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Sobreviver a todo o custo

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Kim Dickens regressa ao papel de Madison na segunda temporada de “Fear The Walking Dead”

Frank Ockenfels 3/AMC

A prequela de “The Walking Dead” está de regresso para uma segunda temporada — mais longa — onde a história ganha um novo fôlego. O Expresso falou com o elenco e com o criador de “Fear The Walking Dead”, já em exibição no AMC

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

Em Los Angeles

Jornalista

Não é fácil viver num mundo pós-apocalíptico, com a cidade que sempre nos habituámos a considerar nossa destruída e sem um lugar seguro para começar de novo. É verdade que em “Fear The Walking Dead” nenhum porto é seguro, mas é preferível tentar a desistir. É disso que se trata, de sobrevivência, e da urgência de encontrar um lugar em que a paz perdida possa ser restaurada. Todos os limites serão quebrados e a força humana (não só a física como sobretudo a emocional) será posta à prova. Los Angeles já não existe.

Cliff Curtis, ator que interpreta o professor de literatura Travis Manawa, fala do constante quebrar de fronteiras na série, mas não deixa de relembrar aquele que, para ele, “é um dos pormenores mais interessantes da primeira temporada”. Ao contrário do que seria expectável num mundo civilizado, não havia uma rede capaz de agir perante a ameaça dos mortos-vivos e isso fez toda a diferença no rumo dos acontecimentos. “Descobrir que as pessoas que achamos que nos vão proteger acabam por não o fazer é duro e isso marcou o grupo”, considera. Estava a falar do exército norte-americano, e em nome da sua personagem, mas não vale a pena ficar a pensar no passado. “Fear The Walking Dead” é ficção, mas os atores estão de tal modo dentro do ambiente da série que falam como se aquela história também lhes pertencesse. “A vida terá de continuar e é preciso enfrentar as adversidades de frente”, conclui Curtis. Ainda bem que o ator pensa assim, pois as dificuldades vão continuar a aumentar e a sua personagem não parece preparada para o que se segue.

Não é possível voltar atrás e agora os sobreviventes tornaram-se autênticos refugiados. Sobreviveram como conseguiram, esconderam-se onde puderam. Madison Clark (Kim Dickens, na imagem principal), Travis e a restante família acabaram por ocupar o abrigo de Victor Strand (Colman Domingo), mas a vista para o Oceano Pacífico não indiciava o fim da luta. De pacífico, o oceano apenas conserva no nome e agora o iate “Abigail” será o seu único mundo. Fora dele, não há nada. Há novidades também do lado dos walkers, que afinal não são como os conhecemos em “The Walking Dead”. Se fossem, este barco podia ser a salvação do grupo, mas o problema volta a agudizar-se quando se descobre que os zombies também nadam.

Robert Kirkman imaginou este tempo novo em banda desenhada, mas transportar a história para uma série televisiva acarreta riscos e é preciso que tudo seja feito em segurança (já que para apocalíptica basta a história). Kim Dickens explica que este “ambiente completamente diferente” trouxe novos “desafios para os atores, uma vez que trabalhar num espaço rodeado de água faz com que sejam necessários procedimentos de segurança adicionais”. A dinâmica do grupo também mudou, com o espaço a tornar-se demasiado pequeno “para sete pessoas que pensam e agem de forma diferente”. Aqui não há que temer, que o elenco continua unido.

CONFIANÇA PARA CONTINUAR

Claro que o sucesso da temporada inicial — melhor estreia de sempre de um programa da televisão por cabo norte-americana, vista por mais de 10 milhões de espectadores — ajudou, mas não foi nesse momento que a série se tornou grande. Embora os resultados de “Fear The Walking Dead” fossem superiores ao esperado, havia ainda uma ligação demasiado grande à marca-âncora. Ainda não havia um elemento diferenciador conhecido. Era preciso mostrar que não se tratava apenas de mais um spin-off (neste caso uma prequela) como muitos dos que abundam na produção televisiva.

A primeira leva de episódios sabia a pouco, mas Robert Kirkman e Dave Erickson (cocriadores e produtores executivos da série), conseguiram que o interesse pela história se mantivesse alto. Só era preciso encontrar o seu lugar e sair do conforto de ostentar a marca de um dos maiores sucessos da televisão nos últimos tempos. Alycia Debnam-Carey, atriz que interpreta Alicia Clark, considera que agora o lugar já está marcado. “Os seis episódios da primeira temporada foram um período muito curto para estabilizarmos a nossa série e nos afastarmos do gigante”, que regressa para a sétima temporada em outubro, mas “com 15 episódios, vamos conseguir explorar melhor estas personagens e retratar o nosso mundo”.

Ainda não chegámos ao tempo em que “The Walking Dead” e “Fear The Walking Dead” se cruzam e o criador da série julga que isso “poderá nunca acontecer” porque “a série original está muito avançada”, mas há todo um universo a explorar e que liga as duas histórias, mesmo que uma seja o passado da outra.

Os primeiros sete episódios da segunda temporada são exibidos às segundas-feiras, pelas 22h10, no AMC, mas será preciso esperar um pouco mais para conhecer o final. “Fear The Walking Dead” segue a receita da série-mãe e, a partir de agora, cada temporada estará dividida em duas partes. Os oito episódios restantes têm estreia marcada ainda para este ano, em data a anunciar.

travis manawa

O professor de literatura é um elemento pacifista numa altura em que “qualquer um podia querer pegar nas armas e disparar a matar”. A verdade é que ele não é assim e isso pode prejudicá-lo. “Ele não tem muitas hipóteses”, avança Cliff Curtis — ator que interpreta Travis pelo segundo ano. Há questões filosóficas a pairar na mente deste pensador e ele não conseguirá ver-se livre delas tão cedo. Travis terá de ganhar coragem se quiser manter-se à tona.

victor strand

Até pode ser a tábua de salvação do grupo, mas isso não faz dele um santo. Victor Strand (Colman Domingo) já havia abrigado os sobreviventes, mas agora vai tornar-se ainda mais importante para a família. Ele é o dono do iate “Abigail”, único local ‘seguro’, embora isso não lhe dê independência. “Provavelmente, vai precisar mais daquelas sete pessoas do que estava à espera”, avança o ator. Quando é a vida que está em jogo, todas as ajudas são importantes.

Daniel salazar

O barbeiro panamiano (interpretado por Rubén Blades) é uma das personagens mais misteriosas de “Fear the Walking Dead” e poderá ter espaço para crescer nesta segunda temporada. Depois da morte de Griselda, terá de lidar com as frustrações da filha Ofelia (Mercedes Mason) — que vê no pai um monstro—, ao mesmo tempo que tenta proteger a própria pele. Pelo que se viu até agora, a dinâmica familiar deverá continuar a marcar grande parte da história de Salazar.

FEAR THE WALKING DEAD
De Robert Kirkman
Com Kim Dickens, Cliff Curtis, Rubén Blades, Colman Domingo
AMC, segundas-feiras, 22h10
(Temporada 2)

O Expresso viajou a convite da AMC Global

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 16 abril 2016