ao lado dele, apesar das recomendações dos médicos e enfermeiros. “Não me deixavam abraçá-lo. Acariciá-lo… Mas eu… eu levantava-o e sentava-o na cama. Mudava a roupa da cama, punha-lhe o termómetro, trazia e levava a arrastadeira… Limpava. Passava toda a noite ao lado. Vigiava cada movimento. Cada suspiro.” Mais tarde, a enfermeira que estivera de serviço contou-lhe que, antes de morrer, Vassíli chamara por ela – “Liússia! Liússenka!”.

O testemunho de Liudmila Ignatenko é o último do livro e estas foram as suas últimas palavras: “As pessoas morrem, mas ninguém realmente lhes perguntou nada. Ninguém nos perguntou pelo que passámos. O que vimos… Ninguém quer ouvir falar da morte. Do que é assustador… Mas eu falei-lhe do amor… Do quanto amei”.