Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Mário de Sá-Carneiro: uma existência sem grades sobre os precipícios

  • 333

Esta terça-feira passam cem anos sobre a morte do poeta modernista e da geração d’Orpheu Mário de Sá-Carneiro. Para assinalar a efeméride, realiza-se uma sessão de homenagem à vida e obra do autor na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto

D.R.

Há cem anos, Portugal vivia a agitação dos primeiros anos da República e a Europa era o palco do horror do primeiro conflito à escala global. A incerteza era o único dado adquirido. A 26 de abril de 1916, num quarto de hotel em Paris, Mário de Sá-Carneiro, poeta d’ Orpheu, perdia-se para sempre no “labirinto de si próprio”. Os seus precipícios nunca tiveram grades. A dor, esbatida nos seus versos, não era fingimento. Tudo na vida lhe era pungente. Num triste golpe de asa, cinco frascos de arseniato de estricnina levaram, naquele dia, um dos mais originais poetas portugueses do séc. XX, a quem faltou sempre um pouco mais de sol. Um pouco mais de azul.

Para assinalar o centenário da sua morte, realiza-se esta terça-feira, pelas 19h, na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, uma tertúlia para enaltecer a vida e a obra do artista. Em diálogo vão estar duas pessoas ligadas à área da literatura, a professora Isabel Ponce de Leão, da Universidade Fernando Pessoa, e Maria do Carmo Mendes, da Universidade do Minho, acompanhadas pelo psiquiatra Carlos Mota Cardoso, da Universidade do Porto.

Numa conversa com o Expresso, Isabel Ponce de Leão realça a forma com Mário de Sá-Carneiro foi capaz de “apanhar, por um lado, algumas das estéticas finisseculares e, por outro lado, conseguir aderir a todos os ‘ismos’ da modernidade. Nomeadamente o futurismo, o interseccionismo, o decadentismo e o simbolismo.”

Uma geração que colocou Portugal na Europa

No início do século passado, o desenvolvimento tecnológico ia redefinindo o mundo. E a arte, inevitavelmente, não ficava alheia a essa metamorfose. Várias novas correntes estéticas começaram a emergir, com abordagens vanguardistas e revolucionárias.

Em Portugal, o modernismo manifestou-se, pela primeira vez e com toda a sua força, em 1915, com a publicação da revista Orpheu. Com uma poética transgressora, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros escandalizaram a elite literária lisboeta, mas fizeram eclodir novos horizontes artísticos. Nascia uma geração de poetas insatisfeitos, para os quais o descontentamento era o leme quebrado para uma deriva pessoal perigosa. “Foi uma geração cosmopolita, que conseguiu colocar Portugal na Europa, o que até à altura ainda não tinha sido feito”, destacou Ponce de Leão.

Ao contrário de Fernando Pessoa, que deambulava pelos seus vários universos interiores, Mário de Sá-Carneiro debatia-se contra a turbulência da sua única existência. A sua vida foi uma “Dispersão” (1914) sob um “Céu em Fogo”, título do volume de novelas que publicou em 1915. Em julho desse mesmo ano, viaja para Paris e aí teve início o seu declínio.

Na opinião de Isabel Ponce de Lão, Sá-Carneiro “foi alguém que conviveu com diversas inseguranças físicas. Sendo um esteta, nunca se aceitou a si próprio em termos físicos, porque tinha uma figura que considerava feia. Isso, para ele, foi causa de enormes complexos de inferioridade”, algo que o conduziu a uma crescente despersonalização, muito frequente nos poetas d’Orpheu.

A 31 de março de 1916, escreveu mais uma carta endereçada a Fernando Pessoa, amigo com quem manteve sempre o contacto. “Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas: mas não tenho dinheiro”, desabafava o poeta, colocado pelas circunstâncias da vida numa “áurea temeridade”.

Um poeta grande que podia ter sido imenso

Nos versos de alguns poemas, como “Fim” ou “Quase”, ambos escritos no seu último ano de vida, fala abertamente sobre a morte e conduz o leitor até à sua perdição. Mário de Sá-Carneiro foi sempre intenso e exuberante, até na forma como optou morrer. “Ele fez do suicídio uma encenação”, considera Isabel Ponce de Leão.

Vinte e cinco anos de vida foram suficientes para o tornar num dos vultos maiores do modernismo português, mas ficou aquém daquilo que poderia ter sido. “Só não foi maior porque faleceu muito cedo. Caso contrário, teria sido imenso”, salientou a professora de Literatura na Universidade Fernando Pessoa.

Apesar de um certo esquecimento em Portugal, Mário de Sá-Carneiro, juntamente com Fernando Pessoa, são dois autores bastante acarinhados e estudados no Brasil, muito por força de artistas como Maria Bethânia e Adriana Calcanhoto que tiveram um papel fulcral na divulgação dos dois poetas.

Para Isabel Ponce de Leão, iniciativas, como esta, que divulguem os grandes nomes da literatura portuguesa são essenciais, “porque, caso contrário, são sempre os medíocres a vir ao de cima por serem mais fáceis. Mas na arte a facilidade não é sinónimo de qualidade”. Ler estes poetas dá trabalho, não causa um contentamento imediato, reconhece a especialista em literatura, mas recupera uma frase de Fernando Pessoa para frisar que “ser descontente é ser Homem”.

Para além do diálogo entre os três participantes desta tertúlia, a sessão conta igualmente com a declamação de poemas do autor e ainda com um momento musical a cargo de Manuel Sobral Torres, acompanhado à viola, para interpretar os poemas “Sete”, “Dispersão”, “Quase” e “Fim”.

Esta sessão de homenagem resulta de uma parceria entre o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) e a Câmara Municipal do Porto.